30 Setembro 2005 - Um pouco de Hakim Bey e anonimato.

Em um post passado, vinculei uma entrevista muito interessante a Hakim Bey. Se a entrevista foi feita ao "senhor" Bey ou não, se foi Bey quem a forjou ou não, isso pouco interessa. E é exatamente esse o ponto da questão.

É curioso notar, a respeito desse "senhor" e dessa entrevista, duas coisas: em primeiro lugar, seu notável anonimato, e todas as reviravoltas que circunstanciam a entrevista: o atentado poético que deixa uma carta na cama do repórter (uma invasão de domicílio apenas para deixar um pequeno papel), o lugar misterioso do encontro, o carro desconhecido, "um obscuro restaurante num porão em chinatown", o narguilé (um narguilé em chinatown?)... Tudo isso por uma entrevista, uma mísera entrevista, que poderia ser agendada por telefone e fruto de um banal encontro.

Sobre isso, lembro-me de uma das últimas entrevistas feitas (pela BBC?) a Jean Genet: às perguntas do jornalista, Genet apenas respondia com desvios, com fugas, com insultos, respostas arrogantes e indiretas. Depois de algumas respostas, o narrador dizia: "é mais um artifício de Genet, mais uma encenação, tanto como sua literatura, que quer cercar e desviar-se do leitor". Na hora, pensei: o narrador não entendeu nada! Genet não estava encenando, não era um velho coroca que apenas fugia do repórter ou se divertia com sua arrogância. Aquilo era um ato político, um ato de "não vou me submeter a seu exame", um ato de, sobretudo, não mostrar-se, esquivar-se, manter no anonimato aquilo que, se por um lado foi um nome celebrado por Sartre e outros, por outro - esse, importante - envolveu-se em lutas efetivas, lançou seu corpo em lutas, e, naquele momento, não ostentava a figura do autor, e sim, lutava.

Talvez tudo isso só tenha sentido a partir de uma outra (esta, a segunda) coisa, que Bey fala na entrevista: para haver TAZ, não é o mero teatro, não é a mobilidade da rede, não são os "livros" os elementos realmente necessários; é preciso, sobretudo, haverem corpos, haverem trocas entre corpos, haverem agenciamentos (esse belo conceito inventado por Guattari), e é nesse sentido que tudo o mais é instrumento para corpos se autonomizarem. Se Genet era "arrogante", se Bey é esquivo, talvez seja aí que resida o ponto: não é a
"autoridade" de quem foi admirado por alguém como Sartre, não são os sentimentos ou a identidade do autor que está em jogo. É, precisamente, outra coisa...

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29 Setembro 2005 - Constantine Cavafy: O Mar pela Manhã (1915)

Um blog chamado Absorto (blog interessantíssimo!) tem publicado uma série de poemas de Constantine Cavafy, comentado e debatido suas traduções.

Seguindo a tradução ao castelhano, encontrei uma tradução ao português, que o absorto comenta, feita por Jorge de Sena (espero postar sobre ele também no futuro).

O mar pela manhã

Deixem-me estar aqui. Que também eu contemple,
um pouco, a natureza - o mar, nesta manhã,
o céu azul sem nuvens, de um e de outro a luz
onde se alonga amarelada praia.

Deixem-me estar aqui. Que eu pense que isto vejo
(não é que o vi um instante, quando aqui parei?)
Tudo isto só - e não, também aqui, visões,
memórias, e os espectros do prazer antigo.

- Constantine Cavafy -

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Publicado por nomadez às 2:28 PM - 3 comentários



28 Setembro 2005 - Constantine Cavafy: Finalidades

Em meio ao temor e às suspeitas
com espírito agitado e olhos apavorados
nos consumimos e planejamos como fazer
para evitar o iminente
perigo que tão terrivelmente nos ameaça.
E assim nós erramos, ele não estava em nossos caminhos:
falsas eram as mensagens
(ou não as escutamos, ou não as entendemos bem).
Outra catástrofe, que nunca imaginaríamos,
repentina, fulminante, cai sobre nós
e despreparados - não há mais tempo - nos arrebata.


- Constantine Cavafy -
(tradução: nomade-z)


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- Zaratustra e o sol


Eis o que aprendi do sol, desse opulento sol de inesgotável riqueza que, ao pôr-se, derrama o seu ouro pelo mar; por isso, até os mais pobres pescadores remam com dourados remos! Vi isto uma vez e, enquanto o via, as minhas lágrimas não se cansavam de correr... (Das antigas e das novas tábuas, III)

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27 Setembro 2005 - Entrevista com Hakim Bey na High Times Magazine

Maske, 2.51kMuito antes dele se tornar uma lenda ?cult?, eu ouvi pela primeira vez o nome do misterioso e esquivo Hakim Bey quando girava o dial do rádio em Nova York. Ele foi mencionado em um programa da WBAI FM chamado ?A Cruzada Moura Ortodoxa?. Mas logo, amigos estavam falando em surdina sobre suas buscas à Zona Autônoma Temporária. Intrigado, eu procurei pelo clássico underground de Hakim, T.A.Z., A Zona Autônoma Temporária: Anarquismo Ontológico e Terrorismo Poético (Autonomedia, po Box 568, Brooklyn, ny 11211). Eu o achei numa pequena livraria esotérica que tinha desde trabalhos de Emma Goldman até Aleister Crowley. Eu comecei a perguntar sobre a Sociedade do Anarquismo Ontológico e sobre esse enigmático Hakim Bey. Ninguém sabia como chegar ao efêmero Hakim. Ligar para os editores dele me deixou ainda mais frustrado.

Hakim Bey também lançou um CD declamado com música de Bill Laswell pelo selo Axiom, chamado também de TAZ. Então eu os contatei também - inutilmente. Então um dia eu acho um bilhete na minha cama dizendo para vir à Rua Mott às 9 da noite para uma entrevista. Como isso veio parar aí? Na Rua Mott, um carro anônimo encosta e me leva a um obscuro restaurante num porão em Chinatown, onde uma cabine privada com cortinas está separada, com um pequeno narguilé e um prato cheio de Bolas de Templo Nepalesas(1). Sou convidado a entrar.


HAKIM BEY: Bem, a informação padrão (que é tudo que eu falo) é que eu era um poeta da corte de um principado sem nome no norte da Índia, que eu fui preso na Inglaterra por um atentado anarquista a bomba e que eu vivo em Pine Barrens, Nova Jersey, em um trailer da Airstream(2). Quando eu venho a Nova York eu fico num hotel em Chinatown.

HT:O que é a Zona Autônoma Temporária?
HBA Zona Autônoma Temporária é uma idéia que algumas pessoas acham que eu criei, mas eu não acho que tenha criado ela. Eu só acho que eu pus um nome esperto em algo que já estava acontecendo: a inevitável tendência dos indivíduos de se juntarem em grupos para buscarem liberdade. E não terem que esperar por ela até que chegue algum futuro utópico abstrato e pós-revolucionário.

A questão é: como os indivíduos em grupos maximizam a liberdade sob as situações dos dias de hoje, no mundo real? Eu não estou perguntando como nós gostaríamos que o mundo fosse, nem naquilo em que nós estamos querendo transformar o mundo, mas o que podemos fazer aqui e agora. Quando falamos sobre uma Zona Autônoma Temporária, estamos falando em como um grupo, uma coagulação voluntária de pessoas afins não-hierarquizada, pode maximizar a liberdade por eles mesmos numa sociedade atual. Organização para a maximização de atividades prazeirosas sem controle de hierarquias opressivas.

Existem pontos na vida de todos que as hierarquias opressivas invadem numa regularidade quase diária; você pode falar sobre educação compulsória, ou trabalho. Você é forçado a ganhar a vida, e o trabalho por si só é organizado como uma hierarquia opressiva. Então a maioria das pessoas, todos os dias, tem que tolerar a hierarquia opressiva do trabalho alienado.

Por essa razão, criar uma Zona Autônoma Temporária significa fazer algo real sobre essas hierarquias reais e opressivas ? não somente declarar nossa antipatia teórica a essas instituições. Você vê a diferença que eu coloco aqui?

No aumento da popularidade do livro, muitas pessoas se confundiram com esse termo e usaram ele como um rótulo para todo o tipo de coisa que ele realmente não é. Isso é inevitável, uma vez que o próprio vírus da frase está solto na rede (para usar metáforas de computadores). Se as pessoas usam erroneamente ele ou não isso não é tão importante, porque o significado está incrustado no termo. É como um vírus verbal. Ele diz o que significa.

HT:Uma Zona Autônoma Temporária necessariamente se abstém do uso do dinheiro?
HB:Isso é difícil em uma situação real, mas pode acontecer. O Rainbow Gathering (3), por exemplo, se abstém do uso do dinheiro. Isso é quase que uma garantia de um grau muito maior de autonomia temporária para as pessoas que estão participando.

Eles na realidade aumentam seu prazer saindo fora da economia de dinheiro/mercadorias.

HT:A imprensa ligou o fenômeno TAZ ao movimento cyberpunk. Você acha que a Internet é uma Zona Autônoma Temporária?
HB: Não. Um mal entendido muito peculiar veio à tona. A revista Time fez uma matéria sobre o ciberespaço que me citou erroneamente - o que me deixou particularmente feliz. Se a Time entendesse o que eu estava falando, eu seria forçado a reestruturar toda minha filosofia, ou talvez desaparecer pra sempre em desgraça.

Eles diziam que o ciberespaço era uma Zona Autônoma, e eu não concordo. Enfaticamente não concordo. Eu acho que a liberdade inclui o corpo. Se o corpo está em um estado de alienação, então a liberdade não é completa em nenhum sentido. O Ciberespaço é um espaço sem corpo. Ele é, de fato, um espaço abstrato e conceitual. Não existe cheiro nele, nem gosto, nem sentimento e nem sexo. Se qualquer uma dessas coisas existe lá, são apenas simulacros dessas coisas e não elas mesmas.

A única coisa que a Internet ou o cIberespaço podem ter com relação à Zona Autônoma Temporária é que eles são instrumentos ou ?armamento? para alcançar a liberdade. Então é importante trabalhar para proteger as liberdades de expressão e comunicação que estão abertas neste exato momento pela Internet contra o FBI e Clinton e a ?Infobahn? (um bom termo em alemão para designar a auto-estrada da informação). Cuidado para não ser atropelado na Infobahn! Comunicando-se por uma BBS(4), um grupo pode planejar um festival de maneira muito mais eficaz, alguma coisa como um Rainbow Gathering, estruturado nas chances para maximizar o potencial para o surgimento de uma TAZ real. A Internet também pode ser usada para montar uma rede econômica alternativa genuína. Trocas e permutas trilhadas na Internet em comunicações privilegiadas.

HT: Você pode explicar o ?Terrorismo Poético??
HB: Por terrorismo poético eu entendo ações não-violentas em larga escala que podem ter um impacto psicológico comparável ao poder de um ato terrorista - com a diferença de que o ato é de mudança de consciência. Digamos que você tem um grupo de atores de rua. Se você chamar o que você está fazendo de ?performance de rua?, você já criou uma divisão entre o artista e a audiência, e você alienou de si mesmo qualquer possibilidade de colidir diretamente nas vidas diárias da audiência. Mas se você pregar uma peça, criar um incidente, criar uma situação, pode ser possível persuadir as pessoas a participar e a maximizar sua liberdade. É uma estranha mistura de ação clandestina e mentira (que é a essência da arte) com uma técnica de penetração psicológica de aumento da liberdade, tanto no nível individual quanto no social.

HT: Você pode fazer algumas sugestões especial ao leitor da HIGH TIMES para criar uma TAZ?
HB: Ok, tudo bem. Eu gostaria de dizer isso ao movimento canabista, e, em um nível mais amplo, eu gostaria de direcionar isto ao movimento libertário em geral, que é um aliado próximo, cruza e tem áreas de contingência com o movimento canabista.

Se os Libertários tivessem gasto os últimos quinze anos organizando redes econômicas alternativas para potencializar a emergência de uma Zona Autônoma Temporária e levá-la rumo a uma Zona Autônoma Permanente, ao invés de jogar o jogo fútil das políticas de terceiros, que é uma posição fracassada desde o início; se o movimento canabista tivesse colocado sua energia nos últimos quinze anos na organização de redes econômicas alternativas, não necessariamente baseadas em trocas ?criminosas? de dinheiro por maconha mas nas necessidades e possibilidades básicas da vida real; se toda essa energia fosse direcionada nesse sentido, ao invés do que parece para mim uma quimera total, um fantasma totalmente abstrato chamado ?poder político democrático legislativo? - então eu penso que estaríamos há muito no caminho claro da mudança revolucionária nessa sociedade.

Nessas circunstâncias, toda essa boa intenção e grande energia foi mal direcionada em um jogo - um jogo em que a autoridade cria as regras, e nas quais ?eles? criaram as regras para que pessoas como eu e você não possam ganhar poder dentro desse sistema.

Agora isto é uma crítica anarquista que eu estou fazendo, com os motivos mais camaradas possíveis. Eu acho que é uma tragédia essa energia ter sido mal direcionada. Eu não acho que é tarde demais para acordar e ver o que está na verdade acontecendo(5) aqui.

Outro ponto que eu gostaria de falar é que a HIGH TIMES foi particularmente culpável durante a última eleição, quando conclamou seus leitores (incluindo uma grande porcentagem de usuários de maconha nesse país) a votar naquele Clinton filho da puta, baseado em um rumor extremamente suspeito: de que Al Gore, um conhecido mentiroso, hipócrita e embusteiro, cochichou pra alguns ativistas da maconha que ele estava do lado deles. E por isso, presumivelmente, milhares, se não milhões, de fumantes de maconha saíram e votaram em um outro bando de filhos da puta, se esquecendo toda a sabedoria do antigo slogan anarquista, "nunca vote, isso só encoraja os bastardos."

Eu vou fazer uma aposta agora. Eu como a edição da revista em que isto será impresso se, sob a administração Clinton, existirem quaisquer melhoras na lei relacionada ao uso da cannabis por prazer. Pode haver um pequeno abrandamento no uso da maconha medicinal ou comercial. Mas não haverá abrandamento - de fato, somente haverá uma maior regulação - no uso da erva por prazer. Ok? E se isso não for verdade, eu como a porra da revista com uma merda de um leite e um açúcar.

HT: Isso seria um ato de terrorismo poético?
HB: Heh, heh.

HT: Você acha que o movimento canabista é contraproducente em alguns aspectos?
HB: Antes de qualquer crítica, eu preciso enfatizar que eu pertenço a uma religião em que a maconha é um sacramento, e eu sou um defensor vitalício de ações pró-maconha. Eu uso o termo ?ação? ao invés de ?legalização? por uma razão muito específica, na qual eu vou chegar. Daí eu ofereço crítica em um espírito construtivo. Eu quero que isso fique bem claro, como Nixon costumava dizer.

Nos anos em que vêm existindo um movimento pela legalização da maconha, todas as leis desse país ficaram piores e mais opressivas. No tempo em que vêm existindo um movimento de legalização da maconha, o preço da erva ficou proibitivamente caro por causa da Guerra às Drogas. Existe aí uma relação direta entre a Guerra às Drogas e o movimento pela legalização da maconha? Provavelmente não muita. Porém, tagarelar tudo todo o tempo e fazer tudo aberto, deixando as estatísticas e listas de discussões disponíveis para as agências de inteligência e outras não é uma tática boa quando você está na verdade lidando com uma substância ilegal.

Eu acho que temos um complexo de mártir nessa situação. Existem pessoas que querem confrontamento contra uma projeção psicológica do que eles acham que é a ?autoridade?. Em outras palavras, contra quem é relativo à autoridade de um jeito autoritário. Simplesmente por desafiarem abertamente essa autoridade, eles estão se definindo como criminosos e vítimas do estado.

HT: Você acha que eles poderiam usar um pouco de terrorismo poético?
HB: Eu acho que eles poderiam usar um pouco de clandestinidade sensata e um pouco do senso do terrorismo poético, sim.

HT: Você escreveu extensamente sobre os tongs(6), as sociedades secretas Chinesas. Você diria que a economia underground da maconha é organizada de forma semelhante aos tongs?
HB: Absolutamente, é organizada como uma soma, como uma... bem, não é organizada como uma soma de tongs, e é isso que é o problema. O ponto é que um tong é uma sociedade secreta. E isto, novamente, é algo que não é somente uma fantasia; é algo real. Um grupo de amigos com afinidades que se junta para intensificar seu prazer e liberdade por meios que não sejam reconhecidos como legais pela sociedade criou inconscientemente uma tong. O que eu acho que eles poderiam fazer é conscientemente criar uma tong. O que nós precisamos aqui é uma estética e uma tradição de sociedades clandestinas não-hierárquicas.

Como nós organizamos verdadeiras redes secretas de permuta? Mas também, como nós criamos uma poética desta situação, como nós fazemos disto algo que funcione não somente num nível econômico prático, mas também num nível imaginário, onde os corações das pessoas estão comprometidos?

HT: Uma comunidade.
HB: Eu iria além, ao usar o termo de Paul Goodman, communitas, para mostrar que nós estamos falando sobre algo que é mais que um arranjo a esmo, mas realmente um objetivo pela qual nós estamos nos esforçando.

Eu vejo a Zona Autônoma Temporária como o florescimento temporário do sucesso dessas redes. O que nós estamos esperando é que as estruturas não hierárquicas atuais maximizem seu potencial para o surgimento de uma TAZ.

Vamos falar sobre as redes como uma espécie de subsolo rico em micélios que são por si só o corpo verdadeiro da planta. E ele pode se espalhar por milhas, como você sabe. Os cogumelos que aparecem, os frutos - eles são como uma Zona Autônoma Temporária, esses são as florescências da rede, se eu consigo fazer aqui minha metáfora botânica.

Uma das formas mais óbvias de florescimento é o festival: a rave, o Rainbow Gathering, os festivais Zippies(7) e coisas como o festival Burning Man(8) em Nevada - esses tipos de festivais espontâneos, não regulados, não mercantilizados, que aparecem.

HT: Mas talvez eles tenham vidas, ?vidas de prateleira?(9) - só uma certa quantidade de tempo quando eles podem criar e florescer.
HB: Existem algumas coisas que são inerentemente temporárias. E existem outra coisas que são temporárias somente porque não somos fortes o suficiente para fazê-las permanentes. Digamos que você se instala por alguns meses em um lugar bonito perto de uma floresta, na beira de um lago, no verão, com alguns amigos e você tem uma TAZ verdadeira. Erotismo e beleza natural e liberdade pra correr pelado por aí e fumar maconha ou fazer o que você quiser. Mas como isto tudo é movido pelo dinheiro que as pessoas têm que fazer no mercado onde elas vendem o trabalho, isto pode durar somente um certo tempo. Nós gostaríamos de fazer isto durar para sempre, transformado a TAZ em uma PAZ, uma Zona Autônoma Permanente (Permanent Autonomous Zone). Nós não temos o poder econômico para fazer isto. É temporário somente porque nos falta o poder para fazermos isto mais permanente.

Outras coisas são claramente temporárias, e devem ser apreciadas pela sua temporalidade. Quando a essência saiu delas nós devemos perceber isto, e deixar esta forma em busca de outras formas. Então uma certa quantidade do que vem sendo chamado de ?trabalho de flutuação? é necessário. Você tem que estar sintonizado com onde a liberdade e o prazer estão sendo potencializados e onde não estão, para que você possa espontaneamente se manter flutuando e ficar à frente desse fenômeno. Isso é exatamente o que hordas de pessoas estão fazendo por aí: velhos camaradas em rv´s(10), caras novos viajando clandestinamente, está tudo acontecendo. Não estou descrevendo um esquema utópico, é o que está acontecendo de qualquer jeito. Tenhamos consciência disso. Vamos perceber que isso é um verdadeiro valor, porque faz algo por nossas vidas, diferentemente de todo essa jogatina política estúpida.

Nós somos constantemente seduzidos a colocar nossas forças e nosso amor e nossa criatividade em objetivos que são imediatamente reocupáveis e cooptáveis e mercantilizáveis por ?eles?. Isso devia parar.

HT: Eu vejo pessoas tendo problemas para comunicar-se com outras porque elas estão acostumadas a se falar pela televisão. Então, quanto você está trabalhando em uma comunidade, o primeiro passo para criar uma TAZ seria a comunicação.
HB: Absolutamente. As pessoas estão alienadas pela mídia. Isso é algo que tem que ser repetido constantemente. Quanto mais você se relaciona com os meios, menos você se relaciona com outros seres humanos em sua proximidade física. Novamente, isso não é uma grande teoria, isto é algo que simplesmente está acontecendo. Você gasta mais tempo vendo TV, você gasta menos tempo se relacionando com seus amigos. E quando isto se espalha em nível social, você começa a ver algumas coisas muito estranhas ocorrendo. A corrente tem mais força que qualquer participação individual na corrente. Existe uma sinergia negativa, um efeito de realimentação negativa por meio do qual sua alienação de outras pessoas está sendo causada por televisões e rádios e filmes e jornais e livros. Eu certamente não isento os impressos dessa crítica. E subitamente você descobre que não é somente uma questão de alienação, é uma questão de miserabilidade. Essa separação de você da realidade física está fazendo você miserável.

Muitas pessoas chegaram a esse ponto. Eles não sabem o que fazer porque nós não estamos dando a eles uma direção. Digo, radicais fumantes de maconha não estão dando a eles uma alternativa clara e realista, mas ao invés disso estão sonhando acordados com várias merdas de New Age e estilo de vida.

HT: Onde as pessoas podem achar Zonas Autônomas Temporárias às quais você estaria disposto a dizer quando e onde encontrar?
HB:Eu não posso - porque elas não existem precisamente em mapas com coordenadas cartesianas. Existem outras dimensões que não os mapas onde as Zonas Autônomas Temporárias podem ser achadas. Eu gosto de metaforizar estas dimensões como dimensões fractais, o que traz toda a questão de caos e complexidade. E uma das razões pelas quais eu não posso te dar nenhum indicativo é porque essa é uma situação fractal carregada de complexidade. A qualquer momento uma TAZ pode ocorrer. Em um nível mínimo, um jantar na casa de alguém pode repentinamente evoluir em uma TAZ. Não qualquer jantar, mas o potencial está lá porque é organizado de uma maneira não hierárquica, para convivência. E, em um nível máximo, você teve Zonas Autônomas Temporárias que duraram muito mais, onde a festa na realidade continuou por alguns anos. Quando estamos falando sobre a Zona Autônoma Temporária, per se, como nodos realmente intensos de consciência e ação, é possível que os seres humanos não possam aguentar muito disso. Talvez dezoito meses ou dois anos de festa contínua seja tudo que alguém pode aguentar.

HT: Bem, eu conheço algumas pessoas...
HB: Claro! Mas nós podemos falar de Zonas Autônomas Permanentes, você sabe, o que é um conceito diferente.

HT: Você chamaria o Rainbow Gathering de Zona Autônoma Permanente?
HB: Eu chamo ele de Zona Autônoma Periódica, o que é ainda outra variação dessa idéia. Existem certas Zonas Autônomas que você não pode manter o tempo todo, mas que você pode realizar com uma certa freqüência constante, e os festivais anuais são os exemplos. O que nós temos que fazer é evitar a mercantilização. Preciso dizer algo mais desse assunto? Ok?

O festival é um momento intenso, mas periódico. É momentâneo, mas periódico. Assim como no Rainbow, não é realmente necessário ser dono da propriedade, como eles inteligentemente descobriram. Qualquer grupo de pessoas na América pode fazer isso. Você não precisa se juntar às tribos Rainbow e seguir seu estilo de vida (que eu particularmente não acho atrativo). Você só faz um encontro em uma floresta nacional e monta sua tenda fora da linha de visão, ou você pega um lugar onde tenham poucos ursos.

No festival Burning Man, o guarda florestal mais próximo está a 75 milhas de distância, e eles converteram ele a um amigo e defensor do festival, de qualquer jeito. É organizado por alguns artistas da Califórnia que vão para a pior parte do deserto de Nevada, só um mar de areia preta até onde a vista alcança, e eles fazem uma estátua gigantesca de um homem de vime, então no último dia do festival eles ateiam fogo a ele e todo mundo bebe um monte de cerveja e vê ele queimar. É um tremendo sucesso e está sendo repetido sempre com uma periodicidade anual. As pessoas amam isto. Um jornal é impresso no lugar, uma mini estação de rádio FM é montada cada ano e todos os tipos diferentes de pessoas vêm, de caras que moram isolados em rvs a ciclistasa hippies, o pessoal ?flower? e o pessoal Rainbow e os hobos(11) e artistas da Califórnia. E todo mundo se diverte muito, e então eles arrumam as malas e vão embora e esse é o fim daquilo, e o guarda florestal não incomoda eles porque está a 75 milhas de distância e ele gosta daquilo de qualquer jeito porque eles deixam o lugar limpo. Então qualquer um pode fazer isso. Você não precisa esperar pela permissão de alguma autoridade tribal.

HT: Criar uma TAZ é quase como criar o seu próprio espaço autônomo livre em você mesmo.
HB: Eu fico repetindo a frase "maximize o potencial para o aparecimento". Eu sei que é uma frase meio grotesca e complicada, mas ela precisa ser sempre inserida em qualquer frase que nós falemos aqui. Você não pode declarar uma TAZ. Ou, se você pode, você é um mágico muito mais eficiente do que eu. Você simplesmente não pode decidir ter uma TAZ. Uma TAZ é algo que acontece espontaneamente. Quando de repente você diz, uau, sabe, tem N pessoas aqui, mas tem N mais N energia, excitação, prazer, liberdade, consciência. Certo? Esse momento de sinergia de corrente cruzada acontece quando um grupo de pessoas está tendo algo mais de uma situação que a soma do que os indivíduos estão colocando nisto. Você não pode prever isto. Tudo o que você pode fazer é maximizar o potencial para o aparecimento.

Glossário
1. Bolas de Templo Nepalesas (Nepalese Temple Balls) - nome dado para pelotas de haxixe.

2. Airstream - Tradicional marca americana de trailers e motor-homes, pertencente à Thor Industries. Seu website é www.airstream-rv.com.

3. Rainbow Gatherings - festival-encontro dos participantes da ?Família Arco-Íris da Luz Viva?(Rainbow Family of Living Light), que na realidade não é uma organização, mas diferentes pessoas que pregam a construção de pequenas comunidades, não violência, estilo de vida alternativo, Paz e Amor, e tradições indígenas americanas. Esse encontro, que acontece anualmente, tem por objetivo rezar pela paz no planeta.

4. BBS - Bulletin Board System, um termo de informática que designa uma base de dados de mensagens acessível pela Internet, ou melhor ainda, um mural de recados eletrônico.

5. No original, ?I don?t think that it?s too late to wake up and smell the coffee here.?

6. Tong - sociedade secreta chinesa, do cantonês tong, ?assembléia de todos?.

7. Festival Zippy - encontro das pessoas da cultura zippie - que se definem, em parte, como hippies tecnológicos, que acreditam em funções religiosas na tecnologia. O nome vem de hippies com zip. Retirado dehttp://www.fiu.edu/~mizrachs/Zippies.html

8. Festival Burning Man - festival que reúne anualmente cerca de vinte e cinco mil pessoas, e envolve música, arte e comunidade. Retirado de http://www.burningman.com/

9. Vida de Prateleira - extensão de tempo que um produto, especialmente alimento, pode permanecer na prateleira de uma loja antes de se tornar impróprio para uso; prazo de validade.

10. RV (recreation vehicles) - veículos como trailers e motor-homes.

11. hobo - Alguém que viaja de lugar a lugar procurando por lares e empregos temporários. Retirado de www.hobotraveler.com/hobo.shtml

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26 Setembro 2005 - Maurice Blanchot: sobre Michel Foucault e seu primeiro livro

Abaixo consta excerto do livro escrito por Blanchot sobre Michel Foucault. O critério de seleção foi as considerações que Blanchot fez sobre História da Loucura. Clicando em "leia mais", pode-se ver o resto do excerto:

[p. 16]Para ser exacto, devo dizer que não tive relações pessoais com Michel Foucautl. Nunca o encontrei, excepto uma vez, no pátio da Sorbonne durante os acontecimentos de Maio de 68, talvez em Junho ou Julho (mas dizem-me que ele não estava lá), e dirigi-lhe então algumas palavras, ignorando ele quem lhe estava a falar (digam o que disserem os detractores de Maio, foi um belo momento esse, em que cada um podia falar com qualquer outro, anónimo, impessoal, homem entre os homens, acolhido sem outra justificação para além da de ser um outro homem). É verdade que durante esses acontecimentos extraordinários, eu dizia muitas vezes: Mas porque é que Foucault aqui não está? - restituindo-lhe assim o seu poder de atracção e considerando o lugar vazio que ele deveria ter poupado. Ao que me respondiam com uma observação que não me satisfazia: ele continua um pouco reservado; ou então: está no estrangeiro. Mas, precisamente, muitos estrangeiros, até remotos japoneses, estavam...

...lá. Foi assim, talvez, que perdemos a ocasião de nos encontrarmos.
Todavia, o seu primeiro livro, que lhe trouxe renome, fora-me dado a conhecer, quando o texto não passava ainda de um manuscrito quase sem nome. Era Roger Caillois quem o tinha e o propôs a alguns de nós. Recordo o papel de Caillois, porque me parece ter permanecido ignorado. O próprio Caillois nem sempre era bem aceite pelos especialistas oficiais.

[p.17]Interessava-se por demasiadas coisas. Conservador, inovador, sempre um pouco à parte, não entrava na sociedade dos que possuem um saber reconhecido. Por fim, forjara um estilo belíssimo, por vezes até ao excesso, a tal ponto que se julgou destinado a zelar - feroz zelador - pela correcção da língua francesa. O estilo de Foucault, pelo seu esplendor e pela sua precisão, qualidades aparentemente contraditórias, deixou-o perplexo. Não sabia se aquele grande estilo barroco não arruinaria o saber singular cujos múltiplos caracteres, filosófico, sociológico, histórico, o embaraçavam e exaltavam. Talvez visse em Foucault um outro ele próprio que lhe furtaria a herança. Ninguém gosta de se reconhecer, estranho, num espelho onde não distingue o seu duplo, mas aquele que gostaria de ter sido.

O primeiro livro de Foucault (admitamos que se trata do primeiro) valorizou com a literatura um tipo de relações que mais tarde seria preciso corrigir. A palavra «loucura» foi uma fonte de equívocos. Foucault só indirectamente tratava da loucura: ocupava-se antes de mais desse poder de exclusão que, um belo ou triste dia, foi instaurado por um simples decreto administrativo, decisão que, dividindo a sociedade, não em bons e maus, mas em sensatos e insensatos, permitiu reconhecer as impurezas da razão e as relações ambíguas que o poder - aqui, um poder soberano - iria manter com o que de mais bem partilhado há, enquanto não deixava de dar a entender que não lhe seria tão fácil reinar indivisamente. O importante é, com efeito, a divisão; o importante é a exclusão - e não o que se exclui ou divide. Afinal, que estranheza a da história, se o que a faz oscilar é um simples decreto e não grandes batalhas ou importantes lutas de monarcas. Além disso, esta divisão que de modo algum é um acto de maldade, destinado a punir seres perigosos porque definitivamente associais (ociosos, [p. 18]pobres, depravados, profanadores, extravagantes e, para concluir, os cabeças de vento ou os loucos) irá, por uma ambiguidade mais temível ainda, ocupar-se deles, prestando-lhes cuidados, alimentos, bênçãos. Impedir os doentes de morrerem na rua, os pobres de se tornarem criminosos para sobreviverem, os depravados de corromperem os piedosos dando-lhes o espectáculo e o gosto dos maus costumes, tudo isto não é detestável, mas assinala um progresso, o ponto de partida de uma mudança que os melhores mestres acharão excelente.

Assim, a partir do seu primeiro livro, Foucault trata de problemas que desde sempre pertenceram à filosofia (razão, desrazão), mas trata-os na perspectiva da história e da sociolo gia, privilegiando, ao mesmo tempo, na história, uma certa descontinuidade (um pequeno acontecimento faz grande diferença), sem fazer dessa descontinuidade uma ruptura (antes dos loucos, há os leprosos, e é nos lugares - lugares ao mesmo tempo materiais e espirituais - deixados vagos pelo desaparecimento dos leprosos que se instalam os refúgios de outros excluídos, enquanto esta necessidade de excluir se reitera sob formas surpreendentes que ora a revelam, ora a dissimulam).



BLANCHOT, M. Michel Foucault como o imagino. Lisboa: Relógio d´água, 1987.
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24 Setembro 2005 - Projeto de um blog abandonado


Gosto muito de um texto intitulado "O Filósofo Mascarado", escrito por um pensador francês ilustre que, por achar que sua posição estava sendo mais valorizada do que suas palavras, decidiu forjar uma entrevista sem identificar-se.

Hoje em dia é incrível as pessoas ouvirem muito mais quem diz do que o quê se tem a dizer. Poderíamos enumerar aos montes aqueles que hoje em dia dispensam boas idéias simplesmente por não ouvirem pessoas que não pertencem a determinados "postos".

Para isso, tinha pensado numa idéia de um blog, que vinculava idéias sem identificação. Abandonei aquela idéia em nome do nomadologiaz. Acima, consta o emblema que sobrou da antiga idéia.

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- Frederic Gros: A interiorização da loucura na modernidade.

Abaixo, consta a tradução (livre) de uma passagem de um excelente livro de Frederic Gros sobre Foucault, chamado "Foucault et la Folie". Em questão, Gros está descrevendo o grande movimento histórico de interiorização da loucura efetuado entre os reformadores das instituições asilares, e o surgimento das ciências "psi". Movimento que confere ao "homem", em sua própria condição de objetivado, uma distância interior entre sua consciência e suas determinações. Distância que, em um primeiro momento, era mensurada no Asilo a partir de práticas eminantemente morais, para num segundo momento, correlativo à interiorização, receberem o estatuto de "científicas".

A objetivação alienante será retomada como relação concreta do médico com o doente (capítulo "O nascimento do asilo"). Toda a tese de Foucault consiste, desta vez, apoiando-se sobre os textos de Tuke e de Pinel, em demonstrar como a partilha clássica razão/desrazão é conservada em sua estrutura, construída não mais como distância social entre uma sociedade e suas margens, mas como distância do louco a si mesmo: interiorização da partilha. A empresa dos primeiros asilos se deixa descrever como uma vasta culpabilização. Falta que se crie entre o louco e ele mesmo uma distância para que advenha em si a tomada de consciência dolorosa de seu estado de louco, ressentido como falta, anomalia monstruosa. A partir de que, em um processo de objetivação incessante e controlado, o louco será conduzido a se considerar nesse estado como outro que se desejaria que seja, outro que ele deveria ser (que o que ele é normalmente). Ele deverá desejar coincidir com o tipo normal que se tem o cuidado de o representar como sua verdade. Há interiorização, no sentido em que a alienação não consiste mais em rejeitar o louco às margens delimitadas do exterior como sendo as zonas de uma einterdita, da falta, do mal, da animalidade, mas, guardando ao mesmo tempo o lugar institucional de uma alienação material (enclausuramento em um espaço guardado), a redobrar interiormente a alienação construindo-a como distância do louco a si mesmo. Curar um louco é, por uma série de operações em concerto, fazê-lo ressentir como falta a reparar sua própria loucura. Ele deverá aprender a vivê-la pela culpa. Curar, para um louco, é terminar por aceitar pela angústia, e por um perpétuo controle de si, essa identidade que um outro (o médico) o apresenta como sã. (Gros, F. Foucault et la Folie. Paris: Plon, 1997. p. 73-74)
Curioso eco essa passagem tem com o lugar de Hegel na argumentação foucaultiana. Para Foucault, Hegel extrai com todo rigor conceitual as medidas dos reformadores do Asilo, transformando-as num jogo interior do homem em sua busca por autonomização. Trata-se do interessante parágrafo 408 da Enciclopédia das Ciências Filosóficas e seus adendos, em que Hegel elogia a sensibilidade clínica de Pinel. Talvez essa passagem de Gros ajude a compreender a ligação entre Hegel e o asilo, em História da Loucura.
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23 Setembro 2005 - Constantine Cavafy: Ithaca

When you set out on your journey to Ithaca,
pray that the road is long,
full of adventure, full of knowledge.
The Lestrygonians and the Cyclops,
the angry Poseidon -- do not fear them:
You will never find such as these on your path,
if your thoughts remain lofty, if a fine
emotion touches your spirit and your body.
The Lestrygonians and the Cyclops,
the fierce Poseidon you will never encounter,
if you do not carry them within your soul,
if your soul does not set them up before you.

Pray that the road is long.
That the summer mornings are many, when,
with such pleasure, with such joy
you will enter ports seen for the first time;
stop at Phoenician markets,
and purchase fine merchandise,
mother-of-pearl and coral, amber and ebony,
and sensual perfumes of all kinds,
as many sensual perfumes as you can;
visit many Egyptian cities,
to learn and learn from scholars.

Always keep Ithaca in your mind.
To arrive there is your ultimate goal.
But do not hurry the voyage at all.
It is better to let it last for many years;
and to anchor at the island when you are old,
rich with all you have gained on the way,
not expecting that Ithaca will offer you riches.

Ithaca has given you the beautiful voyage.
Without her you would have never set out on the road.
She has nothing more to give you.

And if you find her poor, Ithaca has not deceived you.
Wise as you have become, with so much experience,
you must already have understood what Ithacas mean.



Cavafy é um poeta grego do início do século XX. Mistura temas de sua época com temas de sua terra com perfeição. Parece ser uma jóia rara, dessas desconhecidas, mas que ao encontrarmos sentimos alguma coisa, a partir da qual não podemos mais tirar a vista...

Engraçado. Conheci esses poemas mais ou menos como outro leitor assíduo, cuja história me agradou muito. Por acaso, havia visitado outra página das minhas preferidas, e lá estava.

Encontrei uma tradução de Ithaca ao português, mas a versão em inglês é mais bonita

When you set out on your journey to Ithaca,
pray that the road is long...

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Publicado por nomadez às 1:54 PM - 0 comentários



- Hakim Bey: Sobre o nomadismo psíquico

link: zona autônoma provisória

De importância vital para a expressão da realidade ZAP é o conceito de nomadismo psíquico (ou como lhe chamamos por piada ? ?cosmopolitanismo sem raízes?). Aspectos deste fenómeno foram já discutidos por Deleuze e Guattari em Nomadology and the War Machine, por Lyotard em Driftworks e outros autores na edição sobre o tema do Oásis na publicação Semiotext(e). Usamos o termo ?nomadismo psíquico? em detrimento de ?nomadismo urbano?, ?nomadologia?, ?trabalho de dispersão (driftwork)?, etc., apenas para que possamos reunir todas estas ideais num complexo vagamente estruturado, para ser estudado à luz da aparição da ZAP.

?A Morte de Deus?, que de certo modo funcionou como uma descentralização do projecto civilizacional Europeu, gerou uma mundividência multi-perspectivada e pós-ideológica capaz de se movimentar sem estar presa às suas raízes entre filosofia e mito tribal, entre ciências da natureza e Taoísmo ? possibilitando a capacidade de ver pela primeira vez como se através dos olhos de algum insecto dourado, cada faceta mostrando um mundo inteiramente diferente.

Esta visão foi todavia conquistada por vivermos numa época em que a velocidade e o ?fetichismo do bem de consumo? criaram uma unidade falsa e tirânica que tende a diluir a diversidade cultural e individual, fazendo com que um lugar ?seja tão bom como outro qualquer.? Este paradoxo cria ?ciganos?, viajantes psíquicos impelidos pelo desejo ou pela curiosidade, vagabundos com lealdades pouco arreigadas (e verdadeiramente desleais ao ?projecto Europeu?, que perdeu já todo o charme e vitalidade), não acorrentados a nenhum tempo ou local particulares, procurando diversidade e aventura? esta descrição não cobre só a classe-X que são os artistas e intelectuais mas também os trabalhadores migrantes, os refugiados, os desalojados, os turistas, a cultura das roulottes ? e ainda as pessoas que ?viajam? pela Internet, que talvez nunca venham a sair dos seus quartos (ou aqueles que, como Thoreau, ?viajaram muito ? em Concord ?); e por fim ?toda a gente? está incluída, todos nós, que vivemos num percurso por automóveis, férias, televisões, livros, filmes, telefones, mudamos de emprego, de ?estilo de vida?, religiões, dietas, etc., etc.

O Nomadismo Psíquico como táctica, aquilo a que Deleuze e Guattari metaforicamente chamam ?a máquina de guerra?, transforma o paradoxo passivo num paradoxo activo e talvez até ?violento?. As últimas agonias e estertores de ?Deus? no seu leito de morte já se fazem ouvir há tanto tempo ? materializados no Capitalismo, no Fascismo e no Comunismo, por exemplo ? que ainda sobra muita ?destruição criativa? a empreender por parte de comandos pós-Bakuninistas e Pós-Nietzcheanos ou apaches (literalmente ?inimigos?) do velho consenso. Estes nómadas praticam a razzia, são corsários, são um vírus; desejam a ZAP e precisam dela, acampamentos de tendas negras debaixo das estrelas do deserto, interzonas, oásis secretos, fortificados, ligados por caravanas em rotas ocultas, pedacinhos de selva e terra-má ?libertados?, zonas de acesso não recomendado , mercados negros, bazares clandestinos.

Estes nómadas cartografam as suas rotas olhando para estrelas bizarras, que podem ser cachos luminos de informação no ciberespaço, ou alucinações, quem sabe. Abram sobre a mesa um mapa da terra; sobreponham um mapa das mudanças políticas; por cima desse, um mapa de Rede, especialmente da Contra-Rede com típico ênfase no tráfico de informação e logística clandestinas ? e finalmente, cobrindo tudo, o mapa 1:1 da imaginação criativa, a estética, os valores. A grelha resultante anima-se com explosões energéticas inesperadas, coágulos de luz, túneis secretos, surpresas.

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Publicado por nomadez às 10:03 AM - 1 comentários



22 Setembro 2005 - O Entendimento de Ortega Y Gasset sobre o pintor Goya

Encontrei um artigo que parece interessante, sobre a interpretação de Ortega y Gasset de Goya:
DORNAS, A.S. O Entendimento de Ortega Y Gasset sobre o pintor Goya

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Publicado por nomadez às 4:25 PM - 0 comentários



- Luciano Testi: Carnaval de Veneza




"Carnaval de Veneza", belíssima fotografia de Luciano Testi

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Publicado por nomadez às 1:28 AM - 0 comentários



21 Setembro 2005 - A Renúncia de Severino e a Miopia da Mídia

Estranha sensação me foi causada quando li a primeira reportagem sobre a renúncia de Severino. Nela, a repórter chamou mais a atenção para o barulho dos manifestantes do que para o que realmente estava acontecendo.

Tenhamos em mente o que ocorreu em função dos aplausos. Enquanto o grande 'denunciante' (e ao mesmo tempo corrupto) chamado Roberto Jefferson teve seu último discurso na Câmara saudado com aplausos, de acordo com a repórter Severino apenas recebeu silêncio. A "cena" toda concentrou-se no fiasco dos seguranças, e a grande aposta é que será assim nos jornais televisivos. Estranho silêncio, aliás, estranhíssimo silêncio, sabendo que Severino - como ele mesmo gostou de alardear em sua entrevista na volta de NY -, o mesmo Severino que recebia vaias e protestos de estudantes, mas o silêncio dos parlamentares, é o que havia sido eleito com 300 votos para a presidência da Câmara.

A quê foi devido o silêncio? Ao fato de ter sido comprovado que ele é corrupto? Pouco provável, já que Roberto Jefferson, também corrupto, foi aplaudido (por sua retórica, ou pela fama inesperada e insuspeita que recebeu da mídia como despidor da roupa do Rei?). Aliás, estranhíssimo foi também o aparecimento do pequeno escândalo do "mensalinho". Isso que a mídia tem feito com o telespectador só pode ser avaliado de uma de duas possibilidades: ou apenas agora, desde Collor, houve corrupção, com esse PT ao mesmo tempo 'salvador' e 'mentiroso'; ou a corrupção já havia, generalizada, mas de modo estranho somente agora aparece, com um estranho 'despertar' dos jornalistas.

No fundo, pouco parece importar se Severino recebeu ou não propina. O mais importante - e o motivo mesmo que levou a essa acusação - tem sido a denúncia de que ele estaria favorecendo, como presidente, supostos 'mensalistas'. Depois dessa denúncia, que parece ter desagradado os mesmos deputados que nele votaram, o acontecimento do mensalinho deve ter sido fácil.

Estranha situação essa de nossa mídia, junta a dos estranhos acontecimentos mostrados por ela nos últimos tempos. Principalmente tendo-se em conta que, em meio à metralhadora de denúncias vinculadas para todo lado, algumas (várias) são deixadas misteriosamente de lado. Imprudência dos jornalistas? Imperícia? Burrice? Parcialidade? Ou apenas miopia?

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Publicado por nomadez às 7:20 PM - 0 comentários



- Felix Guattari - Modèle de contrainte ou modelisation créative

link: revue-chimeres.org

Après Michel Foucault, et sans prétendre donner une interprétation historique
générale des formations de pouvoir, on peut distinguer les sociétés de souveraineté, les sociétés de discipline et les sociétés de contrôle. Le souverain prélevait sa part sur les produits du travail humain à partir d'instances de pouvoir surplombant et surcodant des ensembles sociaux ayant conservé une certaine identité et autonomie territoriale- ethnies, villages, corporations.

La modélisation sociale restait ainsi relativement extérieure aux outils et aux dispositifs d'exploitation économique. Avec la discipline capitaliste la division du travail, le poids grandissant des machines énergétiques, les instruments sémiotiques régissant l'économie « déterritorialisent » les anciens groupes sociaux pour constituer des espaces productifs constituant autant de dispositifs d'enfermement matériels, institutionnels et mentaux. Le capitalisme remodélise le social dans ses moindres détails, depuis les appareils d'état, les équipements collectifs jusqu'aux comportements et affects individuels. Pour sa part, la machine urbaine fonctionne comme une sorte de proto-ordinateur qui sécrète, au fur et à mesure de l'évolution des besoins du système, des oppositions duelles entre ses classes exploitées et ses « élites », ses citoyens garantis et ses exclus, ses normaux et ses fous.

A l'âge du contrôle généralisé, la modélisation se fait plus totalitaire et hégémonique. La production de subjectivité ne procède plus seulement par grands ensembles et par masses mais par une programmation moléculaire. Le catéchisme du nouveau Dieu logiciel ne se fait plus de bouche à oreille, mais directement sur les structures modulaires nerveuses et psychiques ? l'enfant tétant dès le berceau les schémas pilotes qui lui sont transmis par la télé et qui modélisent aussi bien sa perception, son imaginaire que ses valeurs de référence ; l'ouvrier étant pris dans les rouages de sites productifs assistés par ordinateur, par des commandes numériques de toutes sortes ; les comportements du consommateur et de l'électeur étant téléguidés en boucle de rétroaction par la publicité, les sondages et l'hypnose télévisuelle.

La société de contrôle est dominée par une sorte de pulsion déterministe collective qui, paradoxalement, n'en est pas moins minée de l'intérieur par une nécessité impérieuse de préserver un minimum de degrés de liberté, de créativité, d'inventivité, dans le domaine des sciences, des techniques, des arts, faute de quoi le système s'affaisserait dans une sorte d'inertie entropique.

Ce régime de modélisation programmée de l'extérieur n'est peut être qu'une phase appelé à s'effacer devant une modélisation réassumée de l'intérieur par des agencements collectifs d'énonciation qui développeraient svstématiquement cette dimension de créativité. Une telle évolution dépend, d'une part, du développement des sciences, des techniques et des arts et, d'autre part de la recomposition de pratiques sociales adéquates.

Prenons deux exemples. La théorie scientifique, conçue comme un corps de contraintes fermé sur lui-même, a déjà tendance à laisser place à des systèmes de modélisation évolutifs laissant totalement ouverts la définition de ses objets et le statut de ses procédures. Dans le domaine du film, de nouvelles technologies conduiront peut-être le spectateur à prendre une part active au spectacle, en commandant lui-même son angle de vue, sa position, ses gros plans, ses zooms, ses plongées. Ultérieurement il se positionnera comme spectateur- narrateur de l'action. Par exemple, il pourra, à son gré, changer de camp au cours d'un western ou d'une guerre comme celle du Golfe.
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Publicado por nomadez às 1:43 AM - 0 comentários



20 Setembro 2005 - Bornhausen e o racismo


A NovaE publicou um artigo - agora bastante difundido na internet - de Emir Sader que acusa o líder do PFL, Jorge Bornhausen, de racismo, por enunciar que "a gente vai se ver livre dessa raça [o PT], por, pelo menos, 30 anos". Enviei um comentário à Novae sobre o artigo, mas infelizmente foi apagado.

No meu comentário, explicitei que, embora concorde com todas as idéias de Sader, o tom do artigo parecia deveras inflamado, associando a declaração de Bornhausen a um suposto desprezo que ele - e outros barões do Brasil - teriam pelo próprio povo brasileiro. Tal desprezo, vindo da "Casa Grande", é evidente, caso o tomemos pela história ou atentemos às entrelinhas de como nosso Brasil contemporâneo é constituído. Mas como a pena (ou o "poema", diria Leminski) é tão importante na "luta de classes" quanto o auto-falante ou o povo às ruas, talvez o tom de Sader pudesse ser menos pessoal, e mais estratégico, causando menos asco a seus oponentes, e angariando a atenção de mais leitores "inimigos" para sua letra.

De todo modo, seja ou não taxado de "radical", o artigo de Sader toca no essencial, na evidente e (ao mesmo tempo) pouco conhecida querela dos "radicais": se sua letra é desconsiderada simplesmente por ser taxada de "radical", sobre que pretensa posição seriam sustentados aqueles que a denominam como tal?

A Isto É, essa semana, acabou publicando uma entrevista com o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, que menciona o assunto. Segundo Wanderley, a crise política pode acabar desencadeando uma onda de conservadorismo reacionário.
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Publicado por nomadez às 5:49 PM - 2 comentários



- As Circunstâncias Atenuantes e o Nascimento da Psicologia.


A Psicologia anuncia sua origem "científica" a partir do fim do século XVIII e início do século XIX. Muitos autores encontram o "nascimento" dessa disciplina como correlato ao surgimento de várias outras problemáticas, como o das diferenças individuais, o da cognição humana, os problemas do trabalho, da educação e da saúde pública e do que doravante será chamado de "saúde mental". No campo da medição e da astronomia, a criação de instrumentos cada vez mais precisos começa a deparar-se com um obstáculo que até então não era considerado: o homem, como aquele que utiliza os instrumentos, e que faz as medidas. Curiosamente, o mesmo homem que cria instrumentos precisos para que a objetividade de suas pesquisas tenha resultados invariáveis, encontra nele mesmo diferenças que conduzem as mesmas pesquisas a medições diferentes. Há um problema - o de que, em condições semelhantes, as respostas são discrepantes -, e, correlato a ele, a abertura de um espaço que virá a ser preenchido por uma psicologia.

É curioso notar como o problema dito "científico" das diferenças entre medições adquire notável popularidade, sendo extendido - fora das pretensas curiosidades do rigor científico - às longínquas questões dos problemas de aprendizagem e da seleção profissional. Canguilhem mostra, em vários momentos, como é que surgem vários tipos de análise de diferenças individuais que, com notável rapidez, difundem-se no socius. Um caso clássico é o da frenologia, que adquiriu tanta notoriedade que tornou-se, além do mapa da mina para descobrir como o crânio de Descartes foi capaz de elaborar o Cogito, um instrumento "fabuloso" de seleção profissional.



Junto a tais problemas, uma série de transformações fazem requerer também uma análise que virá a ser de tipo "psicológico" no direito, mostrando que, como no caso da frenologia, os problemas de uma psicologia nascente sempre estiveram ligados de um modo estranho a questões que nem sempre são de ordem estritamente "científica". Nesse sentido, são notáveis vários momentos das pesquisas de Michel Foucault, a respeito do nascimento da psicologia como coexistente ao nascimento das chamadas "circunstâncias atenuantes" do direito moderno. Já em História da Loucura, Foucault encontra as condições de possibilidade de um "conhecimento psicológico" a partir da análise que faz de uma confluência entre a moral e o direito, entre as "experiências" sociais e morais com as da medicina e do direito do fim do século XVIII. Para Foucault, a "confluência" de todos esses elementos é historicamente mais uma confusão do que um acordo de métodos apropriados a problemas não resolvidos, pois o que virá a ser chamado a partir do século XIX de "psicologia positiva" é nada mais do que o revestimento "científico" de práticas e demandas não científicas, essencialmente ligadas a aspectos sociais e éticos. Isto é, o nascimento de uma ciência psicológica é tributário de práticas em primeiro momento sociais e morais, que apenas num segundo momento passam a ser chamadas de "científicas".


Daí a importância da análise das circunstâncias atenuantes. Na parte III de História da Loucura, é o que permite a Foucault mostrar que, entre a realidade de um crime e sua verdade, há uma defasagem na qual os determinantes de um crime nunca se reduzem à objetividade do ato, mas são sempre recuados à subjetividade do réu. Isso significa que, para além da objetividade de qualquer ação (seja ela criminosa ou não), na extensão há sempre fatores determinantes, que condizem com o que há de mais interior e privado no homem, ou seja, suas motivações, seus traços individuais, sua vida, enfim, sua subjetividade psicológica. Para um mesmo ato (criminoso, por exemplo), podem haver circunstâncias, pesos, determinações, motivações diversas, de modo que não deve ser o ato em si mesmo o único interrogado para denotar a culpa, mas sobretudo a verdade psicológica que o determinou. Mas há mais: certas "verdades", certas circunstâncias propiciam, nesse início do século XIX, maior ou menor peso, mais ou menos culpa, de acordo com sua correspondência com critérios sociais valorizados de modo positivo ou negativo pela sociedade. Um homem que mata uma mulher pode ser condenado por sua crueldade; mas as mesmas circunstâncias deveriam ser aplicadas a um marido traído que, lembrando a proteção que sua sociedade dá à instituição do casamento, comete o ato impensado de assassinar a esposa adúltera? Com certeza - nesses julgamentos do início do direito moderno - não, mas isso mostra que, no homem, todo ato presente pode ser explicado a partir de determinações que fazem parte de sua vida e de seu passado. Interrogar sobre essas determinações - e sobre seu peso - é, para Foucault, o que futuramente será chamado de "Psicologia".


O caso das circunstâncias atenuantes mostra, em Foucault, que a abertura a um conhecimento sobre o homem é correlato às suas próprias formas de julgamento sobre si mesmo. Isso parece mostrar de modo explícito o que Canguilhem talvez apenas sugira, em seu texto de 1956 sobre a psicologia, mas que parece de algum modo complementar sua conferência de 1980:o problema de uma psicologia nunca é apenas de ordem teórica ou "científica", mas perpassa necessariamente uma interrogação de tipo ético.

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19 Setembro 2005 - Pinturas de Hervé Thibaut




Le Philosophe

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18 Setembro 2005 - A filosofia na globo faz feio!!!

Agora tenho certeza: aquela filósofa que apresenta no Fantástico aquele bloco sobre filosofia não sabe nada de filosofia. Para ela, o "filtro" do conhecimento, segundo Kant, é o sistema nervoso central!!!!!! Não seria uma função subjetiva transcendental?

Certa vez vi um vídeo em que o repórter Brito Junior dizia pouco importar o que a mídia mostra, e sim que as coisas deveriam ser mostradas como convém... parece ser mais regra do que exceção...

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Publicado por nomadez às 9:41 PM - 1 comentários



- Marilena Chauí e o "silêncio dos intelectuais"

Muito curiosa uma carta de Marilena Chauí que tem sido vinculada na informalidade dos e-mails. Aliás, há muitos momentos em que apenas a informalidade - por incrível que pareça - pode fornecer caracteres "democráticos" numa sociedade que se diz "democrática" e que, portanto, deveria desenvolver sua democracia em esfera formal - não informal, não por debaixo dos panos, não apenas nas correntes informais dos emails.

Dando voz ao silêncio de Chauí, ou melhor dizendo - já que o nome desse blog é nomadologiaz -, dando voz à própria voz que quero (esse amontoado de letras sem nome, que ainda diz "quero") vincular, abaixo reproduzo o texto de Chauí. Não se trata de concordar com uma petista, nem com uma intelectual celebrada. Basta apenas olhar ao redor e pensar um pouco no passado.

Clique em "leia mais" para o texto da Chauí



Carta de Marilena Chaui aos seus alunos


São Paulo, 31 de agosto de 2005

Prezados alunos,



Soube, por alguns colegas professores, que muitos de vocês estão intrigados
ou perplexos com meu suposto "silêncio". Digo suposto porque, como lhes
mostrarei a seguir, essa imagem foi construída pelos meios de comunicação,
particularmente pela imprensa. Na verdade, tenho falado bastante em vários
grupos de discussão política que se formaram pelo país, mas tenho evitado a
mídia e vou lhes dizer os motivos. Antes de fazê-lo, porém, quero fazer
algumas observações gerais.

1. vocês devem estar lembrados de que, durante o segundo turno das eleições
presidenciais, a mídia (imprensa, rádio e televisão) afirmava que Lula não
iria poder governar por causa dos radicais do PT, isto é, pessoas como
Heloisa Helena, Babá e Luciana Genro. Você não acham curioso que, de meados
de 2003 e sobretudo hoje, essas pessoas tenham sido transformadas pela mesma
mídia em portadores da racionalidade e da ética, verdadeiros porta-vozes de
um PT que foi traído e que teria desaparecido? Como indagava o poeta: "mudou
o mundo ou mudei eu?". Ou deveríamos indagar: a mídia é volúvel ou possui
interesses muito claros, instrumentalizando aqueles podem servi-los conforme
soprem os ventos?

2. vocês devem estar lembrados de que, desde os primeiros dias do governo
Lula, uma parte da mídia, manifestando preconceito de classe, afirmava que,
o presidente da república, não tendo curso universitário nem sabendo falar
várias línguas, não tinha competência para governar? Cansando dessa tecla,
que não surtia resultado, passou-se a ironizar e criticar os discursos de
Lula e seus improvisos. Não tendo isso dado resultado, passou-se a falar o
populismo presidencial, isto é, a forma arcaica do governo. Como isso também
não deu resultado, passou-se a falar num país à beira da crise, alguns
chegando a dizer que estávamos numa situação parecida com a de março de 1964
e, portanto, às vésperas de um golpe de Estado! Como o golpe não veio (ele
veio agora, sob a forma de um golpe branco), passou-se a falar em crise do
governo (as divergências entre Pallocci e Dirceu) e em crise do PT (as
divergências entre as tendências). Penso que um dos pontos altos dessa
seqüência foi um artigo de um jornalista que dizia que, na arma do policial
que matou o brasileiro em Londres, estava a impressão digital de Lula, pois
não criando empregos, forçara a emigração! Além de delirante, a afirmação
ocultava:

a) que aquele brasileiro estava na Inglaterra há cinco anos (emigrou durante
o governo FHC);

b) estavam publicados os dados de crescimento do emprego no Brasil nos
últimos dois anos. Eu poderia prosseguir, mas creio ser suficiente o que
mencionei para que se perceba que estamos caminhando sobre um terreno
completamente minado.

3. as duas primeiras observações me conduzem a uma terceira, que julgo a
mais importante. Vocês sabem que, entre os princípios que norteiam a vida
democrática, o direito à informação é um dos mais fundamentais. De fato, na
medida em que a democracia afirma a igualdade política dos cidadãos, afirma
por isso mesmo que todos são igualmente competentes em política. Ora, essa
competência cidadã depende da qualidade da informação cuja ausência nos
torna politicamente incompetentes. Assim, esse direito democrático é
inseparável da vida republicana, ou seja, da existência do espaço público
das opiniões. Em termos democráticos e republicanos, a esfera da opinião
pública institui o campo público das discussões, dos debates, da produção e
recepção das informações pelos cidadãos. E um direito, como vocês sabem, é
sempre universal, distinguindo-se do interesse, pois este é sempre
particular. Ora, qual o problema?

Na sociedade capitalista, os meios de comunicação são empresas privadas e,
portanto, pertencem ao espaço privado dos interesses de mercado; por
conseguinte, não são propícios à esfera pública das opiniões, colocando para
os cidadãos, em geral, e para os intelectuais, em particular, uma verdadeira
aporia, pois operam como meio de acesso à esfera pública, mas esse meio é
regido por imperativos privados. Em outras palavras, estamos diante de um
campo público de direitos regido por campos de interesses privados. E estes
sempre ganham a parada. Apesar de tudo o que lhes disse acima, fiz, como os
demais (no mundo inteiro, aliás), uso dos meios de comunicação, consciente
dos limites e dos problemas envolvidos neles e por eles. Exatamente por
isso, hoje, vocês perguntam por que não os usei para discutir a difícil
conjuntura brasileira. Tenho quatro motivos principais para isso.

O primeiro, é de ordem estritamente pessoal. Os que fizeram meu curso no
semestre passado sabem que mal pude ministrá-lo em decorrência do gravíssimo
problema de saúde de minha mãe. Aos 91 anos, minha mãe, no dia 24 de
fevereiro, teve um derrame cerebral hemorrágico, permaneceu em coma durante
dois meses e, ao retornar à consciência, estava afásica, hemiplégica, com
problemas renais e pulmonares. De fevereiro ao início de junho, permaneci no
hospital, fazendo-lhe companhia durante 24 horas. Cancelei todos os meus
compromissos nacionais e internacionais, não participei das atividades do
ano Brasil-França, não compareci às reuniões do Conselho Nacional de
Educação, não participei das reuniões mensais do grupo de discussão política
e não prestei atenção no que se passava no país. Assim, na fase inicial da
crise política, eu não tinha a menor condição, nem o desejo, de me
manifestar publicamente.

O segundo motivo foi, e é, a consciência da desinformação. Vendo algumas
sessões das CPIs e noticiários de televisão, ouvindo as rádios e lendo
jornais, dava-me conta do bombardeio de notícias desencontradas, que não
permitiam formar um quadro de referência mínimo para emitir algum juízo.
Além disso, pouco a pouco, tornava-se claro não só que as notícias eram
desencontradas, mas que também eram apresentadas como surpresas diárias: o
que se imaginava saber na véspera era desmentido no dia seguinte. Mas não só
isso. Era também possível observar, sobretudo no caso dos jornais e
televisões, que as manchetes ou "chamadas" não correspondiam exatamente ao
conteúdo da notícia, fazendo com que se desconfiasse de ambos. A
desinformação (como disse alguém outro dia: "da missa, não sabemos a
metade"), não permitindo análise e reflexão, pode levar a opiniões levianas,
num momento que não é leve e sim grave.

Além disso, a notícia já é apresentada como opinião, em lugar de permitir a
formação de uma opinião. Por isso mesmo, a forma da notícia tornou-se
assustadora, pois indícios e suspeitas são apresentados como evidências, e,
antes que haja provas, os suspeitos são julgados culpados e condenados. Esse
procedimento fere dois princípios afirmados em 1789, na Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão, quais sejam, todo cidadão é considerado
inocente até prova em contrário e ninguém poderá ser condenado por suas
idéias, mas somente por seus atos. Ora, vocês conhecem o texto de Hegel, na
Fenomenologia do Espírito, sobre o Terror (em 1793), isto é, a transformação
sumária do suspeito em culpado e sua condenação à morte sem direito de
defesa, morte efetuada sob a forma do espetáculo público. Essa perspectiva,
como vocês também sabem, é também desenvolvida por Arendt e Lefort a
respeito dos totalitarismos e seus tribunais, e para isso ambos enfatizam,
na Declaração de 1789, o princípio referente à não criminalização das
idéias, assinalando que nos regimes totalitários a opinião dissidente é
tratada como crime.

Assim, na presente circunstância brasileira, a impressão geral deixada pela
mídia é da mescla de espetáculo e terror, tornando mais difícil do que já
era manifestar idéias e opiniões nela e por meio dela. Meu terceiro motivo
será compreendido por vocês quando lerem os artigos de jornal que inseri no
final desta carta. Um artigo foi escrito antes da posse de Lula, alertando
para o risco de uma "transição", isto é, um acordo com o PSDB. Os outros
dois foram escritos em 2004, quando do "caso Waldomiro". Ambos insistem na
necessidade urgente da reforma política. Os fatos atuais (ou o que aparece
como fato) não modificam em nada o que escrevi há quase um ano, pelo
contrário, reforçam o que havia dito e por isso não vi razão para voltar a
escrever, pois eu escreveria algo ridículo, do tipo: "Como já escrevi no dia
tal em tal lugar...". Ou seja, se meu segundo motivo me leva a considerar
que não há a menor condição para opinar no varejo sobre cada fato ou
notícia, o meu terceiro motivo é que, no que toca ao problema de fundo, já
me manifestei publicamente.

Resta o quarto motivo. Aqui, há duas ordens diferentes de fatos que penso
ser necessário apresentar. A primeira, se refere ao ciclo "O silêncio dos
intelectuais"; a segunda, à atitude da mídia. Há 20 anos, Adauto Novais
organiza anualmente ciclos internacionais de conferências e debates sobre
temas atuais. Sempre com um ano de antecedência, Adauto se reúne com alguns
amigos para discutir e decidir o tema do ciclo.

Participo desse grupo de discussão. Em abril de 2004, quando nos reunimos
para decidir o ciclo de 2005, alguns membros do grupo (entre os quais, eu)
preparavam-se para um colóquio, na França, cujo tema era "Fim da política?",
outros iam participar de um seminário, nos Estados Unidos, sobre o
enclausuramento dos intelectuais nas universidades e centros de pesquisa, e
outros iniciavam os preparativos para a comemoração do centenário de Sartre,
símbolo do engajamento político dos intelectuais. Nesse ambiente, acabamos
propondo que o ciclo discutisse a figura contemporânea do intelectual e
Adauto propôs como título "O silêncio dos intelectuais". Uma vez feitos os
convites nacionais e internacionais aos conferencistas, recebidas as ementas
e organizada a infra-estrutura, Adauto fez o que sempre faz: com muitos
meses de antecedência, conversou com jornalistas, passou-lhes as ementas,
explicou o sentido e a finalidade do ciclo. Ou seja, no início de 2005, a
imprensa tinha conhecimento do ciclo e de seu título.

E eis que, de repente, não mais que de repente, durante a crise política,
alguns falaram do "silêncio dos inocentes", referindo-se aos intelectuais
petistas! Curiosa escolha de título para uma matéria jornalística... Veio
assim, sem mais nem menos, por pura inspiração. Mais curiosa ainda foi essa
escolha, se se considerar que, ao longo de 2005, praticamente todos os
intelectuais petistas (talvez com exceção de Antônio Cândido e de mim) se
manifestaram em artigos, entrevistas, programas de rádio e de televisão!!!
Onde o silêncio?

Como eu lhes disse, notícias são produzidas sem ou contra os fatos. E com as
notícias vieram as versões e opiniões, os julgamentos sumários e as
desqualificações públicas, culminando no tratamento dado ao ciclo, quando
este se iniciou. A mídia decidiu que o ciclo se referia aos intelectuais
petistas, apesar de saber que fora pensado em 2004, de ler as ementas, de
haver participantes que não são petistas, para nem falar dos conferencistas
estrangeiros. O ciclo virou espetáculo. Uma revista afirmou que, entre os
patrocinadores (MINC, Petrobrás e SESC), estavam faltando os Correios. Uma
outra afirmou que os participantes eram intelectuais do tipo "porquinho
prático" (não explicou o que isso queria dizer). Um jornal colocou a notícia
da primeira conferência (a minha) no caderno de política, sob a rubrica
"Escândalo do Mensalão", com direito a foto. Etc..

A segunda ordem de fatos está diretamente relacionada comigo. Quando
publiquei o artigo sobre o "caso Waldomiro", um jornalista escreveu uma
coluna na qual me dirigiu todo tipo de impropérios e usou expressões e
adjetivos com que me desqualificava como pessoa, mulher, escritora,
professora e intelectual engajada. Não respondi. Apenas escrevi o segundo
artigo, sobre a reforma política, e dei por encerrada minha intervenção
pública por meio da imprensa. A partir de então, além de não publicar
artigos em jornais, decidi não dar entrevistas a jornais, rádios e
televisões (dei entrevistas quando tomei posse no Conselho Nacional de
Educação porque julgo que, numa república, alguém indicado para um posto
público precisa prestar contas do que faz, mesmo que o meios disponíveis
para isso não sejam os que escolheríamos). A seguir, veio a doença de minha
mãe e, depois, a crise política como espetáculo.

No entanto, paradoxalmente, não fiquei fora da mídia: houve, por parte de
jornais, revistas, rádios e televisões, solicitações diárias de entrevistas
e de artigos; a matéria jornalística "O silêncio dos inocentes", não tendo
obtido entrevista minha, citava trechos de meus antigos artigos de jornal;
matérias jornalísticas sobre o PT e sobre os intelectuais petistas traziam,
via de regra, uma foto minha, mesmo que nada houvesse sobre mim na notícia.

Finalmente, quando se iniciou o ciclo sobre o silêncio dos intelectuais, um
jornal estampou minha foto, colocou em maiúsculas NÃO FALO (resposta que dei
a um jornalista que queria uma entrevista quando da reunião dos intelectuais
petistas com Tarso Genro, em São Paulo) e o colunista concluía a matéria
dizendo que o silêncio dos intelectuais petistas era, na verdade, o silêncio
de Marilena Chaui, o qual seria rompido com a conferência. Resultado:
jornais e revistas, com fotos minhas, não deram uma linha sequer sobre a
conferência, mas pinçaram trechos dos debates, sem mencionar as perguntas
nem dar por inteiro as respostas e seu contexto, transformando em discurso
meu um discurso que não proferi tal como apresentado. E entrevistaram
tucanos (até as vestais da República, Álvaro Dias e Artur Virgílio!!!),
pedindo opinião sobre o que decidiram dizer que eu disse! E os entrevistados
opinaram!!! Num jornal do Rio de Janeiro e num de São Paulo, FHC disse uma
pérola, declarando que por não entender de Espinosa, não fala nem escreve
sobre ele e que eu, como não entendo de política, não deveria falar sobre o
assunto. Como vocês podem notar, o princípio democrático, segundo o qual
todos os cidadãos são politicamente competentes, foi jogado no lixo.

Qual é o sentido disso? Deixo de lado o fato de ser mulher, intelectual e
petista (embora isso conte muitíssimo), para considerar apenas o núcleo da
relação estabelecida comigo. A mídia está enviando a seguinte mensagem:
somos onipotentes e fazemos seu silêncio falar. Portanto, fale de uma vez! É
uma ordem, uma imposição do mais forte ao mais fraco. Não é uma relação de
poder e sim de força. Vocês sabem que a diferença entre a ordem humana, a
ordem física e a ordem biológica (para usar expressões de Merleau-Ponty)
decorre do fato de que as duas últimas são ordens de presença enquanto a
primeira opera com a ausência.

As leis físicas se referem às relações atuais entre coisas; as normas
biológicas se referem ao comportamento adaptativo com que o organismo se
relaciona com o que lhe é presente; mas a ordem humana é a do simbólico, ou
seja, da capacidade para relacionar-se com o ausente. É o mundo do trabalho,
da história e da linguagem. Somos humanos porque o trabalho nega a
imediateza da coisa natural, porque a consciência da temporalidade nos abre
para o que não é mais (o passado) e para o que ainda não é (o futuro), e
porque a linguagem, potência para presentificar o ausente, ergue-se contra
nossa violência animal e o uso da força, inaugurando a relação com o outro
como intersubjetividade. Num belíssimo ensaio sobre "A experiência limite",
Blanchot marca o lugar preciso em que emerge a violência na tortura de um
ser humano. A violência não está apenas nos suplícios físicos e psíquicos a
que é submetido o torturado; muito mais profundamente ela se encontra no
fato horrendo de que o torturador quer forçar o torturado a lhe dar o dom
mais precioso de sua condição humana: uma palavra verdadeira. NÃO FALO.

Vocês já leram La Boétie. Sabem que a servidão voluntária é o desejo de
servir os superiores para ser servido pelos inferiores. É uma teia de
relações de força, que percorrem verticalmente a sociedade sob a forma do
mando e da obediência. Mas vocês se lembram também do que diz La Boétie da
luta contra a servidão voluntária: não é preciso tirar coisa alguma do
dominador; basta não lhe dar o que ele pede. NÃO FALO. A liberdade não é uma
escolha entre vários possíveis, mas a fortaleza do ânimo para não ser
determinado por forças externas e a potência interior para determinar-se a
si mesmo. A liberdade, recusa da heteronomia, é autonomia. Falarei quando
minha liberdade determinar que é chegada a hora a vez de falar.


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Publicado por nomadez às 9:04 PM - 2 comentários



- Goya: El Bobalicón (1820)



Goya: El Bobalicón (1820)

"A loucura tornou-se, no homem, a possibilidade de abolir o homem e o mundo - e mesmo essas imagens que recusam o mundo e deformam o homem. Ela é, bem abaixo do sonho, bem abaixo do pesadelo da bestialidade, o último recurso: o fim e o começo de tudo. Não que ela seja uma promessa, como no lirismo alemão, mas porque ela é o equívoco do caos e do apocalipse: o Idiota que grita e torce os ombros para escapar ao nada que o aprisiona é o nascimento do primeiro homem e seu primeiro movimento na direção da liberdade, ou o último sobressalto do último moribundo?" (FOUCAULT, M. História da Loucura. São Paulo: Perspectiva, 1995)
A argumentação de Foucault sobre Goya em História da Loucura é muito interessante; entretanto, deixa recair algumas dúvidas: o Idiota referido acima, é o Bobalicón de 1820, ou outro?
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Publicado por nomadez às 5:48 PM - 0 comentários



- Juan José Balzi - Third Generation Images

Student. 1996.
Tar on printed matter. 122 x 122 cm.
Wehrmacht. 1996.
Tar on printed matter. 72 x 102 cm.

Pensador. 1996.
Oil on photo by M. Trivier. 29 x 29 cm.

Raptad. 1996.
Oil on photo by M. Trivier. 29 x 29 cm.
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Publicado por nomadez às 12:26 AM - 0 comentários



17 Setembro 2005 - A Lógica do Blefe

link: isto é

Cientista acusa PFL de arquitetar impeachment de Lula, prevê fenômeno Garotinho e cobra provas contra o governo

Wanderley Guilherme dos Santos acaba de ser consagrado um dos cinco mais importantes cientistas políticos da América Latina pela Universidade Autônoma Nacional do México. Esta é apenas mais uma condecoração deste carioca graduado em filosofia, Ph.D. em ciência política pela Universidade de Stanford e laureado pela Guggenheim Foundation. Mas uma distinção merece destaque: ele antecipou o golpe que derrubou o presidente João Goulart, em 1964, no livro ?Quem vai dar o golpe no Brasil?. Aconselha-se, portanto, a prestar atenção em seus prognósticos. Agora, prevê que o PFL possa capitanear um pedido de impedimento do presidente Lula no fim deste ano para que ele...

...enfrente as próximas disputas eleitorais nessa vulnerável condição.

Ele afirmou que quem desconsidera ?o vetor Garotinho? não está compreendendo bem a dinâmica da competição presidencial e defendeu que os deputados e senadores que não provarem suas acusações deveriam ser submetidos à comissão de ética e perder o mandato. Wanderley Guilherme dos Santos não busca meias palavras para expor ou fundamentar seu pensamento. Confira nessa entrevista a ISTOÉ.

ISTOÉ - Como será a disputa presidencial em 2006? O caixa 2 vai deixar de existir ou será maquiado?
Wanderley Guilherme dos Santos - Na minha opinião, o PFL - que é um partido laranja do PSDB - vai pedir o impedimento do presidente Lula, com ou sem
base, no final das comissões de inquérito, portanto no fim do ano. O que significa que metade de 2006 estará envolvido no processo de impedimento do presidente. A oposição tem força no Parlamento para iniciar isso. É assim que, na minha avaliação, a oposição faz seus cálculos e é nesse contexto que estão esperando fazer uma campanha presidencial: com o Lula, que é o candidato mais forte, sendo submetido a um processo de impedimento. Quem vai votar nele pensando que poderá estar impedido mais à frente? É uma manobra suja, mas viável.

ISTOÉ - Se Lula ficar fora da disputa, quem se beneficia?
Wanderley - O PSDB é um sério candidato a chegar ao segundo turno. Mas não se sabe quem vai ser o candidato. Pelo passado, sabe-se que o José Serra tem suficiente capacidade destrutiva de concorrência dentro do partido e no final ser ele próprio o candidato. Isso trará um pouco de dificuldade de coalizão com o PFL, por conta do episódio Roseana Sarney (referência ao dinheiro flagrado na empresa Lunus quando ela era forte candidata ao governo em 2002). Mas acho difícil que outro candidato, dentro do PSDB, tenha chance de batê-lo porque Serra não tem limites. Ele é um político extremamente duro, hábil. Pela imagem pública transmitida, ele é o José Dirceu da máquina do PSDB. Não tem brincadeira com ele, domina mesmo. Agora, é preciso não
esquecer que existe um candidato a candidato chamado Anthony Garotinho, que
disputa dentro do PMDB.

ISTOÉ - Com que chances?
Wanderley - O PMDB, como sempre, vai rachado, seja qual for o candidato. Se o Garotinho sair pelo partido significa não só mais tempo de tevê, como também mais diretórios, a infra-estrutura nacional do PMDB. Ele não é um candidato fácil. Se Lula e Garotinho forem para a disputa, o PSDB vai ter que brigar pelo segundo ou pelo terceiro lugar com o Garotinho. Não se deve brincar com o Garotinho. Ele derrotou o Serra em seis Estados em 2002, com um partido que não tinha estrutura nacional. Ele chegou em segundo lugar em seis Estados, na frente do Serra. Desconsiderar o vetor Garotinho é não compreender bem a dinâmica que a competição presidencial pode ganhar. De repente, como aconteceu em alguns momentos da campanha passada, o PSDB pode
ser obrigado a virar seus canhões contra o Garotinho.

ISTOÉ - E o caixa 2, como ficará?
Wanderley - Acho difícil deixar de existir porque faz parte da competição. Existe em todos os países democráticos nos quais a competição é acirrada. O problema é conseguir restringir isso, não expor partes fundamentais do Estado nesse jogo e, sobretudo, fiscalizar e punir. Não fazer vista grossa. Mas há que se perder a inocência, a pretensão de que é possível fazer uma legislação capaz de proibir o caixa 2. Esse caminho não leva a nada.

ISTOÉ - Afinal, o mensalão existe?
Wanderley - As coisas precisam ser provadas. O destino dos saques seria para pagar acordos de campanha. Mas para pagamento de votos no Congresso é algo que deve ser provado. Não digo que não existiu, apenas que tem que ser provado. Porém, antes que isso aconteça, a oposição aumentou a aposta na crise.
Disse que o mensalão era coisa menor, e tornou mais relevante o fato de o PT ter ocupado o Estado brasileiro, estabelecido a corrupção sistêmica para financiar a perpetuação do partido no poder. Isso é uma senhora acusação! É preciso ter dados muito fortes para afirmar algo dessa gravidade. E o que acontece é que, até agora, nem mesmo questões elementares foram comprovadas. Como, por exemplo, se Renilda (mulher de Marcos Valério) mentiu. Aumentaram tanto as acusações, disseram que tantas coisas já estavam comprovadas e essas autoridades - presidentes e secretários das CPIs - não desautorizaram essas afirmações peremptórias. E, agora, se chegar à
conclusão de que não houve, por exemplo, pagamentos regulares tendo em vista
a compra de votos, como é que fica?

ISTOÉ - Como deveria ficar a situação dos acusadores?
Wanderley - Se eles mentiram para a opinião pública, difamaram colegas, afirmaram inverdades, caluniaram partidos, deveriam responder ao Conselho de Ética e perder o mandato.

ISTOÉ - Quem são esses deputados e senadores?
Wanderley - Eu já mencionei e não gostaria de ficar repetindo como se fosse uma coisa pessoal. Mas todos sabem: são aqueles que se sentam na frente (na CPI), sãos os primeiros a falar, a esganiçar, são muito eloqüentes, enfáticos, e também são sempre os últimos a falar porque se reinscrevem para a despedida dos holofotes.

ISTOÉ - Esses parlamentares exercitam, para usar uma expressão criada pelo
sr., a lógica do blefe?
Wanderley - Não só eles, mas também líderes partidários. Incluo aí o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e os senadores Tasso Jereissati (PSDB-CE) e José Agripino Maia (PFL-RN). Eles afirmaram categoricamente que já está comprovada a existência da ocupação do Estado brasileiro e de um esquema de corrupção sistêmica para financiamento do PT. Se eles têm comprovação disso, têm que revelar. Se não aparecerem provas, são responsáveis por isso. Eu fico surpreso de ver pessoas com passado e currículo relevante fazer uma acusação dessa sem provar. Porque, se for
verdade, se já há fatos comprovando indubitavelmente, não precisa esperar o
fim da CPMI, tem de iniciar imediatamente o impedimento do presidente da República e eu sou favorável que comece logo. Agora, se não há, não pode dizer uma coisa como essa.

ISTOÉ - O que há de comprovado?
Wanderley - Isso é exatamente o que todos nós estamos pedindo! A emoção fica sendo administrada diariamente. Não querendo ser cruel ou irônico com a senadora Roseana Sarney (PFL-MA), o fato é que todo fim de semana inventam um ?episódio Roseana?, curiosamente com o mesmo beneficiário, todo mundo sabe quem. Os episódios se sucedem e nada se comprova. A população fica nessa expectativa. Se os resultados da CPMI dos Correios não for uma hecatombe parlamentar, ninguém vai ficar satisfeito, independentemente da verdade dos fatos.

ISTOÉ - Aconteceram escândalos no governo FHC que não causaram a mesma
reação. Por quê?
Wanderley - Ponto um: porque praticamente toda a mídia era favorável a Fernando Henrique. Ponto dois: a oposição a FHC era muito frágil do ponto de vista parlamentar. Não tinha força para fazer valer no Parlamento o que PSDB e PFL estão fazendo agora, uma oposição forte. O que é bom para a democracia. Acabamos de saber que, ao investigarem o Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) por conta do alargamento das investigações provocadas pela lógica do blefe, a grande falcatrua cometida lá ocorreu no final do período FHC. Eu duvido que o eixo do mal dos negócios das comunicações dê projeção a esse fato, apesar de comprovado pelo TCU. Duvido. Como não deu ao fato de que Marcos Valério contribuiu com caixa 2 na campanha de FHC em 1998.

ISTOÉ - Depois de três meses de crise, fica a sensação de que o Brasil acaba
de descobrir que propina é uma prática política comum.
Wanderley - Está sendo perdida uma oportunidade fantástica de ir a fundo nos esquemas ilícitos de relação entre o privado e o público no Brasil, que existe e não é de hoje. O equívoco da oposição é insistir, por razões eleitorais, na tese de que isso é inédito e se restringe ao PT. Hoje, eu vejo a oposição como um obstáculo a uma séria investigação do problema. Não deviam ter partidarizado. A questão é o sistema privado seqüestrando pedaços do Estado para operações ilícitas.
Isso existe e tem que ser enfrentado. Podiam ter aproveitado a oportunidade
e colocado o governo em cheque, pegando o fato de ser comprometido com a ética.
Mas qual foi a estratégia eleitoral da oposição? Dizer que isso nunca houve. Ora, isso é um conto da carochinha!

ISTOÉ - O PT era considerado uma reserva moral. Isso aumenta o prazer em
destruí-lo?
Wanderley - Sem dúvida. Estão pagando o preço por ter revelado que também sucumbiram a algo que englobou todos os governos passados na história da República, de 1945 para cá. Por que acontece isso no Brasil? Por que o brasileiro é naturalmente corrupto? Não, é pela própria formação da cumulação capitalista no Brasil. O sistema privado brasileiro é uma estrutura que depende dramaticamente de favores do Estado. Legislação de subsídio, de isenção de tarifa de importação... coisas sem as quais ele tem dificuldade de sobreviver. É um sistema que, por conta disso e das
competições entre os diversos setores, seqüestra pedaços do Estado para obter benefícios, para obter legislação a seu favor. Isso é antigo e é seríssimo.

ISTOÉ - O sr. é a favor do financiamento público nas campanhas?
Wanderley - Não. Primeiro porque não resolve nada e usa o dinheiro público. Sou a favor do financiamento aberto, online, o tempo todo, com limite e fiscalização séria.

ISTOÉ - Qual é o futuro do PT?
Wanderley - Não sei. Há dois PTs: o da organização e o das ruas. O segundo está aí e não vai desaparecer. Não vai certamente para o PSDB nem para o PFL. Uma parte pequena vai para o PSOL e um pedaço um pouco maior vai para o Garotinho. O PSOL é um partido que tem uma proposta pré-democrática. A democracia representativa não comporta um partido que não faz alianças ou só faz com quem pensa igual. É uma concepção de democracia autoritária. Mas acho que o PT vai se reformular e os petistas vão continuar no PT.

ISTOÉ - Estamos diante de uma suculenta pizza?
Wanderley - Acho que estamos diante de uma ameaça de arapuca. Pelo silêncio das autoridades das CPIs e, caso não se descubra nada, já, já vão estar entre ser cúmplice de uma história mirabolante e ceder à extorsão do eixo do mal do negócio das comunicações ou ser desacreditados. Não acredito em pizza. Se houver comprovação, virá a público. Não falo de caixa 2, isso já perdeu a importância. Fundamental é comprovar o valerioduto sendo alimentado por empresas estatais, com dinheiro no Exterior. O problema é se não houver provas. O que vão fazer?
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Publicado por nomadez às 10:48 AM - 0 comentários



- Dominic Bonucelli: Carnevale Veneziano


A imagem ?http://www.azfoto.com/venice/photos/6.jpg? contém erros e não pode ser exibida.

mysterious doctor digeridoo player at st. mark's square Venice Carnevale photo scary evil queen mask staring Venice Carnevale photo elegant couple in black Venice Carnevale photo gondolas bobbing in water at night Venice Carnevale photo
mysterious black mask with feathers at dusk Venice Carnevale photo red mask elegant duchess Venice Carnevale photo two shadowy figures glide by at night Venice Carnevale photo two foppish counts appraise me Venice Carnevale photo
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Publicado por nomadez às 1:14 AM - 0 comentários



16 Setembro 2005 - Foucault: Blanchot, Bataille, Nietzsche e as experiências-limite

Abaixo, consta tradução (livre) de trechos de uma longa entrevista feita por Foucault a Ducio Trombadore, ao final de 1978. O critério de seleção das passagens foi o das escolhas de Foucault pelos pensadores de inspiração nietzscheana, e os contra-pontos entre esses pensamentos e o da filosofia acadêmica dos anos 50, que servia de referência ao pensamento francês de então. Como a seleção é extensa, clique em "leia mais" para abrir o resto do texto. No final, consta a bibliografia.

[p. 42]Eu não me considero filósofo. O que faço não é nem uma maneira de fazer filosofia, nem de sugerir aos outros que a façam. Os autores mais importantes que me, não direi formaram, mas permitiram destacar-me de uma formação [p. 43] universitária, foram pessoas como Bataille, Nietzsche, Blanchot, Klossowski, que não eram filósofos no sentido institucional do termo, e um certo número de experiências pessoais, certamente. O que me deixa mais golpeado e fascinado neles, e que deu essa importância capital para mim, é que seus problemas não eram o da construção de um sistema, mas de uma experiência pessoal. Na universidade, pelo contrário, eu tinha sido treinado, formado, empurrado à aprendizagem dessas grandes maquinarias filosóficas que se chamavam hegelianismo, fenomenologia...


(...)

A experiência do fenomenólogo é, no fundo, uma certa maneira de pôr um olhar reflexivo sobre um objeto qualquer do vivido, sobre o cotidiano em sua forma transitória, para extrair as significações. Para Nietzsche, Bataille, Blanchot, ao contrário, a experiência é tentar chegar a um certo ponto da vida que seja o mais próximo do invivível [l´invivable]. O que se requer é o máximo de intensidade e, ao mesmo tempo, de impossibilidade. O trabalho fenomenológico, pelo contrário, consiste em estender todo o campo de possibilidades ligadas à experiência cotidiana.
Por outro lado, a fenomenologia busca restituir a significação da experiência cotidiana para reencontrar em quê o sujeito que sou é efetivamente fundador, em suas funções transcendentais, dessa experi~encia e de suas significações. Em contrapartida, a experiência em Nietzsche, Blanchot, Bataille tem por função arrancar o sujeito de si mesmo, de fazer em sorte que ele não seja mais ele mesmo ou que ele seja levado à sua distruição ou à sua dissolução. É um empreendimento de des-subjetivação.

A idéia de experiência-limite, que arranca o sujeito de si mesmo, eis o que tem sido importante para mim na leitura de Nietzsche, de Bataille, de Blanchot, e que tem feito que, embora fastidiosos, também eruditos que sejam meus livros, eu os tenho sempre concebido como experiências diretas visando a me arrancar a mim mesmo, a me impedir de ser o mesmo.

(...)

[p. 48] Nietzsche, Blanchot e Bataille são os autores que me permitiram liberar-me dos que dominaram minha formação universitária, no decorrer dos anos 50: hegel e a fenomenologia. Fazer filosofia, então, como ainda é hoje, significava principalmente fazer história da filosofia. E se procedia, delimitada de um lado pela teoria do sistemas de Hegel e de outro pela filosofia do sujeito, sob a forma da fenomenologia e do existencialismo. em substância, era Hegel que prevalecia. Tratava-se, de qualquer forma, para a França de uma descoberta recente, depois os trabalhos de Jean Wahl e a lição de Hyppolite. Era um hegelianismo fortemente penetrado de fenomenologia e existencialismo, centrado no tema da consciência infeliz [conscience malheureuse]. E era, no fundo, o que a Universidade francesa poderia oferecer de melhor como forma de compreensão, a mais vasta possível, do mundo contemporâneo, à pena saído da tragédia da Segunda Guerra e das grandes perturbações que a tinham precedido: a revolução russa, o nazismo, etc. Se o hegelisnismo se apresentava como a maneira de pensar racionalmente o trágico, vivida pela geração que nos tinha imediatamente precedido, e sempre ameaçado, fora da Universidade, era Sartr5e que estava em voga com sua filosofia do sujeito. Ponto de reencontro entre a tradição filosófica universitária e a fenomenológica, Merleau-Ponty desenvolvia o discurso existencial em um domínio particular como o da inteligibilidade do mundo, do real. Esse é o panorama intelectual que me fez amadurecer: de um lado, não ser um historiador da filosofia como meus professores, e, de outro, pesquisar qualquer coisa totalmente diferente do existencialismo: essa tem sido a leitura de Bataille e de Blanchot e, através delas, de Nietzsche. O que é que eles representam para mim?

Primeiro, um convite a pôr em questão a categoria do sujeito, sua supremacia, sua função fundadora. Depois, a convicção que uma tal operação não teria nenhum sentido se permanecesse limitada às especulações; recolocar em questão o sujeito significaria experimentar qualquer coisa que conduziria à sua destruição real, à sua dissociação, à sua explosão, a seu retorno em outra coisa.

(...)

[p. 49] Para mim, a política tem sido a ocasião de fazer uma experiência à la Nietzsche ou Bataille. Para qualquer um que tinha vinte anos logo após a Segunda Guerra mundial, que não tinha sido levado pela moral da guerra, que poderia bem ser a política quando se tratava de escolher entre a América de Truman e a URSS de Stálin? Entre a antiga SFIO e a democracia cristã? Tornar-se um intelectual burguês, professor, jornalista, escritor ou outro em um mundo parecido era intolerável. A experiência da guerra nos tinha demonstrado a necessidade e a urgência de uma sociedade radicalmente diferente daquela que vivíamos. Essa sociedade que tinha permitido o nazismo, que tinha se curvado diante dele, e que tinha passado em bloco ao lado de De Gaulle. Face a tudo isso, uma grande parte da juventude franceça teve uma reação de desgosto total. Desejava-se um mundo e uma sociedade não somente diferentes, mas que teriam sido um outro nós-mesmos; desejava-se ser completamente outro em um mundo completamente outro.

Igualmente o hegelianismo que nos era proposto na universidade com seu modelo de inteligibilidade contínua da história não estava à altura de nos satisfazer. Assim como a fenomenologia e o existencialismo, que mantinham o primado do sujeito e seu valor fundamental. Enquanto que por outro lado o tema nietzscheano da descontinuidade, de um super-homem que seria todo outro em relação ao homem. Seguidamente, em Bataille, o tema das experiências-limite pelos quais o sujeito sai de si mesmo, se decompõe como sujeito, aos limites de sua própria impossibilidade, teria um valor essencial. Essa foi para mim uma espécie de saída entre o hegelianismo e a identidade filosófica do sujeito.

(...)

Em uma filosofia como a de Sartre, o sujeito doa sentido ao mundo. Esse ponto não é posto em questão. O sujeito atribui as significações. A questão seria: pode-se dizer que o suejtio seja a única forma de existência possível? Não poderiam haver experiências ao curso das quais o sujeito não seja mais dado, em suas relações [p. 50] constitutivas, no que o identifica a si mesmo? Não haveria portanto experiências nas quais o sujeito possa se dissociar, quebrar a relação consigo mesmo, perder sua identidade? E não seria isso a experiência de Nietzsche com o eterno retorno?

(...)

A descoberta de Nietzsche se produziu fora da universidade. Em razão do emprego que haviam feito os nazista, Nietzsche era completamente excluído do ensinamento. Por outro lado estava muito em voga uma leitura continuísta do pensamento filosófico, uma atitude de respeito da filosofia da história que associava, em qualquer sorte, hegelianismo e existencialismo. E, a dizer a verdade, a cultura marxista dividia assim essa filosofia da história.


FOUCAULT, M. Entretien avec Michel Foucault (281). «Conversazione con Michel Foucault» («Entretien avec Michel Foucault»; entretien avec D. Trombadori, Paris, fin 1978), Il Contributo, 4e année, no 1, janvier-mars 1980, pp. 23-84. In Dits et Ecrits, vol. IV, p. 41-95. Paris: Gallimard, 1994.
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Publicado por nomadez às 12:13 PM - 0 comentários



- Um lembrete de Matsuo Bashô




"Meses e dias são viajantes da eternidade. O ano que se vai e o que se vem também são viajantes. Para aqueles que deixam flutuar suas vidas a bordo dos barcos ou envelhecem conduzindo cavalos, todo dia é dia de viagem. Sua própria casa é viagem."
"Days and months are the travellers of eternity. So are the years that pass by. Those who steer a boat across the sea, or drive a horse over the earth till they succumb to the weight of years, spend every minute of their lives travelling. There are a great number of the ancients, too, who died on the road. I myself have been tempted for a long time by the cloud-moving wind- filled with a strong desire to wander."
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Publicado por nomadez às 12:36 AM - 1 comentários



15 Setembro 2005 - Mark Poster: Foucault, Marxism and History

Encontrei no Foucauldian Reflections (FR) um post com o livro de Mark Poster sobre marxismo e história. Ele disponibiliza gratuitamente seu livro nesse endereço.

Conforme link do FR, pode-se também encontrar uma entrevista de poster aqui.

Aliás, Ali Rizvi consegue unir de modo fabuloso a maleabilidade dos blogs com informações valiosas de suas pesquisas, no FR. E o mais interessante é que na Austrália - país de Rizvi - há incentivo institucional para isso.
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Publicado por nomadez às 10:59 AM - 0 comentários



- Felix Guattari - Territorialidade, Desterritorialización, Reterritorialización

La noción de territorio se entiende aquí en un sentido muy lato, que desborda el uso que recibe en la etología y en la etnología. El territorio puede ser relativo a un espacio vivido,
así como a un sistema percibido en cuyo seno un sujeto se siente «en su casa». El territorio es sinónimo de apropiación, de subjetivación encerrada en sí misma. El territorio puede desterritorializarse, esto es, abrirse y emprender líneas de fuga e incluso desmoronarse y destruirse. La desterritorialización consistirá en un intento de recomposición de un
territorio empeñado en un proceso de reterritorialización.

El capitalismo es un buen ejemplo de sistema permanente de desterritorialización: las clases capitalistas intentan constantemente «recuperar» los procesos de desterritorialización en el orden de la producción y de las relaciones sociales. De esta suerte, intenta dominar todas las pulsiones procesuales (o phylum maquínico) que labran la sociedad.

In GUATTARI, F. Plan sobre el planeta - Capitalismo mundial integrado y revoluciones moleculares. Madrid: Traficantes de Sueños, 2004. (p. 139).
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14 Setembro 2005 - Agora querem o Severino?

É incrível a Câmara de Deputados brasileira ser presidida por um senhor que mal consegue articular palavras ou frases com coerência. Porém, mais inacreditável é pensar como ele foi parar lá.

A Veja publica nessa semana - e às vezes a Veja consegue expressar sem escrúpulos aquilo mesmo que ela visa, sem buscar apoiar-se na 'opinião pública' - que a oposição quer rapidamente afastar Severino Cavalcanti. Acusado de participar de um "mensalinho", e de ameaçar afrouxar as punições aos deputados supostamente envolvidos em outros esquemas, Severino deveria ser afastado - vejam só - por um movimento que parte da oposição.

Curiosa mudança de rumos, já que a mesma oposição que articula o afastamento de Severino é a que propiciou sua eleição. O mesmo pleito anti-petista que, no segundo turno da última votação garantiu os 300 votos que elegeram Cavalcanti (contra os 195 votos do vencedor do primeiro turno, Luis Eduardo Greenhalgh, do PT), é agora o que o acusa de apoiar o PT.

Em tempo: trajetória política resumida de Severino, segundo a Folha:
Severino foi prefeito de João Alfredo, sua cidade natal, de 1964-1966, pela UDN (União Democrática Nacional), partido que liderou a oposição a Getúlio Vargas quando o presidente ainda era vivo --morreu em agosto de 1954.

Hoje no PP, Cavalcanti passou por diversos partidos após sua estréia pela UDN. Em 1966, entrou para a Arena (Aliança Renovadora Nacional), o partido de sustentação da ditadura militar. Em 1980, foi para o PDS e, em 1987, para o PDC (Partido Democrata Cristão), onde permaneceu até 1990, quando entrou no PL (Partido Liberal).

Ficou pouco no PL, apenas até 1992, quando foi para o PPR. Em 1994, transferiu-se para o PFL e no ano seguinte, para o PPB, onde permaneceu até 2003, quando o partido mudou o nome para PP.

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- Thierry Bouts - L´Enfer (1450)



"E, por uma surpreendente inversão, é o animal, agora, que vai espreitar o homem, apoderar-se dele e revelar-lhe sua própria verdade. Os animais impossíveis, oriundos de uma imaginação enlouquecida, tornaram-se a natureza secreta do homem, e quando no juízo final o pecador aparece em sua nudez hedionda, percebe-se que ele ostenta o rosto monstruoso de um animal delirante: são esses corujões cujos corpos de sapos misturam-se, no Inferno de Thierry Bouts, à nudez dos danados (...)" FOUCAULT, M. História da Loucura. SP, Perspectiva, 1995.
Thierry Bouts, junto a Bosch, Brueghel, Schonghauer e Albrecht Durer servem, para Foucault, como mote de descrição de um ponto polêmico de seu primeiro grande livro: a chamada "experiência trágica" da loucura. Conforme Foucault, no final da Idade Média, a ruína do simbolismo gótico, com toda sua complexidade de figuras imaginárias, ocasiona um decálogo entre as imagens - doravante mudas, misteriosas, repletas de um sentido esotérico - e a experiência renascentista. O silêncio das imagens enuncia um excedente de sentido, o anúncio de uma alteridade insidiosa que se coloca ao sábio como supremo mistério. Trata-se de um perigo mudo, de uma alteridade que provém "do outro mundo", mas que invade esse como que saindo das entranhas da própria terra. E o sábio, diante dessa alteridade, se inclina, fascinado por esse murmúrio que pode revelar a própria verdade do homem.
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13 Setembro 2005 - O que é uma Lista de Discussão?

À primeira vista, poderia-se dizer que uma lista de discussão é um "lugar" em que as pessoas discutem sobre certas coisas. Há listas de discussão de todo tipo, cada qual sobre assuntos em que determinado indivíduo se interessa, pergunta, recebe a resposta, ou responde. Algumas pessoas sabem mais, outras menos, outras participam quase exclusivamente com dúvidas, e outras, com explicações das mais verazes às mais espalhafatosas. Mas gostaria de dar outra idéia a respeito do que de fato é, ou o que para muitos pode ser uma lista de discussão.

A princípio, em relação ao próprio "lugar", e à "discussão" que se discute numa lista de discussão. O lugar, que lugar é esse? "Onde" é feita a discussão de uma lista de discussão? E o tempo, por sua vez, em que tipo de temporalidade uma discussão é efetivada, discutida?

Em primeiro lugar, numa lista de discussão as conversações são infindas e indefinidas, não há uma temporalidade precisa. Pode-se fazer uma pergunta, e nunca ser respondido, ou mesmo, uma pergunta ecoar por meses para então resultar num acirrado debate. Podem haver debates calorosos que são interrompidos bruscamente, sem motivo algum. Nas pequeninas palavras do email, são criados amigos, adversários, inimizades, contatos, interlocutores, encontros, desencontros, tudo a partir da informalidade, do contato descontínuo, e de uma certa ausência, já que não se sabe quem está do outro lado. Um listeiro não se relaciona com outras pessoas, mas com aquelas palavras mesmas que lê no computador. De modo que a palavra "listeiro" não define uma "pessoa", mas sim o resultado da potencialização que pode resultar daquelas palavras...

É aí que entramos na questão do espaço. Uma lista é apenas um hard disc armazenado em um servidor? Ou seria multiplicada nos inúmeros assuntos, e em e-mails que nem mais são mandados para a lista, e-mails entre listeiros, telefonemas, conversas, encontros, refeições, grupos de estudo... Orbitando as palavras de uma boa lista de discussão, é criado um campo de outras palavras, gestos, afetos, meios, espaços, deslocamentos, encontros, de forma essencialmente inusitada. Listeiros trocam informações entre si sobre os assuntos da lista, ou mesmo inserem na lista assuntos que foram tratados fora. Algum listeiro pode por acaso encontrar outro em uma padaria, tendo como sinal e motivo de conversa apenas um livro que a outra pessoa portava, e que se relacionava ao assunto da lista; outros podem criar encontros em eventos, outros, mesmo, apenas tomar uma cerveja juntos.

Outra pergunta: numa lista de discussão, quem discute? O professor erudito, catedrático, arrogante e interesseiro que quer desenvolver um filão de seu estudo na net e ganhar dinheiro e reputação, junto ao adolescente curioso, o senhor e os demais interessados? Não, as posições, privilégios e as hierarquias são cindidas, bem como os nomes. O que resta para ser discutido são, no fim das contas, "idéias". Como vimos, não meras idéias, já que são idéias potencializadoras e criadoras de campos que ultrapassam as próprias "idéias". Mas a face que está do "outro lado", nosso interlocutor, pode ser qualquer pessoa, pode ser o melhor, algum desinteressado ou mesmo ninguém (já se falou sobre bots que se inscrevem em listas de discussão). Podemos estar conversando com uma grande autoridade disfarçada com um nome qualquer, ou mesmo, com um nome "qualquer" disfarçado de autoridade. A "autoridade" perde sua função e se esfacela, em nome do dito. Alguém que nos cristalizados círculos acadêmicos fica atrás da fila em matéria de visibilidade do seu trabalho - para emprestar a expressão "fila" de um texto escrito por um filósofo que não queria identificar-se -, ou mesmo alguém que nem está preocupado para inserir-se em "fila" alguma pode, em seu anonimato, ser revelador de idéias novas e inventivas. Por outro lado, um grande catedrático pode, muitas vezes, mostrar-se um paspalho.

É nesse sentido que uma lista de discussão é algo mais do que um HD com mero armazenamento de e-mails. A dinâmica de uma lista ensina, em suas multiplicações que ultrapassam as próprias palavras escritas, que das "meras" "idéias" informais, muito pode ser criado. Essa passagem direta do "virtual" ao "concreto", sem mediações e sem mesmo pressupor uma dualidade, é um bom exemplo para demonstrar como as relações cotidianas, pequenas, informais, podem ensejar mudanças.
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Publicado por nomadez às 11:15 AM - 0 comentários



12 Setembro 2005 - Guestbook

Adicionei na coluna ao lado um livro de visitas (ou guestbook). Gostaria de convidá-los a deixar suas impressões.

Estou gostando muito desse negócio de weblog. Tenho acessado vários outros blogs de todo tipo. Parece que nascem blogs aos montes todos os dias, o que dá uma certa dispersão de idéias, sem efetividade. Talvez esse blog seja como um desses que morrem por acaso. Talvez não. Palavras são muito caras para serem desperdiçadas.
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Publicado por nomadez às 7:59 PM - 1 comentários



11 Setembro 2005 - Mais sobre o analfabetismo funcional

O jornal virtual Brasil de Fato publicou artigo sobre a pesquisa da Fundação Paulo Montenegro (do IBOPE) a respeito do analfabetismo funcional no Brasil:

De acordo com os números da pesquisa, apenas 26% dos brasileiros se encaixam no nível pleno de alfabetização. Ou seja, conseguem ler textos longos, comparar textos, identificar fontes, localizar e relacionar mais de uma informação, como descreve o estudo. O Inaf classifica a população brasileira em outros três níveis: analfabeto, alfabetizado rudimentar (aquele que consegue ler títulos ou frases, localizando uma informação bem explícita) e alfabetizado básico (consegue ler texto curto, localizando uma informação explícita ou que exija uma pequena inferência).
Segundo o estudo, os analfabetos representam 7% do total; os alfabetizados rudimentares, 30%; e os alfabetizados básicos, 38%. Os dados mostram ainda que a tímida melhora nos índices de alfabetização de 2001 para cá se deu nos níveis mais baixos: caiu 2% o número de analfabetos e 1% dos alfabetizados rudimentares. Grosso modo, houve uma migração para a faixa de alfabetizados em nível básico, que subiu 4% nestes quatro anos. Enquanto isso, o índice de alfabetizado nível pleno se manteve estável nos 26%.

A porcentagem expressa no Brasil de Fato é diferente da veinculada no Jornal Hoje (de 68%), mas não deixa de mostrar a gravidade do problema. Em outro post, tentei analisar um pouco essa questão, a par do crescimento contínuo das faculdades particulares no Brasil.

Anuncia-se um futuro em que teremos uma boa parte de nossos profissionais vindos do ensino superior que não tiveram mínimas condições de aprendizagem. Alguém duvida que isso irá se refletir diretamente em nosso cotidiano?
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10 Setembro 2005 - 'it's not my job to die for my country and beliefs... it's to make those bastards die for theirs!'

"it's not my job to die for my country and beliefs... it's to make those bastards die for theirs!"

Li isso em um blog de um soldado norte-americano no Iraque. Fiquei ao mesmo tempo chocado e impressionado. Comentei no blog a respeito, e tenho esperanças que o papo fique bom. Lá vai:

Roy said...

"it's not my job to die for my country and beliefs... it's to make those bastards die for theirs!"
wow! why are they bastards? Why the beliefs of this "bastards" must to be aniquilated?

3:05 PM
KoolaidDavis said...

I figure I'm going to respond to Roy before anyone even puts thought into what he said.

First of all, if you're going to leave a half intelligent comment on my blog, and try to use a big word, try to spell it right.

I'm assuming you're wondering why their beliefs should be "questioned?"

Let's think... September 11th, 2001. That should say enough, Roy. Let's think more... how about the many many terrorist attacks on innocent civilians!

You're probably one of those people that think Ward Churchill shouldn't be fired for his remarks, and don't realize the First Ammendment just protects you from going to jail for what you say, not being fired from your job. There must be something REALLY REALLY REALLY wrong with you to even question their beliefs Roy. I'm sorry that you have a distorted view of the world, Roy. I'm sorry that you don't understand the horror Saddam Hussein, Bin Laden, Al-Zarqawi and Co. have put innocent civilians through. I am VERY sorry that you are having a hard time fathoming this, and I pray for you. Even more, I pray for my enemies.

As for what I said, it was just a quote. Sorry to everyone for not putting it in quotations. Personally, I wish everything could be solved through diplomacy, but obviously these terrorist netowrks don't agree. If they do not put down their weapons, we won't put down ours, and if they continue to try to kill the innocent, we will protect the innocent life.

Please put some thought in what these terrorist networks have done to our society in the past few decades. Imagine yourself living in horror in the Middle East. But I feel very very very sorry for you for defending their beliefs.

-Oli

3:54 PM
Anonymous said...

That's the Oliver I know.
Yoon

4:51 PM
roy said...

you do not reply my ask correctly. I´m not asking about the 9/11, i´m asking about why are "they" bastards. Who are "they"? Why are they "bastards"? Why are they "bastards" for what they believe? How can we to distinguish "bastards" and "no bastards"? I´m think you´re at Iraq, you know the iraqi people (right?), and the iraqi people is not like the north american people. There is essential diferences. About this diferences i´m asking, tenuous differences between a civilian iraqi and a terrorist, between a bastard, and a no-bastard...

Well, terrorists do not grow as trees, is there so many terrorists in Iraq, or... the limits between a civilian and a terrorist are very very tenuous? And the relations between the beliefs of a terrorist and the belief of a normal civilian? What do you think?

I have other question: do you (soldiers) talk about oil, and the depreciation of the dollar, and the relations between the dollar and the euro? Do you talk about "evil axis"?

I think there is many interesting questions to talk. I´m very curious about it. And you?

5:41 PM

Após essa pergunta, o soldado fez uma longa resposta, que coloco abaixo:

"Ask Oli" Discussion: Who are the "bastards"?

Ok, here's something new. Whenever I see a comment that needs to be discussed, I'll put the comment on a post.

Roy posted on March 11, 2005:

you do not reply my ask correctly. I´m not asking about the 9/11, i´m asking about why are "they" bastards. Who are "they"? Why are they "bastards"? Why are they "bastards" for what they believe? How can we to distinguish "bastards" and "no bastards"? I´m think you´re at Iraq, you know the iraqi people (right?), and the iraqi people is not like the north american people. There is essential diferences. About this diferences i´m asking, tenuous differences between a civilian iraqi and a terrorist, between a bastard, and a no-bastard...Well, terrorists do not grow as trees, is there so many terrorists in Iraq, or... the limits between a civilian and a terrorist are very very tenuous? And the relations between the beliefs of a terrorist and the belief of a normal civilian? What do you think? I have other question: do you (soldiers) talk about oil, and the depreciation of the dollar, and the relations between the dollar and the euro? Do you talk about "evil axis"? I think there is many interesting questions to talk. I´m very curious about it. And you?

Oli's says:

Ok Roy, I'll simplify it for you. I see that you are having a hard time understanding what I said was just a quote.

We are typically fighting two groups in Iraq. First, there are terrorists. These people come from all over, not just Iraq. It's very fortunate that we have to fight them in Iraq, where they can cause havoc on innocent civilians. The second major group we're fighting are Saddam loyalists, or insurgents who simply just don't want us here. They are fighting for their "country". Roy, contrary to what you believe, these two groups are the vast minority. The majority of the Iraqi's love us here. And I can say that because I'm actually here... and I see it for myself. I don't need TV or the news to tell me that.

So we'll label those two groups as the "bastards." OK, so they don't fit the literal meaning of bastatds... I think that's what you're looking for. So we'll just call them "shit heads", "ass holes", "dumb fucks", or simply "bad guys". And yes Roy, they are the bad guys... (I know you disagree, but come to Iraq and see for yourself).

Do you wonder why so many soldiers come to Iraq, and support what we're doing? And I'm not talking about the few soldiers Michael Moore conjured up on Farenheit 9/11... Do you wonder? Because we come here and see that we're doing good things, and we see that the media like.... CNN, etc. just likes to glorify all the bad things.

Do we talk about oil? Roy, come on. That's the lamest defense for a liberal claiming that's why we're here. That defense is outdated, and even proven to be untrue. Roy, if we wanted their oil, we would've taken it during Desert Storm. Stop the "I'm against Bush no matter what he does" thinking. THIS IS NOT ABOUT OIL.

Ok, so now many liberals want to blame the depreciation of the dollar on the President and the War also. The same people probably think the President was completely responsible for the 9/11 attacks... that's why our dollar value is down.

1. The dollar had been going down since the Clinton administration...
2. I blame the dollar value being down on liberals. If whiners didn't oppose the President in everything he did, maybe the dollar wouldn't be so low. Stop whining, and let the man do his job. Don't you see why your liberal minded counterparts are the minority in America these days?

Yes... we talk about the evil axis: Syria, Iran, and North Korea.

And don't worry Roy... I don't give a damn about the Euro. We are going to do whatever it takes to defend this country... we're not in it for Europe. So tell the European league of nations or whatever to go screw themselves. If it had been them attacked this same way, they would be doing the same thing.

I'll tell you what we really do talk about... We talk about how the Iraqi's appreciate us. We talk about how Saddam's murderous regime lasted longer than Hitler's. We talk about Saddam's sidekick "Chemical Ali" who commited horrendous crimes against the Kurds. We talk about how America delivered a free election to Iraq... when in the past, Iraqi's were pretty much killed for voting for anyone else but Saddam.

I think this is good discussion too, and if anyone has anything to input, please post as a comment. Roy... I pray that the liberally minded actually pay attention to what's going on... and before bashing everything that the President does, they grow some balls and come to Iraq themselves.

Bladesnitz posted on March 13,2004

Well said,

They are "bastards" because they want us dead (or others), period, regardless of our presence there. We don't want them dead, in fact, I think we'd rather see them work with us to create a better Iraq, but they aren't capable of tolerance or cooperation - thats why they are the bastards, not us.

Think about it - If we can, we'd rather capture and imprison the rebel fighters. Whereas, they would rather catch and behead our soldiers. Big difference.

Oil? This war is definitly not about Oil, at least not for us. I looked up in an atlas a few years back regarding oil exports from Iraq. The country that exported the most (by a large margin) oil from Iraq (~1/3rd of Iraq oil)? FRANCE. What a shock! So if this war is about oil for anyone, its about oil for France.

I'm not there, I'm not as brave as Oliver, but I do respect him and what he does, regardless of any personal view of the war (although I'm obviously in favor of it). The point is, we're liberating a country, and I hope we continue to spread TRUE freedom to the rest of the world. Its a miracle that there are individuals willing to go to war for such an unselfish cause.

Its true, the US does gain from this, but what do they gain? Stability, peace, and the opportunity to spread a system that has been proven to work. People in America have the right and the power to disagree, and thats a right everyone should have, without the fear of being killed for their beliefs. Those who kill to suppress freedom are the "evil" ones, and those who fight to defend are the "good" ones.

É muito curioso ver o que um soldado norte-americano pensa da "guerra", seus modos de justificativa, suas retificações cristãs após declarações agressivas, a generalização do 11/9 para todo o povo iraquiano, a ausência de "tolerância" vinda dos iraquianos, e não dos yankees, e assim por diante. Muito mais do que o que vemos no noticiário, essa é uma rica fonte para que vejamos o que o jornal não mostra, e avaliarmos o quanto somos, com nossos modos de vida, tributários de tudo isso...
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Publicado por nomadez às 11:33 AM - 2 comentários



09 Setembro 2005 - Fortunaty.net

link: fortunaty.net

Esse domínio está compilando, em formato .txt , uma poderosa biblioteca virtual
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Publicado por nomadez às 5:55 PM - 0 comentários



- Samuel Tuke: descrição das contenções de um alienado

Encontrei em um site uma descrição muito curiosa de Samuel Tuke, a respeito do modo de contenção dos alienados do Retiro:

Some years ago a man, about thirty-four years of age, of almost Herculean size and figure, was brouth to the house.

He had been afflicted several times before; and so constantly, during the present attack, had he been kept chained, that his clothes were contrive to be taken off and put on by means of strings without removing his manacles.

They were however taken off, when he entered the Retreat, and he was
ushered into the apartment, where the superintendents were supping.

He was calm; his attention appeared to be arrested by his new situation. He was desired to join in the repast, during which he behaved with tolerable propriety.

After it was concluded, the superintendent conducted him to his apartment, and told him the circumstances on which his treatment would depend; that it was his anxious wish to make every inhabitant in the house as comfortable as possible; and that he sincerely hoped the patient's conduct would render it unnecessary for him to have recourse to coercion.

The maniac was sensible of the kindness of his treatment. He promised to restrain himself, and he so completely succeeded, that during his stay, no coercive means were ever employed towards him.

This case affords a striking example of the efficacy of mild treatment. The patient was frequently very vociferous, and threatened his attendants, who in their defence were very desirous of restraining him by the jacket.

The superintendent on these occasions, went to his apartment; and though the first sight of him seemed rather to increase the patient's irritation, yet after sitting some time quietly beside him, the violent excitement subsided, and he would listen with attention to the persuasions and arguments of his friendly visiter.

After such conversations, the patient was generally better for some days or a week; and in about four months he was discharged perfectly recovered.

Can it be doubted, that, in this case, the disease had been greatly exacerbated by the mode of management? or that the subsequent kind of treatment had a great tendency to promote his recovery.


Estamos em época do nascimento dos "tratamentos morais" da loucura, mediados precisamente por uma imbricação confusa entre coerção moral e "técnica médica". Imbricação confusa que, com o advento do positivismo, conferirá uma difícil e estranha situação quando se pretende descrever todo tipo de fundamentação para uma ciência das "doenças mentais".
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Publicado por nomadez às 4:34 PM - 0 comentários



08 Setembro 2005 - O analfabetismo funcional no Brasil: uma novidade?

O Jornal Hoje vinculou uma reportagem bastante curiosa: 68% dos brasileiros com mais de 15 anos são analfabetos funcionais. A pesquisa foi encomendada pelo Instituto Paulo Montenegro, braço do IBOPE. De praxe, as pesquisas do IBOPE aparecem em momentos duvidosos do noticiário da Globo, mas essa parece ter acertado em cheio.

Aliás, talvez o noticiário não deu a devida ênfase para a notícia, ao não destacar que a gravidade desse índice é alarmante. Isso é como dizer que a cada dez pessoas que encontramos na rua, ao menos 6 ou 7 delas não sabem interpretar um texto ou retirar idéias de um livro com alguma coerência. Mas as coisas pioram quando imaginamos, na recente onda do aumento das faculdades particulares, essa proporção projetada numa sala de aula. Pois, a quem leciona no ensino superior, deparar-se com essa questão é fato cada vez mais corriqueiro.

A começar pela difícil questão que é lecionar numa turma em que se misturam alunos com "boa formação" (falar disso também é um problema, mas que não cabe nesse momento) e alunos analfabetos funcionais. Quando recorremos às teorias da aprendizagem (como a de Vygotsky), podemos retirar daí o negativo de um exemplo da educação infantil: nela, quanto maior a diversidade de crianças - que, entretanto, compartilham de um mesmo campo de desenvolvimento próximo -, mais produtiva é a relação de aprendizagem. Mas no ensino superior a disparidade de condições dos alunos não permite ao docente empregar as mesmas condições que as da educação infantil, já que há aí técnicas, conteúdos e práticas que exigem um lugar comum, pressupondo que questões como a do analfabetismo funcional tenham sido superadas (o problema da educação, para Vygotsky, não seria imanente aos problemas sociopolíticos?).

Não passar por tais questões é o mesmo que admitir alunos que estudem letras e não saibam interpretação de texto, ou que estudem exatas e não tenham competências matemáticas mínimas.

Daí a difícil situação imposta ao vestibular das faculdades particulares: empregar uma seleção rigorosa, ou preencher todas as vagas de modo indiscriminado, obrigando os professores a reduzir a níveis mínimos o rigor do ensino. É só olhar ao redor, entretanto, para notar que é a segunda opção a generalizadamente escolhida.
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Publicado por nomadez às 8:18 PM - 1 comentários



07 Setembro 2005 - Rewriting the History of Madness


STILL, Arthur; VELODY, Irving. Rewriting the History of Madness - Studies in Foucault's `Histoire de la Folie'. London: Routledge, 1992

Já é conhecido do leitor familiarizado com os textos de Foucault que até agora, em língua inglesa, havia sido publicada uma versão de História da Loucura diminuída, intitulada Madness and Civilization. Uma tradução de Histoire de la Folie, entretanto, está para sair brevemente. Esse livro de STILL e VELODY pertence à espectativa dos leitores de língua inglesa que aguardam o impacto da nova tradução frente às incompletudes da antiga.

O livro todo circunda um comentário de Colin Gordon (Histoire de la Folie: a unknown book of Michel Foucault), que pode ser acessado gratuitamente (!) na página da edição.

Clicando em "leia mais", pode-se ler um pequeno release do livro.

Rewriting the History of Madness -Studies in Foucault's `Histoire de la Folie'

Editor : Arthur Still, Irving Velody

Master eBook ISBN : 0-203-20827-7

No of pages : 240

eBook Price : £75.00


(Price include all sales tax where applicable)

Originally Published : 8 Oct 1992

Michel Foucault has had an extraordinary impact on writers in the human sciences since his first book Madness and Civilization appeared in English. When it appeared in Britain in 1967 it was read as part of the anti-psychiatry movement of the time. Only retrospectively has it been seen as the start of a profoundly original and influential theory on the nature of knowledge and power.


Rewriting the History of Madness is a collection of essays centered around a provocative paper by Colin Gordon, which claims that major critics have failed to take note of the depth of Foucault's researches because of their excessive dependence on the English translation of the abridged 1965 edition. The collection takes Gordon's essay as a starting point, but ranges widely in drawing out the significance of Foucault's writings for modern thought in a variety of disciplines.


With its annotated bibliography of anglophone reactions to Madness and Civilization, this book provides an excellent and lively approach to the literature on Foucault, and is an exciting assessment of the implications of his work in the history of madness and the historiography of the human sciences.




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06 Setembro 2005 - Observar os observadores - Mídia Digital e o Observatório da Imprensa

O sítio brasileiro "Observatório da Imprensa" é leitura indispensável para os brasileiros que se interessam pelas interpretações e tendências que a própria mídia brasileira elabora. Já é há muito tempo ingenuidade acreditar que a mídia é "espelho" da realidade, e que basta as coisas acontecerem para que o noticiário mostre ao leitor/espectador/ouvinte tudo com fidelidade. O Observatório atua avaliando as pretensões de cada "espelho", mostrando distorções derivadas de parcialidades e tendências políticas.

Com primor, o Observatório cumpre essa função, de observar e interpretar os veiculadores dos "fatos". É um site semanal, que estrateticamente lança suas edições virtuais após acompanhar a saída dos principais meios editoriais brasileiros. Mas é a sua dinâmica de edição virtual, entretanto, que gostaria de chamar a atenção.

É consenso dos adeptos do "periodismo digital" que, da mesma maneira pela qual ... o bom jornalista da mídia impressa deve ter bom conhecimento de todos os empregos técnicos que envolvem esse meio, o periodista digital deve também conhecer as possibilidades da mídia virtual. Existem vários sistemas de publicação digital automática, com maior ou menor complexidade de edição. O bom jornalista, assim, é o que possui um mínimo domínio desses sistemas de edição, para que não haja decálogos entre as publicações recebidas, e a saída de cada edição virtual. É um contra-senso, nesse ínterim, supor editores virtuais que, por desconhecimento ou imperícia dos sistemas que empregam, dispensem a edição de links, figuras ou meios afins que configuram a própria especificidade da mídia virtual (em oposição à impressa).

Talvez aí resida um pequeno "pecado" do Observatório, como mídia virtual. Nesse site, há uniformidade nos padrões exigidos para publicação (o que é uma virtude), porém artigos com vários links, por exemplo, demoram para ser editados, ou mesmo alguns deles são dispensados. Qualquer programa de edição virtual, seja com edição direta em HTML ou com formatação automática, permite que vários links sejam vinculados rapidamente. Basta para isso digitar rapidamente o código, ou clicar na opção correspondente do editor. O link é moeda corrente na mídia digital, não deveria ser um empecilho à edição. Quanto mais questões um artigo veicula, maior torna-se a importância dos links; quanto mais liames, maior é o ganho do leitor e do escritor, tanto pelo rigor da escrita, quanto pela possibilidade de fornecer ao leitor meios que excedem o próprio texto escrito.

O bom "periodista" (digital ou não) sabe que todo texto é um nó em uma rede. Mas o editor digital tem a oportunidade de potencializar isso ao máximo.
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05 Setembro 2005 - nomadologiaz



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:: Nomadologiaz:

Numa página chamada “marketing hacker“, um prodigioso paradoxo: “o nômade se move de maneira turbilhonar pelo espaço. E faz das suas roupas e pertences, o seu “território”. O nômade nunca muda, ele sempre está em casa.“




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