31 Outubro 2005 - Halloweens e afins


Saiu essa madrugada na Folha de São Paulo uma curiosa reportagem sobre o repúdio de Hugo Chavez às manifestações do Halloween. Para Chavez, o Halloween seria alguma imposição externa que nada tem a ver com o povo venezuelano. Os jornalistas, obviamente, chamaram a atenção a outro fato: Chavez, dizendo isso, estaria contrariando o artigo 350 da constituição venezuelana, que visaria a livre manifestação "democrática". Estranho dizer isso em relação à opinião de um presidente, principalmente vinculando outra notícia que manifesta que 77% dos venezuelanos aprovam o seu. Curioso: um presidente pouco democrático e maleável sendo apoiado por 77% de seu povo?

Mas, de todo modo, é importante chamar a atenção a outras questões que envolvem esse manifesto (sendo Chavez o que quer que seja, e sendo a "democracia" governo da maioria ou do que quer que seja). De uns anos para cá, no Brasil, vem se formando cada vez mais uma cultura do "Halloween", do "dia das bruxas". Mas, em via contrária, a cultura brasileira está sofrendo uma pesada massificação e uniformização do que viria a ser uma "cultura brasileira" propriamente dita, e um esquecimento generalizado de suas manifestações regionais. Para citar um único exemplo, mas que abarca um feixe de questões, basta mencionar as diversas culturas do sul do país: que lugar há para elas na mídia? Quase nenhum, com exceção das próprias produções regionais, e de alguns turistas que descobrem que o Brasil não se resume aos axés, pagodes e sertanejos vinculados na mídia maior.

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30 Outubro 2005 - Edward Said e o imperialismo cultural

Link: unicamp.br. Texto de Ligia Osorio Silva*.

É uma honra fazer parte deste ato em homenagem ao intelectual palestino-americano Edward Said, cuja obra segue sendo uma inspiração para os apoiadores da causa Palestina e os críticos do imperialismo passado e presente. Lembrar a sua inestimável contribuição ao conhecimento do Oriente Médio, sua crítica ao imperialismo cultural e sua postura de honestidade intelectual parece-nos o modo adequado de reafirmar seu lugar no pensamento crítico da atualidade malgrado uma morte prematura.

Em consonância com essa intenção parece-nos oportuno destacar alguns aspectos de duas obras que contribuíram para tornar Said mundialmente conhecido e respeitado. Orientalismo, o livro escrito em 1978 e traduzido em inúmeras línguas cujo sucesso abrangente surpreendeu o próprio autor (foi best seller na Suécia) e abriu novas perspectivas para o estudo do imperialismo e Cultura e Imperialismo (1993), que trouxe contribuições decisivas à história das relações diplomáticas entre o Oriente Médio, por um lado, e a Inglaterra, a França e os Estados Unidos, por outro.

Antes de Said, orientalismo era uma disciplina acadêmica que incluía, entre outros, os estudiosos da língua e da cultura árabe nas universidades, nos centros de pesquisas e as publicações sobre o tema. Apesar da chancela acadêmica, estes estudos fizeram muito pouco para desmontar os preconceitos existentes em relação ao seu objeto; ao contrário, perpetuaram uma imagem distorcida dos árabes ? como sensuais, corruptos, preguiçosos, atrasados e violentos. Os métodos institucionais e culturais serviram de veículo através do qual os europeus construíram uma noção idealizada do Oriente, designaram fronteiras hierárquicas entre este e o Ocidente, fabricando-se a si mesmo através dessa separação arbitrária e útil, construindo a identidade cultural européia por sobre e contra o Oriente. Esta constatação serviu de ponto de partida para que Said tecesse os fios ligando a construção e o desenvolvimento da disciplina à aquisição de vastas possessões coloniais no Oriente pela Inglaterra e França, países que sediavam os centros orientalistas. Chama a atenção a coincidência entre o conteúdo do trabalho dos acadêmicos e a prática política dos governos da França e Inglaterra nas terras estudadas. Constata-se o modo nada inocente como o orientalista percebia e classificava seu objeto. O orientalismo, como o define Said, é um ?estilo de pensamento?, um modo de pensar o Oriente que ajudou a subordiná-lo através do conhecimento enviesado produzido sobre ele e que deu ao Ocidente o poder de ditar o que era significativo sobre ?o outro?, classificá-lo junto com outros de sua espécie e colocá-lo ?no seu lugar?.

Ao desvendar a construção do Oriente como uma entidade abstrata, Said destaca o caráter totalitário e essencialista desta construção. E de modo algum pretende construir um outro conceito de Oriente (nem muito menos um outro Ocidente), em substituição. Sua intenção é se insurgir contra esta forma de pensamento totalitário, que toma conjuntos humanos distintos, complexos, heterogêneos, formados por países, povos, e nações históricas individualizadas e procura lidar com eles na forma de uma totalidade homogênea. Para Said, não existe uma essência do Oriente assim como, também, não existe uma essência do Ocidente. Estas construções serviram para mascarar uma relação desigual que marcou historicamente o relacionamento entre alguns países da Europa ?adiantada? com países da periferia do capitalismo.

A atualidade da análise de Said confirma a idéia de que o imperialismo não acabou, não se tornou ?passado? com os processos de descolonização e a desmontagem dos impérios clássicos. Os vínculos entre antigas colônias e antigas metrópoles continuam a demandar atenção especial e o papel de superpotência desempenhado pelos Estados Unidos, hoje, mostra que, apesar do novo arranjo nas linhas de força, o imperialismo continua a ser o traço marcante das relações Norte-Sul. E essa situação mantém a necessidade ideológica de consolidar e justificar a dominação em termos culturais, como tem sido o caso desde pelo menos o século XIX. Segue-se que o papel primordial dos intelectuais dentro e fora das universidades, tanto do Norte quanto do Sul, é resistir a essa ideologia que disfarçada de ?conhecimento? objetiva deturpar para mais facilmente subordinar os povos que, nas palavras de Conrad retomadas por Said, ?possuem uma compleição diferente ou um nariz um pouco mais achatado?.


* Palavras ditas na Homenagem a Edward Said, cerimônia realizada no auditório do Clube Homs em 11/12/2003 em São Paulo.

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28 Outubro 2005 - Toni Negri e Michael Hardt: Link para baixar a edição original de "Empire"

Link para baixar a edição original de "Empire":

HARDT, M.; NEGRI, A. Empire. Cambridge/London: Harvard University Press, 2000.

nota: o livro só pode ser baixado por quem possui programas p2p ("peer to peer") como o Emule, Edonkey e outros. Para saber mais a respeito do emule, clique aqui.

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- Sobre o Pensamento (ou sua ausência) no Brasil.

Fico pensando a respeito do quão pouco nós, brasileiros, somos valorizados quando se trata de considerar nosso próprio pensamento. O Brasil exporta pesquisadores. Mas é uma pena que essa "exportação" não se dá por um excedente ou por um jogo em que o próprio Brasil saia beneficiado. Aqui, simplesmente não há lugar a pesquisadores como há em outros países. Por aqui, são valorizados apenas os técnicos, e as receitas das mais diversas espécies vindas de fora. Portanto, se você é pesquisador, e não possui recursos...

Já dizia Silviano Santiago, no ensaio introdutório à coleção Intérpretes do Brasil (parafraseio): desde que "eles" aportaram por aqui, nada do que poderia haver de voz enunciada pelos habitantes dessas terras virgens poderia representar qualquer valor. Dado histórico, mas que adquire um triste simbolismo na história do Brasil, principalmente na contemporaneidade: há aqui muita "mão-de-obra", mas Pensamento, esse com "pê" maiúsculo, não pode haver não sinhô...

Temo constatar que, mesmo onde supostamente o haja (em alguns recantos universitários), seja permeado pelo mesmo coronelismo que impede qualquer pensamento dito "brasileiro". Bom, esse foi um "post" em tom de desabafo...

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27 Outubro 2005 - Sobre Michael Hardt


Em um post anterior, fez-se uma breve apresentação sobre o novo livro de Negri e Hardt sobre o Império, intitulado "Multidão". Como se pode ver, por exemplo, em "Pensar e viver de outro modo", Negri teve boas interlocuções com Guattari no período em que esteve preso. Mas e Hardt? Este, parece à primeira vista desconhecido. Entretanto, há trabalhos muito interessantes desse norte-americano, que dizem diretamente respeito aos "campos" da autonomia, e a reflexões importantíssimas sobre os modos de pensar que se articulam a esses campos.

Há um weblog chamado "devires" que cita uma frase muito interessante de Deleuze em sua apresentação: "Os modos de vida inspiram maneiras de pensar, os modos de pensar criam maneiras de viver". Ora, não se trata apenas de dizer que as práticas se traduzem em teorias, ou que sobre qualquer fato há uma aproximação possível do pensamento, mas sim que há certos planos em que pensamentos e ações são possíveis - não havendo, pois, tradução entre esses dois termos, mas essencialmente entrecruzamentos, engendramentos, "agenciamentos". É desse modo que textos ditos mais "teóricos" podem ajudar a compreender "práticas" de autonomia, mesmo sabendo, de antemão, que tais textos e tais práticas cindem - ao menos, esse é o projeto - a divisão entre teoria e prática.

É nesse sentido que gostaria de chamar a atenção a um texto de Hardt, chamado "Gilles Deleuze - um aprendizado em filosofia", publicado no Brasil pela editora 34. Se parece de início uma dissertação a respeito do "pensamento" deleuziano, há um profundo compromisso em mostrar como Deleuze, apoiando-se em filósofos como Bergson, Nietzsche e Espinosa, busca desviar-se dos postulados que reinavam no pensamento francês do pós-guerra. Como alvo longínquo, está não apenas o pensamento francês, mas Hegel e a dialética, e a pergunta: como construir um pensamento que não recaia nas categorias da consciência e do sujeito, e ao mesmo tempo fuja a uma apreensão dialética? Tarefa gigantesca e dura a ser considerada, já que qualquer tentativa de desvio da dialética pode ser tomada como tentativa de superação, categoria eminentemente dialética. Em outras palavras, um projeto não-dialético facilmente recai nas malhas da dialética, e desviar-se dela, sob muitas formas, implica realizá-la.

Daí a tarefa: como encontrar uma negação que não ofereça recursos, uma diferença que de modo algum possa ser sintetizada, aclarada sobre as categorias subjetivas? Para Deleuze - diz Hardt -, uma negação absoluta e não-dialética não é apenas uma possibilidade lógica, mas nada mais do que algo a ser constatado no próprio mundo, através de um "criticismo nuclear" (a "negação" oferecida por uma bomba nuclear não permite qualquer recurso, é a destruição total), e em pensamentos como o de Roger Bacon. Os momentos de uma negação absoluta, ao contrário de uma estrutura tripartite que constitui a dialética (tese, negação e síntese), constituem essencialmente um par que impede qualquer recurso sintético: Pars destruens, pars construens. Ao invés de síntese, a destruição abriria lugar à criação de algo essencialmente novo, livre dos movimentos anteriores, atitude que Hardt reporta a um verdadeiro pensamento crítico. Nos diferentes momentos dessas implicações, Deleuze lançará mão (segundo Hardt) de Bergson, Nietzsche e Espinosa, como recursos para construção de um pensamento livre da dialética e do hegelianismo. Nesse sentido, é que se pode abrir espaço a uma nova concepção de ação e de política que não meramente repita as práticas e conceitos hegemônicos até o pós-guerra.

No site de Hardt, há alguns textos bastante interessantes a respeito desses assuntos. Num texto muito semelhante à Introdução ao livro sobre Deleuze que comentamos acima, Hardt trabalha com a noção de negação analisando-a não apenas em Deleuze, mas também em Negri. Há também no site outros textos sobre Marx e sobre Deleuze e Guattari.

foto: Hardt com Toni Negri, capturada no site repubblica.it
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- Francois Schuiten: Fantasy Art

Biblioteque Prints by Francois Schuiten Shadow of Doubt Posters by Francois Schuiten Vol de Nuit Posters by Francois Schuiten

The Last Pages Posters by Francois Schuiten Le Dernier Plan Prints by Francois Schuiten The Last Pages Posters by Francois Schuiten
Link: allposters.com

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25 Outubro 2005 - Toni Negri e Michael Hardt: Multidão

Vinculo abaixo mensagem recebida nas amadas e informais listas de discussão e correntes (as produtivas) de e-mail:


MULTIDAO - GUERRA E DEMOCRACIA NA ERA DO IMPERIO

Autor: NEGRI, ANTONIO Autor: HARDT, MICHAEL
1ª Edição - 2005 - 530 pág.

A quantas anda o imperialismo na era do Império Americano? Muitos afirmam que a guerra unilateral contra o terrorismo promovida pelos Estados Unidos prova que o imperialismo à velha maneira continua vivo e atuante. Depois de analisarem a nova ordem política da globalização em Império , em 'Multidão', Hardt e Negri sustentam que é o contrário que acontece - os terríveis fracassos do projeto americano vêm confirmar que a única maneira de ricos e poderosos preservarem seus interesses e assegurarem a ordem global é estabelecer uma ampla colaboração entre as potências dominantes, numa nova forma de Império. Mas esta paz imperial de forma alguma constitui uma solução para a maior parte do mundo. Esta paz serve na realidade para manter globalmente um estado de violência que vem progressivamente permeando todos os aspectos de nossa sociedade, exacerbando hierarquias e subvertendo as possibilidades tradicionais de troca democrática. Será que o medo transformou-se em nossa condição permanente e a democracia, num sonho impossível? Semelhante pessimismo é profundamente equivocado, sustentam Hardt e Negri. Ao colonizar e interligar de maneira cada vez mais profunda um número maior de áreas da vida, o Império está na realidade criando a possibilidade de um novo tipo de democracia. Convergindo numa comunidade globalmente interligada em redes, diferentes grupos e indivíduos podem associar-se em fluidas matrizes de resistência; deixando de constituir 'massas' silenciosas e oprimidas, podem formar uma multidão, com o poder de forjar uma alternativa democrática à atual ordem mundial.

O Globo / Data:22/10/2005
Amor & multidão

Rachel Bertol
Foi sob o impacto dos protestos que eclodiram em Seattle, no fim de 1999, e em Gênova, em 2001, os ditos movimentos antiglobalização, que o italiano Antonio Negri e o americano Michael Hardt escreveram Multidão (editora Record) ? obra que o filósofo italiano lança hoje em Nova Iguaçu e em conferências no Rio nos próximos dias (uma delas no auditório do Globo, terça-feira). No livro, os autores aprofundam idéias que haviam desenvolvido em 'Império', que obteve ampla repercussão nos meios intelectuais de esquerda de todo o mundo, quando publicado, em 2000. Ao buscar entender as novas formas de poder na globalização, Negri e Hardt destacam a força da multidão, conceito que se refere à potência criativa dos indivíduos, à cooperação e aos desejos que propiciam resistência e transformação, isso numa era em que a soberania dos Estados-nação entrou em xeque e a guerra tornou-se global, policialesca.As análises dos movimentos da multidão ? os quais se expressam em encontros como os do Fórum Social Mundial, com redes militantes de intelectuais, negros, indígenas etc ? alimentam outro livro que Negrilança agora no Brasil - 'Glob(AL) ? Biopoder e luta em uma América Latina globalizada' (Record), escrito com o professor da UFRJ Giuseppe Mario Cocco. Os autores reiteram no livro seu apoio ao presidente Lula. Em sua opinião, com Lula mantém-se aberto um espaço 'constituinte', de 'articulação entre conflito e consenso', que vai no sentido 'de uma radicalização democrática ? ética ? (...) contra o acaso, contra o passado, contra tudo o que é constituído'.Em entrevista por telefone de Veneza há poucos dias, antes da viagem à América Latina ? Negri esteve esta semana no Chile e depois do Brasil irá à Argentina ?, o filósofo afirmou que o caso brasileiro 'é o cúmulo'.? São os corrompidos que ganham. E os corrompidos são o sistema e não o pobre Lula. É como na Itália - Berlusconi ganha, e ele é o corrompido. É a mesma operação - quanto mais você é corrompido, mais você ganha ? observou o filósofo, que há dois anos reconquistou sua total liberdade, após cumprir pena na Itália devido à acusação de envolvimento com o grupo Autonomia Operária.

HARDT, MICHAEL
Michael Hardt is Assistant Professor in the Literature Program at Duke University.


NEGRI, ANTONIO
Antonio Negri is an independent researcher and writer and an inmate at Rebibbia Prison, Rome. He has been a Lecturer in Political Science at the University of Paris and a Professor of Political Science at the Univerity of Padua.

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- Uruknet.info



Encontrei esse site ao acaso, visitando páginas como a resistir.info, e outras. O interessante em mostrar esse tipo de link é o acesso à mídia: temos acesso prioritariamente ao que provém de meios como a CNN e a Fox News; nada se fala, nada se lê sobre o constante murmúrio de weblogs e sites, a favor ou contra os intervencionismos norte-americanos, que diariamente veiculam informações muito mais preciosas (independente de suas tendências) do que a mídia maior. É muito curioso o acesso a esse tipo de "arquivo", ao mesmo tempo informação inerte, esquecida, nunca vista, e contemporânea às leituras e interpretações do próprio leitor. Ao mesmo tempo palavras cuja veracidade é dúbia, porém que coloca em dúvida as próprias informações vinculadas pela mídia maior.
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- Sêneca: Sobre a Brevidade da Vida


(Observação: os números seguidos de traço e dois pontos correspondem a um capítulo, e os números entre parênteses, a versículos*)

1 ? 1: A maior parte dos mortais, Paulino, queixa se da malevolência da Natureza, porque estamos destinados a um momento da eternidade, e, segundo eles, o espaço de tempo que nos foi dado corre tão veloz e rápido, de forma que, à exceção de muito poucos, a vida abandonaria a todos em meio aos preparativos mesmos para a vida. E não é somente a multidão e a turba insensata que se lamenta deste mal considerado universal: a mesma impressão provocou queixas também de homens ilustres. Daí o protesto do maior dos médicos: (2) "A vida é breve, longa, a arte."' Daí o litígio (de nenhuma forma apropriado a um homem sábio) que Aristóteles teve com a Natureza: "aos animais, ela concedeu tanto tempo de vida, que eles sobrevivem por cinco ou dez gerações; ao homem, nascido para tantos e tão grandes feitos, está estabelecido um limite muito (3) mais próximo." Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela já passou (4) por nós sem que tivéssemos percebido. O fato é o seguinte: não recebemos uma vida breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas esbanjadores. Tal como abundantes e régios recursos, quando caem nas mãos de um mau senhor, dissipam-se num momento, enquanto que, por pequenos que sejam, se são confiados a um bom guarda, crescem pelo uso, assim também nossa vida se estende por muito tempo, para aquele que sabe dela bem dispor.

2 ? 1: Por que nos queixamos da Natureza? Ela mostrou se benevolente: a vida, se souberes utilizá la, é longa. Mas uma avareza insaciável apossa se de, um de outro, uma laboriosa dedicação a atividades inúteis, um embriaga se de vinho, outro entorpece se na inatividade; a este, uma ambição sempre dependente das opiniões alheias o esgota, um incontido desejo de comerciar leva aquele a percorrer todas as terras e todos os mares, na esperança de lucro; a paixão pelos assuntos militares atormenta alguns, sempre preocupados com perigos alheios ou inquietos com seus próprios; há os que, por uma servidão voluntária, se desgastam numa ingrata solicitude a seus superiores; (2) a busca da beleza de um outro ou o cuidado com sua própria ocupa a muitos; a maioria, que não persegue nenhum objetivo fixo, é atirada a novos desígnios por uma vaga e inconstante leviandade, desgostando se com isso; alguns não definiram para onde dirigir sua vida, e o destino surpreende os esgotados e bocejantes, de tal forma que não duvido ser verdadeiro o que disse, à maneira de oráculo, o maior dos poetas: "Pequena é a parte da vida que (3) vivemos." Pois todo o restante não é vida, mas tempo. Os vícios atacam nos, e rodeiam nos de todos os lados e não permitem que nos reergamos, nem que os olhos se voltem para discernir a verdade, mantendo os submersos, pregados às paixões. Nunca é permitido às suas vítimas voltar a si: se por acaso acontecer de encontrarem alguma trégua, ainda assim, tal como no fundo do mar, no qual, mesmo após a tempestade, ainda há agitação, eles ainda assim são o joguete das paixões, e nenhum repouso (4) lhes é concedido. Pensas que falo daqueles cujos vícios são declarados? Vê aqueles cuja fortuna faz acorrer a multidão: são sufocados pelos seus bens. A quantos as riquezas não são um peso! Quantos não verteram seu sangue por causa de sua eloqüência e da presteza diária com que exibiam seus talentos! Quantos não estão pálidos por causa de seus contínuos prazeres! A quantos a vasta multidão de clientes não dá nenhuma liberdade! Passa os olhos por todos, desde os mais pequenos até os mais poderosos: este advoga, aquele assiste, um é acusado, outro defende, e um outro ainda julga ninguém reivindica nada para si, todos consomem mutuamente suas vidas. Pergunta por aqueles cujos nomes se aprendem de cor e verás que eles são identificados pelas características seguintes: este é servidor daquele, que o é de um outro ninguém pertence a si próprio. (5) E, portanto, é o cúmulo da insensatez, a indignação de alguns: queixam se do desdém de seus superiores, porque estes não tiveram tempo de ir ter com eles quando o desejavam. Quem ousará queixar se da soberba de um outro, quando ele mesmo não tem um momento livre para si próprio? E aquele, contudo, apesar de seu aspecto insolente, olhou te uma vez com consideração, sem saber quem eras, prestou atenção às tuas palavras e mesmo recebeu te junto de si; tu não te dignaste a considerar nem a ti mesmo. Portanto não há razão para pedires contas de teus favores a quem quer que seja, uma vez que, quando os fizeste, não desejavas estar com um outro, mas não podias estar contigo.

3 ? 1: Todos os espíritos que alguma vez brilharam consentirão neste único ponto: jamais se cansarão de se espantar com a cegueira das mentes humanas. Não se suporta que as propriedades sejam invadidas por ninguém, e, se houver uma pequena discórdia quanto à medida de seus limites, os homens recorrem a pedras e armas; no entanto, permitem que outros se intrometam em suas vidas, a ponto de eles próprios induzirem seus futuros possessores; não se encontra ninguém que queira dividir seu dinheiro, mas a vida, entre quantos cada um a distribui! São avaros em preservar seu patrimônio, enquanto, quando se trata de desperdiçar o tempo, são muito pródigos com relação à única (2) coisa em que a avareza é justificada. Por isso, agrada me interrogar um qualquer, dentre a multidão dos mais velhos: "Vemos que chegaste ao fim da vida, contas já cem ou mais anos. Vamos! Faz o cômputo de tua existência. Calcula quanto deste tempo credor, amante, superior ou cliente, te subtraiu e quanto ainda as querelas conjugais, as reprimendas aos escravos, as atarefadas perambulações pela cidade; acrescenta as doenças que nós próprios nos causamos e também todo o tempo perdido: verás que tens menos anos de vida (3) do que contas. Faz um esforço de memória: quando tiveste uma resolução seguida? Quão poucas vezes um dia qualquer decorreu. como planejaras! Quando empregaste teu tempo contigo mesmo? Quando mantiveste a aparência imperturbável, o ânimo intrépido? Quantas obras fizeste para ti próprio? Quantos não terão esbanjado tua vida, sem que percebesses o que estavas perdendo; o quanto de tua vida não subtraíram sofrimentos desnecessários, tolos contentamentos, ávidas paixões, inúteis conversações, e quão pouco não te restou do que era teu! Compreendes que morres (4) prematuramente." Qual é pois o motivo? Vivestes como se fósseis viver para sempre, nunca vos ocorreu que sois frágeis, não notais quanto tempo já passou; vós o perdeis, como se ele fosse farto e abundante, ao passo que aquele mesmo dia que é dado ao serviço de outro homem ou outra coisa seja o último. Como mortais, vos aterrorizais de tudo, mas desejais tudo como se fôsseis (5) imortais. Ouvirás muitos dizerem: "Aos cinqüenta anos me refugiarei no ócio, aos sessenta estarei livre de meus encargos." E que fiador tens de uma vida tão longa? E quem garantirá que tudo irá conforme planejas? Não te envergonhas de reservar para ti apenas as sobras da vida e destinar à meditação somente a idade que Já não serve mais para nada? Quão tarde começas a viver, quando já é hora de deixar de fazê lo. Que negligência tão louca a dos mortais, de adiar para o qüinquagésimo ou sexagésimo ano os prudentes juízos, e a partir deste ponto, ao qual poucos chegaram, querer começar a viver!

4 ? 1: Verás os homens mais poderosos, e elevados aos mais altos postos, deixar escapar palavras nas quais desejam e louvam o ócio e o preferem a todos os seus bens. Por um momento desejam abdicar daquela sua proeminência, se for possível fazê lo em segurança, pois ainda que nada venha do exterior assaltá la ou abalá-la, (2) por si só a fortuna se desfaz. O divino Augusto, a quem os deuses, mais do que a qualquer outro mortal, favoreceram, nunca deixou de almejar repouso para si próprio e desejar folga dos assuntos públicos; todas as suas falas voltavam sempre ao mesmo ponto: a esperança de ócio. Isto distraia suas penas com o seguinte consolo, fingido, contudo doce: um dia haveria (3) de viver para si mesmo. Em certa carta endereçada ao Senado, como prometesse que seu repouso não haveria de ser desprovido de dignidade e seria condizente com sua glória passada, encontrei essas palavras: "É porém mais ilusório que essas coisas se realizem do que podem ser prometidas. Contudo o desejo daquele tempo, que tanto ambiciono, me anima de tal forma, que antecipo algo do desejado pela doçura das palavras (4) pronunciadas, ainda que tarde seu deleite." O ócio era uma coisa tão almejada, que, por não poder dele usufruir, antecipava o em pensamento. Ele, que via todas as coisas dependerem unicamente de si, que decidia a sorte dos homens e das nações, com muita satisfação pensava no dia em que se despojaria de sua grandeza. (5) Estava ciente de quanto suor exigiam aqueles bens que brilhavam por todas as terras, de quantas inquietações reprimidas eles ocultavam: forçado primeiramente a combater os cidadãos, depois os amigos, e finalmente os mais próximos de si, em mar e em terra fez correr sangue. Tendo levado a guerra à Macedônia, Sicília, Egito, Ásia e a quase todas as costas, dirigiu os exércitos já cansados de oprimir romanos às guerras externas. Enquanto pacifica os Alpes e subjuga inimigos infiltrados em meio à paz do Império e estende as fronteiras para além do Reno, do Eufrates e do Danúbio, na própria Roma contra ele se voltavam os punhais de Murena, Cepião, Lépido, Egnácio e de tantos outros.

(6) Ainda não havia escapado das armadilhas destes, e sua filha e muitos jovens nobres entregavam se ao adultério, como se isso fosse um sacramento, atormentando dessa forma sua velhice; e ainda havia uma segunda e temível união de uma certa mulher a um Antônio. Ele arrancava esses males com suas próprias mãos, e outros, latentes, irrompiam; tal como num corpo ferido e sangrando, uma outra parte qualquer sempre se rompia. Por isso desejava o ócio; todos os seus labores residiam nessa esperança e pensamento: tal era o desejo daquele que podia satisfazer todos os desejos.

5 ? 1: Marco Cícero, atirado entre homens como Catilina, Clódio, Pompeu e Crasso, uns, manifestos inimigos, outros, dúbios amigos, enquanto oscilava com a República e procurava sustentá-la no seu naufrágio, até finalmente afundar com ela, sempre inquieto na prosperidade e impaciente na adversidade, quantas vezes não amaldiçoou seu próprio consulado, que era louvado (2) não sem motivo, mas sem moderação. Que coisas lamentáveis ele diz numa carta a Ático, na época em que Pompeu, o Pai, já havia sido vencido, e seu filho restaurava na Espanha as armas despedaçadas! "Perguntas me o que faço aqui?" diz ele. "Semi-livre, quedo me em minha vila de Túsculo." Ainda acrescenta muitas outras palavras, nas quais lamenta a vida passada, queixa se do presente e desespera se. do futuro. Cícero se diz semi-livre mas, por Júpiter!, nunca o sábio recorrerá a um termo tão baixo, nunca será semi livre, mas será um homem de íntegra e sólida liberdade, desapegado, senhor de si e bem acima dos demais. Pois quem pode estar acima daquele que está acima da Fortuna?

6 ? 1: Diz se que Lívio Druso, homem violento e arrebatador, após ter dado curso a novas leis e às más medidas dos Gracos, com o apoio de uma vasta multidão de toda a Itália, não vendo uma saída para sua política, que já não mais podia levar adiante, nem, uma vez precipitada, abandonar, amaldiçoou sua vida agitada desde o princípio e declarou nunca ter tido férias, nem mesmo quando menino. Com efeito, adolescente ainda, trajando a toga pretexta, ousou fazer recomendações sobre os réus aos Juízes e fazer prevalecer tão eficazmente sua opinião no fórum, que é tido como certo que algumas causas foram por ele arrebatadas. (2) Em que não haveria de dar uma ambição tão prematura? Poder se ia imaginar que uma audácia tão precoce haveria de resultar em fonte de grande prejuízo público e particular. E, portanto, era tarde para se queixar de nunca ter tido férias, ele que, desde criança, já era um perturbador e um elemento nocivo ao fórum. Discute se se ele teria se suicidado, pois sucumbiu de um ferimento recebido na virilha; há quem duvide se sua morte foi voluntária, mas ninguém, de (3) que foi oportuna. Seria supérfluo mencionar os que, embora pareçam aos outros os mais felizes dos homens, declaram eles próprios que na verdade odeiam todas as ações de suas vidas, mas com essas declarações não mudaram nem a si próprios nem aos outros, pois mal pronunciavam essas palavras e as paixões faziam-nos (4) recair em seus hábitos. Mas, por Júpiter!, uma vida como a vossa, mesmo que dure mais de mil anos, será sempre determinada pelos mais estreitos limites: estes vícios podem devorar séculos e séculos. O espaço de tempo que temos, a razão pode na verdade dilatá lo; e, embora a Natureza faça o correr, necessariamente ele vos escapará, pois que não vos apossais dele, nem o retendes ou fazeis demorar a mais fugidia de todas as coisas, mas deixais que se perca como se fosse, uma coisa supérflua e substituível.

7 ? 1: Conto entre os piores os que nunca estão disponíveis para nada, senão para o vinho e os prazeres sensuais, pois não há ocupação mais vergonhosa. Outros, embora se prendam à imagem vazia da glória, contudo erram honradamente; podes me enumerar os avarentos, os turbulentos, ou os que se entregam a ódios e guerras injustas: todos estes pecam de uma maneira mais viril. Mas os que se entregam à gula e aos prazeres sensuais ostentam uma degradação (2) desonrosa. Examina todo o tempo deles: verifica quanto gastam em cálculos avaros, quanto em preparar emboscadas, quanto temendo as, quanto bajulando, quanto sendo bajulados; e quanto tempo ocupam em compromissos judiciários, seus ou alheios, ou com banquetes que já se tornaram mesmo uma obrigação: verás que nem seus bens, nem seus males, os deixam respirar.

(3) Finalmente, todos concordam que um homem ocupado não pode fazer nada bem: não pode se dedicar à eloqüência, nem aos estudos liberais, uma vez que seu espírito, ocupado em coisas diversas, não se aprofunda em nada, mas, pelo contrário, tudo rejeita, pensando que tudo lhe é imposto. Nada é menos próprio do homem ocupado do que viver, pois não há outra coisa que seja mais difícil de aprender. Professores das outras artes, há vários e por toda parte, dentre algumas dessas, vemos crianças terem atingido tanta maestria, que chegam até a ensiná las. Deve se aprender a viver por toda a vida, e, por mais que tu talvez te espantes, a vida (4) toda é um aprender a morrer. Muitos dos maiores homens, tendo afastado todos os obstáculos e renunciado às riquezas, a seus negócios e aos prazeres, empregaram até o último de seus dias para aprender a viver, contudo muitos deles deixaram a vida tendo confessado ainda não sabê lo e muito menos ainda (5) o sabem os que mencionei acima. Creia me, é próprio de um grande homem e de quem se eleva acima dos erros humanos, não consentir que lhe tomem um instante sequer da vida, e assim toda sua vida é muito longa, uma vez que se dedicou todo a si próprio, não importa quanto ela tenha durado. Nem um instante dela permaneceu descuidado ou ocioso, ou esteve subordinado a um outro e, portanto, ele, seu guarda parcimonioso, não encontrará ninguém que julgue ter vivido dignamente a ponto de querer trocar sua vida com a dele. Portanto, a este seu tempo foi suficiente, mas àqueles que tiveram muito de sua vida subtraído (6) pelo povo, ela necessariamente faltou. E nem por isso há motivo para pensares que eles às vezes não compreendem seu erro. Certamente ouvirás muitos dos que são esmagados por sua grande prosperidade, vez por outra, exclamar de entre a multidão de clientes, ou de seus processos jurídicos, ou de outras honoríficas misérias: "Não me deixam viver!" E haveriam de (7) deixar? Todos os que te reclamam para si te afastam de tuas ocupações. Quantos dias te tomou aquele réu? E aquele candidato? E a velha, já cansada de enterrar herdeiros? E aquele que finge ser doente para excitar a cobiça dos caçadores de testamentos? E aquele amigo poderoso, que te mantém, não em sua amizade, mas em seu cortejo? Faz o cômputo dos dias de tua vida: verás que restaram muito poucos dias para ti mesmo.

(8) Tendo aquele obtido os cargos com que tanto sonhava, deseja abandoná los e repete incessantemente: "Quando este ano passará?" Outro proporciona espetáculos públicos, que tanto desejou que lhe fossem cabidos por, sorte, e agora diz: "quando me livrarei deles?" Disputa se tanto para ouvir aquele advogado, que ele enche de uma grande multidão todo o fórum, até para além de onde pode ser ouvido. "Quando" diz ele "me livrarei disto?" Cada um faz precipitar sua vida e (9) padece da ânsia do futuro e de tédio do presente. Mas o que emprega todo o tempo consigo próprio, que ordena cada dia como se fosse uma vida, nem deseja o amanhã, nem o teme. Pois que novo prazer há, que qualquer hora lhe possa imediatamente trazer? Tudo lhe é conhecido, tudo foi desfrutado até a saciedade. Do resto, que a Fortuna disponha como queira: a vida já lhe foi assegurada. Nada se lhe pode adicionar ou arrebatar, e, mesmo que algo se acrescente a ela, seria como se alimentassem alguém já farto de alimentos quaisquer: estará recebendo algo que nem mais (10) deseja. Portanto não há por que pensar que alguém tenha vivido muito, por causa de suas rugas ou cabelos brancos: ele não viveu por muito tempo, simplesmente foi por muito tempo. Pensarias ter navegado muito, aquele que, tendo se afastado do porto, foi apanhado por violenta tempestade, errou para cá e para lá e ficou a dar voltas, conforme a mudança dos ventos e o capricho dos furacões, sem contudo sair do lugar? Ele não navegou muito, mas foi muito acossado.

8 ? 1: Costumo estranhar quando vejo alguns pedindo tempo, e aqueles a quem se pede mostrarem se muito complacentes; ambos consideram aquilo pelo que se pede tempo, nenhum, o tempo mesmo: parece que nada se pede e que nada é dado. Brinca se com a coisa mais preciosa de todas; contudo ela lhes escapa sem que percebam, pois é um incorporal e algo que não salta aos olhos, por isso é considerado muito desprezível, e em razão disto não lhes atribuem valor algum.

(2) Os homens recebem pensões e aluguéis com muito prazer e concentram neles suas preocupações, esforços e cuidados, mas ninguém dá valor ao tempo; usa-se dele a rédeas soltas, como se nada custasse. Porém, quando doentes, se estão próximos do perigo de morte, prostram se aos joelhos dos médicos; ou, se temem a pena capital, estão prontos a gastar todos os seus bens para viver. Tamanha é a discórdia de seus (3) sentimentos! Se fosse possível apresentar a cada um a conta dos anos futuros, da mesma forma que podemos fazer com os passados, como tremeriam aqueles que vissem restar-lhes poucos anos e como os poupariam! Pois, se é fácil administrar o que, embora curto, é certo, deve se conservar com muito cuidado o que não se pode saber (4) quando há de acabar. Contudo não há por que pensar que eles ignoram que coisa preciosa é o tempo: costumam dizer aos que amam muitíssimo que estão dispostos a lhes dar parte de seus dias. E realmente dão, sem se aperceberem disto, mas dão de forma a subtraírem vários anos a si, sem aumentar os daqueles. Mas ignoram o fato mesmo de estarem perdendo seus anos, por isso lhes é tolerável a perda de um bem que não é (5) notado. Ninguém devolverá teus anos, ninguém te fará voltar a ti mesmo. Uma vez principiada, a vida segue seu curso e não reverterá nem o interromperá, não se elevará, não te avisará de sua velocidade. Transcorrerá silenciosamente, não se prolongará por ordem de um rei, nem pelo apoio do povo. Correrá tal como foi impulsionada no primeiro dia, nunca desviará seu curso, nem o retardará. Que sucederá? Tu estás ocupado, e a vida se apressa; por sua vez virá a morte, à qual deverás te entregar, queiras ou não.

9 ? 1: Pode haver algo mais estúpido que o modo de ver de alguns falo daqueles que deixam de lado a prudência. Ocupam se para poder viver melhor: armazenam a vida, gastando a! Fazem seus planos a longo prazo; no entanto protelar é do maior prejuízo para a vida: arrebata nos cada dia que se oferece a nós, rouba nos o presente ao prometer o futuro. O maior impedimento para viver é a expectativa, a qual tende para o amanhã e faz perder o momento presente. Do que está nas mãos da Fortuna, dispões; o que está nas tuas, despedes. Para onde ficas a olhar? Para que tendes? Tudo que está por vir se assenta na incerteza: desde (2) já, vive! Proclama o maior dos poetas e, como inspirado por divinos lábios, canta este canto de salvação:

"Os melhores dias da vida dos tristes mortais São os primeiros a fugir. ?

"Por que hesitar?" diz ele "por que ficar sem nada fazer? Se não ocupares o dia, ele fugirá" E, contudo, se o tiveres ocupado, ainda fugirá; portanto deve se lutar contra a celeridade do tempo usando de velocidade, tal como se deve beber depressa de uma (3) corrente rápida e que não fluirá para sempre. O poeta emprega magnificamente as palavras para censurar a infinita contemporização, pois diz "o melhor dia", e não "a melhor idade". Como é que tu, seguro e demorado em meio a uma tão grande fuga de tempo, dispões para ti os meses e os anos, numa longa série, de acordo com tua avidez? O poeta fala do dia, e deste (4) mesmo dia que está fugindo. Acaso se duvida que os melhores dias fujam primeiro aos míseros mortais, isto é, aos ocupados? A velhice oprime tanto seus espíritos pueris que chegam a ela surpresos e desarmados, pois nada em sua vida foi previsto: bruscamente e desprevenidos nela caíram; não a sentiam chegar (5) diariamente. Tal como uma conversa ou uma leitura ou alguma reflexão mais séria distrai os viajantes, que se vêem chegados ao destino sem notar que dele se aproximavam, assim esta contínua e tão rápida caminhada da vida, que dormindo ou acordados fazemos no mesmo passo, aos ocupados não aparece senão no fim.

10 ? 1: Quisesse eu dividir minha tese em tópicos e argumentos, ocorrer me iam muitos exemplos, pelos quais provaria que é muito breve a vida dos ocupados. Costumava dizer Fabiano, que não era um desses filósofos acadêmicos, mas um dos verdadeiros e antigos: ?contra as paixões deve se lutar com arrojo, não com sutilezas; e deve se romper a linha de batalha com um grande assalto, não com tímidas tentativas." Não aprovava sofismas: "pois devemos vencer as paixões, não espicaçá las". Contudo, para demonstrar às suas vítimas seu desvario, devemos instruí-las, não lamentá las. (2) A vida divide se em três períodos: o que foi, o que é, e o que há de ser. Destes, o que vivemos é breve; o que havemos de viver, duvidoso; o que já vivemos, certo. Pois, sobre este último, a Fortuna perdeu os direitos: (3) é o que não se submete ao arbítrio de ninguém. Eis o que escapa aos ocupados, pois eles não têm tempo para reconsiderar o passado e, mesmo se tivessem, ser lhes-ia desagradável a recordação de uma coisa da qual se arrependem. Portanto é a contragosto que voltam seus pensamentos ao tempo mal empregado e não ousam reviver aquelas horas, cujos vícios, embora estivessem dissimulados pelo atrativo de um prazer momentâneo, (4) desvendam se com a recordação. Ninguém se voltará de bom grado ao passado, exceto aquele cujas ações estão todas submetidas à censura de sua consciência, que nunca se engana. Aquele que ambiciosamente muitas coisas cobiçou, orgulhosamente desprezou, insolentemente venceu, traiçoeiramente enganou, desonestamente roubou e prodigamente dissipou seus bens, necessariamente terá que temer suas próprias recordações. Ora, de nossa vida, esta é a parte inviolável e já consagrada, que está acima de todas as vicissitudes humanas, que foi subtraída ao império da Fortuna e que não pode ser afetada pela pobreza, nem pelo medo, nem pelo assédio das doenças. Não se pode perturbá-la ou roubá la de seu possessor, pois sua posse é perpétua e livre de receios. Os dias apresentam-se a nós um a um e momento por momento, entretanto todos os dias do passado se apresentarão a nós quando ordenarmos, e consentirão em ser apropriados e examinados à vontade coisa que os ocupados não têm (5) tempo de fazer. É próprio de uma mente segura de si e sossegada poder percorrer todas as épocas de sua vida; mas o espírito dos ocupados, tal como se estivesse subjugado, não pode se voltar sobre si mesmo e se examinar. Portanto sua vida se precipita num abismo; e, tal como não é de nenhum proveito procurar encher uma ânfora, por mais que nela se coloque líquido, se não há fundo que o receba ou sustenha, assim também não importa quanto tempo tens à disposição: se não tens como retê lo, ele vazará como de almas rachadas (6) e furadas. O tempo presente é brevíssimo, tanto que a alguns parece não existir, pois está sempre em movimento; flui e precipita se; deixa de ser antes de vir a ser; é tão incapaz de deter se, quanto o mundo ou as estrelas, cujo infatigável movimento não lhes permite permanecer no mesmo lugar. Pertence, pois, aos ocupados, apenas o tempo presente, que é tão breve que não pode ser abarcado; e este mesmo escapa lhes, ocupados que estão em :muitas coisas.

11 ? 1: Enfim, queres saber quão pouco vivem os ocupados? Vê como desejam viver longamente. Velhos decrépitos mendigam em suas orações um acréscimo de uns poucos anos; procuram parecer menos idosos e lisonjeiam se com mentiras e encontram tanto prazer em enganar a si próprios, que é como se enganassem junto o destino. Mas, quando uma enfermidade qualquer adverte os de que são mortais, morrem tomados de pavor, não como se deixassem a vida, mas como se ela lhes fosse arrancada. Ficam gritando que foram tolos em não viver e que, se por acaso escaparem da doença, haverão de viver no ócio; então, tomam consciência de quão inútil foi adquirir o que não desfrutaram, e de como todos os seus esforços resultaram em (2) vão. Mas para aquele cuja vida esteve livre de preocupações, por que não haveria ela de ser longa? Dela nada foi transferido a um outro, nada foi atirado a um e outro lado, nada foi dado à Fortuna, nada desperdiçado por negligência, nada foi esbanjado com prodigalidade, nada ficou sem ser empregado: toda ela, por assim dizer, teve proveito. E, deste modo, por mais curta que seja, ela é mais que suficiente; e portanto, quando lhe vier o último dia, o sábio não hesitará em caminhar para a morte com passo firme.

12 ? 1: Talvez tu me perguntes a quem eu chamo de "ocupados". Não há por que pensar que entendo serem ocupados apenas aqueles contra os quais se mandam os cães para expulsá los da basílica, ou os que vemos sobressair, seja orgulhosamente em meio à multidão de seus clientes, seja desprezivelmente da de outro, ou aqueles cujos compromissos obrigam a abandonar seus lares para ir bater à porta do outro ou aqueles a quem a lança do pretor põe ocupados devido a um (2) lucro infame e que um dia haverá de apodrecer. O ócio de alguns é ocupado: quer em sua vila ou em seu leito, quer em meio à solidão, mesmo quando estão afastados de todos, eles próprios prejudicam a si mesmos; não devemos chamar sua vida de ociosa, mas de ocupação indolente. Por acaso chamas de ocioso o que coleciona, com escrupuloso cuidado, os bronzes coríntios, preciosos devido à mania de uns poucos, e consome a maior parte de seus dias em meio a ferrugentos pedaços de metal? E o que se senta num ginásio (que vergonha! os vícios dos quais somos vítimas nem mesmo são romanos), para apreciar as pelejas dos rapazes que se estapeiam? E o que classifica seus rebanhos de cavalos segundo a cor e a idade, ou os que (3) patrocinam os mais novos campeões de atletismo? Quê? Tu chamas ociosos os que passam muitas horas no cabeleireiro, aparando o que cresceu na noite anterior, discutindo a respeito de cada fio de cabelo, colocando em ordem as madeixas desarranjadas, ou ajeitando sobre a testa as que estão falhas aqui e ali? Como ficam irados, se o barbeiro foi um pouco negligente, crendo que estava a aparar os cabelos de um verdadeiro homem! Como se encolerizam, se algo de sua cabeleira foi cortado, se algo está fora de ordem, se tudo não cai em seus devidos cachos! Qual destes não preferiria ver a desordem na República, a, ver a de seus cabelos? Quem não se preocupa mais com a elegância de sua cabeça do que com sua saúde? Qual não prefere ser bem penteado a ser honesto? Tu chamas ociosos os que se (4) preocupam com pentes e espelhos? E quanto àqueles que se ocupam em compor, ouvir e aprender canções, e atormentam a voz, cuja reta entoação a Natureza fez muito simples e a melhor, com inflexões de desajeitadas modulações? Eles estão sempre a estalar os dedos, marcando alguma canção que têm na cabeça e, mesmo quando são chamados para questões sérias e freqüentemente tristes, ouvimos seu imperceptível cantarolar.

(5) Eles não têm ócio, mas ocupações indolentes. Nem, por Hércules, considero seus festins como tempo livre, uma vez que vejo com quanta solicitude dispõem a prataria, quão diligentemente ajeitam as túnicas de seus jovens prediletos, quão ansiosos ficam por saber como o javali sai das mãos do cozinheiro, ou com que velocidade os escravos jovens, a um dado sinal, correm às suas obrigações, com quanta perícia as aves são cortadas em bocados não muito grandes, ou quão cuidadosamente os infelizes escravos limpam o vômito dos bêbados. É por estes meios que adquirem a fama de serem elegantes e faustosos, e seus males perseguem nos até mesmo nos menores detalhes da vida, de modo que eles não (6) podem comer nem beber sem afetação. Eu não contaria entre os ociosos aqueles que se fazem transportar para cá e para lá em carruagens ou liteiras, e observam pontualmente a hora de seus passeios, como se não lhes fosse lícito perdê los; nem os que se fazem lembrar por outro quando devem banhar se, nadar ou comer: seus espíritos extraordinariamente débeis estão tão enfraquecidos pela lassidão, que eles nem mesmo podem decidir por si sós se têm fome! Já ouvi um desses delicados (se é que se pode chamar de delícias o fato de desaprender os hábitos da vida humana), ao ser retirado do banho e colocado numa cadeira, perguntar: "Ainda estou sentado?" Tu crês que este, que ignora até se está sentado, sabe se vive, se vê, se é ocioso? Não poderia dizer de pronto o que lamento mais: ele (7) realmente não saber ou fingir não sabê lo. Esses esquecem-se realmente de muitas coisas, mas também fingem esquecer de muitas outras. Certos vícios deleitam nos como se fossem provas de felicidade: parece lhes próprio de um homem muito baixo e desprezível saber o que faz. E agora não vás crer que os mimos exageram quando ridicularizam a luxúria. Estes, por Hércules, ultrapassam em muito as invenções dos mimos, e neste nosso século, engenhoso apenas para tais coisas, os vícios progrediram tanto que já podemos acusar os mimos de negligência. É o cúmulo: haver alguém que está tão atolado na luxúria, que se fia na palavra de um (8) outro para saber se está ou não sentado! Portanto esse aí não é ocioso; dá lhe outro nome: ele está doente, ou, melhor ainda, está morto. É ocioso o que é também consciente de seu lazer. Mas este semi vivo, que precisa de alguém que lhe indique a postura do próprio corpo, como poderia ser senhor de um momento sequer de sua vida?

13 ? 1: Seria alongar demais percorrer todos os exemplos daqueles que desperdiçaram suas vidas em jogos de xadrez, bola, ou queimando se ao sol. Não gozam de ócio aqueles cujos prazeres trazem muitas ocupações. Pois ninguém duvidará que muito se fatigam sem nada obrar, os que se prendem a inúteis questões de (2) literatura e eles já são multidão entre os romanos! Foi um vício dos gregos investigar quantos remadores teve Ulisses, se a Ilíada ou a Odisséia foi escrita primeiro e, além disso, se eram de um mesmo autor, e outros conhecimentos dessa espécie, que, se os reservas para ti mesmo, em nada deleitam o intelecto, se os publicas, não serás tido por mais douto, mas por mais (3) enfadonho. E eis que esta frívola paixão de aprender inutilidades apossou se também dos romanos. Há alguns dias ouvi certa pessoa relatando qual foi o primeiro dos generais a fazer tais e tais coisas; que Duílio foi o primeiro a vencer numa batalha naval, que Cúrio Dentato foi o primeiro a conduzir elefantes no seu cortejo triunfal. Mas esses assuntos, ainda que não conduzam à verdadeira glória, versam sobre exemplos de feitos cívicos; tal ciência não acarreta benefício algum, embora nos prenda a atenção pela futilidade dos feitos.

(4) Perdoemos também aos que pesquisam assuntos como, este: quem foi o primeiro a persuadir os romanos a embarcar num navio. Foi Cláudio, e por este mesmo motivo cognominado "Caudex", porque entre os antigos a reunião de várias tábuas chamava se "caudex"; daí o nome de "codices" às tábuas da lei, e, ainda hoje, as naves que carregam provisões pelo Tibre são (5) chamadas, segundo a maneira antiga, de "codicariae". Sem dúvida, isto pode ser de algum valor: que Valério Corvino foi o primeiro a subjugar Messina e, tendo tomado para si o nome da cidade conquistada, foi o primeiro da família dos Valérios a denominar-se Messana; e que, tendo sido trocadas as letras por uma gradual corruptela da linguagem popular, chamou se (6) Messala. Porventura permitirás a alguém ocupar se também disto: que Lúcio Sulla foi o primeiro a apresentar os leões soltos no Circo, enquanto que anteriormente eram apresentados acorrentados, e que foram enviados arqueiros pelo rei Boco para exterminá los? Que seja! Façamos também essa concessão. Mas acaso há um mínimo de valor em saber que Pompeu foi o primeiro a proporcionar um combate no Circo com dezoito elefantes, tendo se enviado criminosos para enfrentá los, como se fosse uma batalha? O primeiro dos cidadãos e, segundo o que a fama nos legou, homem que sobressaiu entre os antigos líderes por sua bondade, julgou ser um novo tipo de espetáculo digno de memória matar homens de um modo novo. Combatem até a morte? É pouco. Despedaçam se? É pouco. (7) Que sejam esmagados por uma enorme massa de animais! Seria suficiente que esses assuntos passassem ao esquecimento, para que posteriormente um prepotente qualquer não aprendesse e invejasse uma ação tão desumana. Quantas trevas uma grande fortuna causa às nossas mentes! Acreditou estar acima das leis da Natureza quando lançou aquele bando de miseráveis a feras nascidas sob outros céus, quando proporcionou um combate entre animais tão desiguais, quando fez verter tanto sangue diante dos olhos do povo romano ele, que em breve seria forçado a verter mais ainda. Mas, logo em seguida, o mesmo Pompeu, traído pela deslealdade alexandrina, entregou se ao último dos escravos para ser abatido; só então compreendeu a vã (8) ostentação de seu Cognome. Mas, para que retorne ao ponto de onde me desviei e para que mostre a inutilíssima diligência de alguns nestes mesmos assuntos: aquele mesmo erudito contava que Metelo, tendo vencido os cartagineses na Sicília, foi o único de todos os romanos a conduzir em seu triunfo cento e vinte elefantes diante do carro, e que Sulla foi o último dos romanos a aumentar o "pomerium", coisa que, segundo os costumes antigos, só se fazia após a conquista de territórios italianos, e nunca provinciais. Há alguma utilidade maior em saber que o monte Aventino, como assegurava aquele, situa se para além do ?pomerium" por uma dessas duas razões: ou porque a plebe tenha se afastado daí, ou porque, quando Remo tomava os auspícios, o vôo das aves não foi favorável e ainda outros inumeráveis conhecimentos, que, ou estão abarrotados de mentiras, ou são desta natureza?

(9) Pois mesmo que se admita que eles contam essas coisas todas de boa fé e que se responsabilizam pelo que foi escrito, contudo esses conhecimentos servirão para minorar os erros de alguém? Refrearão as paixões de alguém? Farão alguém mais generoso, mais corajoso, mais justo? Às vezes meu caro Fabiano dizia duvidar se era melhor não empreender estudo algum do que se envolver com os deste gênero.

14 ? 1: Dentre todos os homens, somente são ociosos os que estão disponíveis para a sabedoria; eles são os únicos a viver, pois, não apenas administram bem sua vida, mas acrescentam lhe toda a eternidade. Todos os anos que se passaram antes deles são somados aos seus. A menos que sejamos os maiores dos ingratos, aqueles fundadores das sublimes filosofias nasceram para nós, e eles nos preparam o caminho para a vida. Graças aos seus esforços, conduzem-nos das trevas à luz, aos mais belos conhecimentos. Não nos é vedado o acesso a nenhum século, somos admitidos a todos; e se desejamos, pela grandeza da alma, ultrapassar os estreitos limites da fraqueza humana, há um vasto espaço de tempo a percorrer.

(2) Poderemos discutir com Sócrates, duvidar com Carnéades, encontrar a paz com Epicuro, vencer a natureza humana com a ajuda dos estóicos, ultrapassá-la com os cínicos. Já que a Natureza nos permite entrar em comunhão com toda a eternidade, por que não nos desviarmos dessa estreita e curta passagem do tempo e nos entregarmos com todo nosso espírito àquilo que é ilimitado, eterno e partilhado com os (3) melhores? Os que se desdobram em muitos compromissos sociais, que agitam a si mesmos e a outros, bem conscientes de suas tolices, após terem percorrido diariamente as soleiras de todos e não ter deixado de entrar em nenhuma porta aberta, após terem levado sua interesseira saudação à volta das mais remotas casas, quão pouco não terão eles visto numa cidade tão grande e dilacerada por várias paixões! (4) Quantos haverá cujo sono, dissolução ou grosseria não os afastará? Quantos, após os terem torturado com uma longa espera, não passarão por eles fingindo estarem apressados? Quantos não evitarão aparecer no átrio repleto de clientes, escapando por portas secretas, como se fosse menor descortesia enganar do que despedir! Quantos, ainda meio adormecidos e pesados devido à embriaguez da noite anterior, responderão, àqueles pobres coitados que interromperam seu sono para esperar o despertar de um outro, com o bocejo mais arrogante, mal levantando os (5) lábios! Podemos afirmar que se dedicam a verdadeiros deveres, somente aqueles que desejam estar cotidianamente na intimidade de Zenão, Pitágoras, Demócrito, Aristóteles, Teofrasto e os demais mestres de virtude. Nenhum deles deixará de estar à nossa disposição, nenhum despedirá o que o procurar, sem que o faça mais feliz e mais devotado a ele, nenhum permitirá a quem quer que seja partir de mãos vazias; e eles podem ser encontrados por qualquer homem, tanto durante o dia como à noite.

15 ? 1: Nenhum destes forçará tua morte, todos te ensinarão a morrer, nenhum dissipará teus anos, mas te oferecerá os seus. Nunca a conversação com eles será perigosa, fatal a amizade ou onerosa a deferência. Conseguirás deles tudo o que quiseres: não será deles a culpa (2) se não tiveres exaurido tudo o que desejas. Que felicidade, que bela velhice não aguarda o que se dispôs a ser seu cliente! Ele terá com quem discutir sobre as menores, bem como sobre as maiores, questões, a quem consultar diariamente sobre si mesmo, de quem ouvir a verdade sem ofensa e ser louvado sem adulação, a cuja (3) semelhança se possa moldar. Costumamos dizer que não está em nosso poder escolher os pais que a sorte nos destinou, mas que nos foram dados ao acaso; contudo é nos permitido ter um nascimento segundo a nossa escolha. Existem famílias dos mais nobres espíritos: escolhe a qual delas queres pertencer, e receberás não apenas seu nome, mas também seus próprios bens, que não terás de vigiar miserável e mesquinhamente, pois, quanto mais forem partilhados pelos homens, maiores (4) se tornarão. Estes te darão o acesso à eternidade, te elevarão àquelas alturas de onde ninguém se precipita. Esta é a única maneira de prolongara existência mortal e, até mais, de convertê-la em imortalidade. As dignidades, os monumentos, tudo o que a ambição impôs por decretos, ou construiu com o suor, depressa há de cair em ruínas: não há nada que a longa passagem dos anos não destrua ou desordene. Mas ela não pode tocar nos conhecimentos que a sabedoria consagrou, nenhuma idade os destruirá ou diminuirá, a seguinte e as sucessivas sempre hão de aumentá los ainda mais: pois a inveja tem olhos apenas para o que está próximo de si, e admiramos com menos malícia o que está (5) distante. Portanto a vida do filósofo estende se por muito tempo, e ele não está confinado nos mesmos limites que os outros. É o único a não depender das leis do gênero humano: todos os séculos servem no como a um deus. Algo distancia se no passado? Ele recupera o com a memória. Está no presente? Ele o desfruta. Há de vir no futuro? Ele o antecipa. A reunião de todos os momentos num só torna lhe longa a vida.

16 ? 1: É extremamente breve e agitada a vida dos que esquecem o passado, negligenciam o presente e receiam o futuro; quando chegam ao termo de suas existências, os pobres coitados compreendem tardiamente que (2) estiveram por longo tempo ocupados em nada fazer. E, pelo fato de fazerem freqüentes apelos à morte, não há por que pensar que fica provado que eles tenham usufruído duma longa existência. Sua cegueira os atormenta com emoções incertas e que os faz incidir nas próprias coisas que temem: desejam então muitas vezes a morte, (3) porque os aterroriza. Não há ainda razão para se pensar que isto também seja uma prova de uma vida longa: o fato de muitas vezes os dias lhes parecerem longos, ou porque se queixam de as horas custarem a passar até que chegue o momento do jantar; pois, se porventura as ocupações os abandonam, sentem se desertados e inquietam se mesmo no lazer, nem sabem como dispor dele ou matá lo. Portanto anseiam por uma ocupação qualquer, e todo intervalo de tempo entre duas ocupações lhes é um fardo. E por Hércules tal é o que acontece quando se fixa a data dos combates de gladiadores, ou quando se aguarda o dia de um outro gênero qualquer de espetáculo ou divertimento: (4) desejam saltar os dias intermediários! A espera de qualquer coisa por que anseiam lhes é penosa, mas aquele instante que lhes é grato corre breve e rápido e torna se muito mais breve por sua própria culpa, pois passam de um prazer a outro e não podem permanecer fixos num só desejo. Seus dias não são longos, mas detestáveis, e, por outro lado, quão curtas não lhes parecem as noites que passam nos braços das prostitutas ou (5) entregues ao vinho! Daí também resulta o delírio dos poetas, que nutrem os descaminhos dos homens com ficções nas quais se mostra Júpiter, inebriado do desejo de coito, duplicando a duração da noite. Que outra coisa é, senão inflamar nossos vícios, quando os imputamos aos deuses e se concede a deferência da divindade a um exemplo de fraqueza? Podem estes não achar muito curtas as noites pelas quais pagam tão caro? Perdem o dia na espera da noite, a noite, de medo da aurora.

17 ? 1: Seus próprios prazeres são desassossegados e agitados por vários terrores e, mesmo em meio à maior euforia, assalta-lhes o inquieto pensamento: "até quando, tudo isto?" Por causa desse sentimento, os reis lamentaram seu poderio, e a grandeza de sua fortuna não lhes era grata, mas aterrorizaram se com o fim que um dia lhes adviria. O mais insolente dos reis da Pérsia, ao ver seus exércitos espalhados por vastos espaços de terra, de modo que nem podia abarcar seu número mas apenas a extensão, desfez se em lágrimas porque, dizia, em cem anos nenhum dentre tão grande (2) número de jovens haveria de estar vivo. Mas ele próprio, que chorava, estava prestes a apressá los para aquele destino, fazendo perecer uns no mar, outros em terra, uns no combate, outros na retirada, e dentro de pouco tempo haveria de exterminar aqueles por quem temia (3) o centésimo ano. Qual o motivo de também suas alegrias serem temerosas? É que não brotam de causas sólidas; pelo contrário, o próprio vazio de onde nascem perturba as. E como pensas serem aqueles momentos (miseráveis, segundo sua própria confissão), já que os próprios motivos pelos quais são exaltados e se (4) colocam acima dos homens são muito impuros? Todos os maiores bens estão cheios de ansiedade, e as maiores fortunas são as menos, dignas de crédito; para alimentar a felicidade, faz se necessária uma outra felicidade, e em paga a uma promessa realizada, outras promessas devem ser feitas. Pois tudo o que nos sucede por obra do acaso é instável, e quanto mais alto nos elevamos, tanto mais estamos sujeitos a cair. É claro que o que está condenado a cair não agrada a ninguém. Portanto é necessariamente a mais miserável e não apenas a mais breve, a vida dos que obtêm com grande esforço algo que conservam com um esforço ainda (5) maior. Em meio a grandes labutas, conseguem o que desejam e ansiosos conservam o que conseguiram; entretanto não têm consciência de que o tempo nunca mais há de voltar. Novas ocupações seguem se às antigas; a esperança suscita esperança; a ambição, ambição. Não procuram um fim às misérias, mas mudam seu assunto. Nossos cargos nos atormentam?

Os dos outros nos tomarão mais tempo. Cessamos de fatigar nos como candidatos? Começamos novamente como partidários. Renunciamos ao estorvo de acusar?
Apresenta se nos o de julgar. Deixa de ser juiz? É feito pretor. Envelheceu como administrador de (6) propriedades alheias? Ocupa se agora com sua riqueza. As vestes guerreiras deram folga a Mário? O consulado não lhe dá sossego. Cincinato apressa se a escapar do cargo ditatorial? Será novamente chamado do arado. Cipião ainda muito jovem para uma tarefa de tal envergadura, combaterá os cartagineses; vencedor de Aníbal, vencedor de Antíoco, orgulho de seu consulado e garantia do de seu irmão, seria colocado ao lado de Júpiter, não fosse sua intervenção pessoal. As guerras civis perseguirão este salvador da pátria e, tendo sido na juventude honrado como um deus, já velho deleitar se á apenas com o desejo de um altivo exílio. Nunca faltarão motivos de inquietação, quer na prosperidade, quer na miséria: a vida será dilacerada entre as ocupações; o ócio sempre desejado, nunca obtido.

18 ? 1: Portanto, meu caro Paulino, aparta te da multidão e, já bastante acossado pela duração de tua existência, não te afastes de um porto mais tranqüilo. Pensa quantas vagas já te acometeram, quantas tempestades, de uma parte, já suportaste na vida particular, quantas, de outra, suscitaste contra ti na vida pública. Teu valor já foi suficientemente testado, em fatigantes e atormentadas provas, o teu valor: tenta ver o que pode realizar no ócio. A maior parte de tua vida, e certamente a melhor, foi dada à República, toma (2) também para ti um pouco de teu tempo. Não te convoco a um retiro indolente e inativo, nem a afogar todo o teu vigoroso caráter no sono ou nos prazeres caros à multidão: isso não é estar em sossego. Encontrarás tarefas maiores que todas as que cumpriste devotadamente até aqui, as quais executarás no retiro e livre de (3) preocupações. Com efeito, tu administras as contas do mundo tão desinteressadamente como as alheias, tão diligentemente como as tuas, tão escrupulosamente como as do Estado. Conquistas a estima num cargo onde é difícil evitar o rancor, contudo, acredite me, é mais proveitoso fazer a conta de teus anos do que as (4) do trigo do Estado. Este teu vigor de ânimo, capaz das maiores coisas, desvia o de um cargo, sem dúvida honroso, mas pouco adequado para tornar uma vida feliz; e lembra te de que não foste educado desde os mais tenros anos nos estudos liberais para que alqueires de trigo te fossem confiados: esperaste algo maior e mais alto. Não faltarão homens de sobriedade comprovada e atividade laboriosa. Jumentos laboriosos são mais aptos a carregar fardos do que cavalos de raça, e quem jamais oprimiu a excelente ligeireza deles com (5) pesadas cargas? Além disso, reflete quantas preocupações não tens ao assumir tanta responsabilidade. Tu lidas com os ventres dos homens! O povo esfaimado não dá ouvidos à razão, não se aplaca pela moderação, nem se dobra a nenhum argumento. Muito recentemente, naqueles poucos dias após a morte de César, diz se que ele se indignou muitíssimo (se há ainda algum sentimento nos infernos), porque sabia que o povo romano lhe sobrevivia e ainda lhes restavam provisões para sete ou oito dias! E, enquanto ele construía pontes de navios e divertia-se com as forças do Império, estava às nossas portas o pior dos males, até mesmo para os sitiados: a falta de alimentos. Seu infeliz desejo de imitar um rei arrogante, estrangeiro e louco, quase custou à cidade a miséria e a fome, e o (6) que se segue à fome, a ruína de tudo. E então qual não era o estado de espírito daqueles a quem eram confiados os cuidados com o trigo público, e que tinham de enfrentar pedra, ferro, fogo e o próprio Calígula? Com a maior dissimulação, encobriam um tão grande mal incrustado nas vísceras do Estado e digo que o faziam com razão! Pois algumas doenças devem ser curadas sem que os pacientes as conheçam: a muitos, o conhecimento de sua doença foi a causa da morte.

19 ? 1: Recolhe te a estas coisas mais tranqüilas, mais seguras, melhores! Acaso tu pensas serem o mesmo estas duas coisas: cuidar que o trigo seja transportado ao celeiro, intacto e a salvo da fraude ou negligência dos carregadores, que não se estrague pela fermentação, que esteja bem seco, que seu peso e medida confiram, e elevar se às coisas sagradas e sublimes para conhecer qual é a substância de deus, seu prazer, sua condição, sua forma, que destino aguarda tua alma, que lugar a Natureza nos destina após nos separarmos do corpo, qual a razão por que ela mantém os corpos mais pesados no centro do universo, suspende os altos às regiões altas, eleva o fogo à mais alta, impele as estrelas às suas trajetórias e ainda outras coisas cheias de notáveis (2) maravilhas? Abandona o solo e volta te a esses estudos! Agora, enquanto o sangue ferve, deve se ir, com determinação, para o melhor. Grande número de bons conhecimentos te esperam neste gênero de vida: o amor e a prática das virtudes, o esquecimento das paixões, o saber viver e morrer, enfim, uma grande tranqüilidade.

(3) A condição de todos os ocupados é miserável, contudo a mais miserável é a daqueles que nem se molestam com suas próprias ocupações, que regulam seu sono pelo alheio, que caminham segundo as passadas de outro e que estão sob ordens, mesmo nas mais livres das coisas: amar e odiar. Estes, se quiserem saber quão breve é a vida, que considerem quão insignificante é a parte que lhes cabe.

20 ? 1: Portanto, quando vires freqüentemente uma toga pretexta ou um nome célebre no fórum, não o invejes: essas coisas são adquiridas ao custo da vida. Para ligar seu nome a um único ano, consumirão todos os seus anos. A uns, a vida abandonou logo nas primeiras etapas, antes que tivessem atingido as alturas ambicionadas; a outros, após terem galgado o cume das honras através de mil desonestidades, sobrevém o triste pensamento: "ter trabalhado tanto por uma inscrição num túmulo!" Enquanto estavam dispostos para novas esperanças como na mocidade, a extrema velhice de alguns, já incapaz, frustrou lhes os grandes e insaciáveis (2) esforços. Vergonha daquele que, já de idade avançada e querendo obter aplausos de um público ignorante, num processo de litigantes desconhecidos, perde seu fôlego; desgraçado o que, esgotado mais por causa de sua vida do que por causa de seu trabalho, sucumbe em meio aos seus próprios deveres; desgraçado o que morre recebendo suas contas sob o riso do herdeiro longamente (3) deserdado. Não posso omitir um último exemplo que me ocorre: São Turanio foi um velho de comprovada diligência, que, depois de completar noventa anos, como fosse dispensado de seu cargo por César sem que tenha solicitado, ordenou que o colocassem em seu leito e que a família, que se reuniu em torno dele como se estivesse morto, o pranteasse. A casa lamentava o ócio de seu velho senhor, e a tristeza não terminou antes que o cargo (4) lhe fosse restituído. É tão bom assim, morrer ocupado? O mesmo estado de espírito manifesta se em muitos, o desejo de trabalhar perdura mais que a capacidade, lutam contra a fraqueza do corpo e julgam penosa a velhice, por nenhuma outra razão senão porque ela os põe de lado. A lei não mobiliza um soldado nos seus cinqüenta anos, nem convoca um senador nos sessenta; os homens obtêm com mais dificuldade folga de si (5) mesmos do que da lei. Entrementes, enquanto roubam e são roubados, enquanto um arrebata o repouso de outro, enquanto tornam se mutuamente miseráveis, sua vida é sem proveito, sem prazeres, sem nenhum aperfeiçoamento intelectual. Ninguém tem a morte à vista, todos estendem suas esperanças ao longe, alguns chegam até mesmo a tomar disposições com relação a coisas que estão além de suas vidas: enormes túmulos, dedicatórias de serviços públicos, dádivas junto de suas piras funerárias e pomposas exéquias. Mas, por Hércules, seus funerais deveriam ser conduzidos à luz de tochas e círios, como se tivesse vivido pouquíssimo!

(*) Tradutor: William Li

Notas:
1 ? para Aristóteles, só a forma é boa, a corrupção do mundo adviria da presença da matéria. Os estóicos tomarão uma posição intermediária e acreditarão na benevolência da natureza.
2 ? Quando Sêneca se refere ao maior dos poetas, não se sabe se refere-se a Homero ou Virgílio.
3 ? Nunca é permitido às suas vítimas voltar a si ? Os ocupados não tem tempo para refletir sobre si, daí o estranhamento de si mesmos. O homem, no entanto, pode ultrapassar sua condição meramente corporal e alcançar o conhecimento de si como alma e razão, integrando-se assim ao logos universal.
4 ? Augusto (63 a.C. ? 14 d.C.), primeiro imperador de Roma, foi grande patrono das letras e das artes.
5 ? Cícero (106 ? 43 a.C.), o maior orador romano, outro exemplo de vida bem vivida para o romano médio da época de Sêneca.
6 ? Cícero era muito vaidoso, chegou a escrever um poema épico em louvor de seu próprio consulado.
7 ? Tribuno da plebe em 91 a.C., considerado um gênio da política, foi assassinado por suas reformas democráticas. Daí teve início a guerra social. (91 ? 89 a.C.)
8 ? A toga pretexta, com uma faixa púrpura, era a vestimenta dos altos funcionários e dos generais.
9 ? Papírio Fabiano foi mestre de Sêneca e o que mais o influenciou.
10 ? Nos leilões e no tribunal dos centúnviros, a lança era colocada como símbolo do iustum dominium. A lança assim fixada indicava que o tribunal estava sob a autoridade do pretor.
11 ? Os bronzes coríntios eram muito cobiçados e colecionados por muitos em todo o império.
12 ? Peças naturalistas sobre os temas da vida comum. Algumas eram pornográficas.
13 ? Para Sêneca, o único conhecimento válido é o da filosofia, cuja finalidade é o aperfeiçoamento moral do homem.
14 ? Pompeu. O Grande, iria ser morto por um escravo ao desembarcar como fugitivo em Alexandria.
15 ? O estudo da filosofia, que abrange também a física e a teologia, pode levar o homem a ter acesso á própria eternidade.
16 ? Desde Platão, é comum a crítica dos filósofos ás ficções dos poetas.
17 ? Lúcio gaio Mário (157 ? 86 a.C.), general romano, foi o vencedor da Jugurta.
18 ? Cincinato (século 4 a.C.) foi chamado do campo para ser ditador e salvar o exército romano. Cumprida a tarefa, voltou ao campo. Foi tido como modelo de virtude cívica pelos romanos.
19 ? Cipião Africano Maior (236 ? 183 a.C.), comandante do exército romano na Segunda Guerra Púnica, terminou a guerra com a vitória de Zama.
20 ?O título de Rex era abominado pelos romanos, que nunca esqueciam as atitudes imorais e irresponsáveis de seus últimos reis, os Tarquínios. Otávio, ao se tornar imperador, inventou um título novo e muito mais importante: o de Augusto.
21 ? O estudo da filosofia, para os estóicos, abrange a física, a lógica e a ética.

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24 Outubro 2005 - Povos sem história, animais com história

o que digo é bem bobo, porque as pessoas que gostam verdadeiramente de gatos e cachorros têm uma relação com eles que não é humana. (...) o importante é ter uma relação animal com o animal. O que é ter uma relação animal com o animal? Não é falar com ele... Em todo caso, o que não suporto é a relação humana com o animal. Sei o que digo porque moro em uma rua um pouco deserta e as pessoas levam seus cachorros para passear. O que ouço de minha janela é espantoso. É espantoso como as pessoas falam com seus bichos. - O Abecedário de Gilles Deleuze.


É espantoso como as pessoas falam com seus bichos. Igualmente espantoso é encontrarmos pessoas que não possuem voz alguma. Claude Lévi-Strauss, em suas incursões nas sociedades anteriormente ditas "primitivas", mostrava, contra qualquer postulado anterior - apoiado nos evolucionismos do século XIX - que essas sociedades são muito mais complexas do que se pensava então. Os "povos sem história", se não possuiam estrutura e coerência ligados à comunicação da tradição pelas escrituras, tal como faz nossa sociedade, nem por isso seriam "involuídos" ou "simples", como o é o postulado de Haeckel que a filogênese repete a ontogênese, e como muitos insistiram que esse mesmo movimento acompanha a própria história das culturas.

Em suma, o que isso tudo quer dizer? Que Lévi-Strauss, para além do discurso tagarela de nossa soberania eurocêntrica, nada mais faz do que cindir esse discurso mostrando que há uma vivacidade discursiva que lhe é exterior. Há voz lá onde não havia voz; há complexidade lá onde havia apenas o primitivo; nossas verdades e nossa "evolução" são situações de uma cultura como qualquer outra, não melhor, nem superior. Em outras palavras - e aqui reside o essencial - há uma série de "vozes" a serem recuperadas, que dizem respeito àquilo que é pretensamente exterior ao ocidente, mas ao mesmo tempo, lhe diz essencialmente respeito. O "homem ocidental" se constituiria precisamente num discurso soberano que cala outros discursos, cuja soberania só seria soberana na manutenção de um silêncio. Vê-se aí uma das tarefas principais desenvolvidas pela intelectualidade do pós-guerra: dar voz, buscar a voz daquilo cuja voz era desconsiderada. Assim os pequenos movimentos, o surgimento da anti-psiquiatria, a criação de Foucault do Grupo de Informação sobre as Prisões, as considerações sobre a "revolução molecular" de Guattari, o contemporâneo movimento da "autonomia", e assim por diante.

Dar voz àquilo que é sem voz passa a ser a muitos um imperativo, um critério político essencial, como o era antigamente nos países coloniais a constituição de sua soberania pelo silêncio de outras vozes. Curioso, nisso, é constatar os silêncios que presenciamos hoje em dia: o do desempregado, o do dito "cidadão" (pessoas sem qualquer direito de "cidadania" são atualmente chamados de "cidadãos", veja-se a maioria da população brasileira), o do pobre, o de certas culturas que dispõem de muito petróleo, o de certas religiões (ditas "radicais"), e assim por diante. Em via contrária desses povos sem voz e sem lugar "mediático" algum, é curioso constatar o cultivo de outras pretensas "vozes", na linha do que Deleuze afirma acima: num mundo em que pessoas não possuem voz alguma, há "voz" e história dada a bichos de estimação, que recebem eles mesmos por seus donos uma certa afetividade "humana". Como em um blog norte-americano que conta a história de três cachorros, e um brasileiro que conta a história de um cavalo.

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23 Outubro 2005 - Spring, Summer, Fall, Winter and... Spring



Não tenho nada a dizer a respeito desse filme. É maravilhoso... deixo abaixo os links para baixar o longa e a legenda. Os arquivos podem ser baixados apenas para quem tem utiliza as redes do programa Emule:


- Spring.Summer.Fall.Winter.And.Spring.2003 (em formato .avi)

- Legendas em português










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- Uma dedada para os ddos

Não tenho celular e não pretendo possuir algum tão cedo. Mas como qualquer pessoa hoje em dia dispõe de um, os serviços de SMS são bastante úteis. A Vivo empreendeu nesse contexto uma ação curiosa: inventou uma certa "revolução dos ddos", e reduziu as mensagens on-line de SMS de 123 caracteres para 80. Se os "ddos" e coisas do gênero são abreviações pelo curto espaço já dado nas mensagens, tá aí uma infeliz medida para utilizá-los ainda mais. E ainda, é uma medida revestida por uma "revolução" publicitária. É por isso que, nisso tudo, endereço à Vivo um solitário e anônimo manifesto de "ddos":
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- Toni Negri e Felix Guattari: Pensar y vivir de otro modo. Propuestas

El resentimiento, la repetición vacía, el sectarismo son las modalidades en que vivimos las esperanzas traicionadas por el movimiento obrero tradicional. No por ello renegamos de la historia de las luchas; es más, por el contrario, la exaltamos porque forma parte integrante de nuestras coordenadas men­tales y de nuestra sensibilidad. Aunque fuéramos enanos so­bre los hombros de los que fueron gigantes, queremos asumir tanto los frutos como los aspectos deplorables de su herencia. De todos modos, queremos ir más allá. Reanudándonos con las raíces humanas del comunismo, queremos volver a las fuentes de la esperanza, es decir, a un «ser para», a una intenciona­lidad colectiva, dirigida al hacer antes que a un «ser contra», estibado en los ritornelos impotentes del resentimiento.

Es en la historia real donde queremos explorar y experi­mentar la multitud de universos de lo posible que nos incitan por todas partes. ¡Que broten mil flores en el terreno que la destrucción capitalista pretende minar! ¡Que mil máquinas de vida, de arte, de solidaridad y de acción barran la arrogancia estúpida y esclerótica de las viejas organizaciones! Qué im­porta si el movimiento tropieza con su propia inmadurez, con su «espontaneismo» - al final su potencia de expresión se verá reforzada. Sin darse cuenta siquiera, y pese a la amplitud de los movimientos moleculares que le agitan, las líneas de cris­talización organizativa que se ponen en marcha se orientan en el sentido de las nuevas subjetividades colectivas.

«Que broten mil flores, mil máquinas de lucha y de vida» no es una consigna de organización y, mucho menos, una pré­dica de iluminado, sino una clave analítica de la nueva subje­tividad revolucionaria, un dato a partir del cual se podrán re­cobrar las características sociales y las dimensiones de singu­laridad del trabajo productivo. A través del análisis de lo real se recompondrán y se multiplicarán como instancia subversi­va e innovadora. El enemigo se ha encarnado en las formas actuales de mando social, mediante el aplastamiento de las diferencias, la imposición de la lógica reductiva del dominio. Poner de relieve la hegemonía de los procesos de singulariza­ción en el horizonte de la producción social constituye hoy la característica específica de la lucha política comunista.

El desarrollo, la defensa y la expresión de las subjetivida­des productivas mutantes, de las singularidades disidentes y de los nuevos agenciamientos proletarios se han convertido, de algún modo en la materia prima y la primera tarea del mo­vimiento. Esto podrá cobrar la forma de la lucha en el frente del Welfare, por la determinación de un rédito igualitario garantizado, contra la miseria en todas sus formas, por la defen­sa y la ampliación de los derechos de los alternativos, contra los mecanismos de división corporativa... Se retomará aquí, si se quiere, la tradición de las luchas contra la renta, salvo que ésta ya no sólo lo es del suelo, inmobiliaria y financiera, sino que se apoya, esencialmente, en la articulaciones del mando capitalista y se trata por tanto de renta política, de renta de posición en la jerarquía de los estratos corporativos. Las nue­vas componentes subjetivas de la producción y la revolución encontrarán su primer campo de intervención en este registro, que redefinirán de manera positiva como lucha de liberación contra la esclavitud corporativista y las estructuras reaccionarias de la producción y afirmación de los procesos de singula­ridad, como impulso esencial de la producción social.

Esta recomposición del movimiento revolucionario impli­ca, desde luego, inmensos esfuerzos de coraje, de paciencia, y sobre todo, de inteligencia. ¡Pero qué progreso, ya, en rela­ción a los períodos anteriores de lucha - incansable y a menu­do desesperada- de los primeros grupos conscientes de esta problemática, que sólo rara vez lograban abrir brechas en el ghetto sindical o en el monopolio político de los supuestos partidos obreros! También aquí, el tiempo de vida debe impo­nerse al tiempo de la producción. En esta encrucijada se plan­teará <">la segunda tarea del movimiento comunista revolucio­nario: la organización consciente de la fuerza de trabajo co­lectiva independientemente de las estructuras capitalistas y/o socialistas, dicho de otro modo, la organización de todo lo que atañe a la producción y la reproducción del modo de vida. En efecto, una cosa es revelar las nuevas fuerzas productivas so­ciales, y otra organizarlas desde fuera y contra las estructuras capitalistas y/o socialistas. El desarrollo de la ciencia y de las técnicas y su incorporación masiva en este programa de trans­formación son condiciones necesarias, pero no suficientes. No es concebible ninguna transformación si el conjunto del cam­po del trabajo productivo no se ve atravesado por grandes mo­vimientos de experimentación colectiva que rompan las con­cepciones relativas a la acumulación centrada en el beneficio capitalista. En esta dirección debe comprenderse la potencia de expansión de la fuerza colectiva de trabajo. De este modo, se establecerá un doble movimiento, que recuerda al del corazón humano, entre la diástole de la fuerza expansiva de la producción social y la sístole de la innovación y la reorganización radical de la jornada de trabajo. El movimiento del proletaria­do social y de las nuevas subjetividades colectivas debe asal­tar las empresas, tos envites relativos la legislación sobre el tiempo de la jornada de trabajo e imponer sus redefiniciones y su experimentación permanente. Deben imponer, no sólo una renovación de la producción, sino además modos innovadores de imaginar y estudiar la producción.

Pensar, vivir experimentar y combatir de otro modo: esta será la divisa de una clase obrera que ya no puede percibirse con «autosuficiencia» y que tiene todo que ganar en la renun­cia a sus mitos arrogantes de centralidad social. Apenas se haya acabado con ese género de mistificaciones, que, a fin de cuentas, no han hecho más que favorecer a las formaciones de poder capitalistas y/o socialistas, se descubrirá el alcance in­menso de las nuevas líneas de alianza que anudan ?relevos? sociales multiformes y multivalentes en el seno de las fuerzas productivas de nuestros tiempos. Ya es hora de que la imagi­nación del comunismo se ponga a la altura de las olas transfor­madoras que están en condiciones de sumergir a las viejas «rea­lidades» dominantes.

Ahora, debemos introducir algunas consideraciones en tor­no a una primera «proposición diagramática» que integre la definición de las perspectivas propuestas hasta este momento. Es absolutamente obvio que todo intento de controlar, por parte del movimiento de las nuevas subjetividades, el tiempo de la jornada de trabajo, no sería sino ilusorio si no choca frontalmen­te con la red de mando dispuesta por el CMI.

Atacar esta red significa poner en cuestión la relación Este-Oeste, hacer que descarrile el mecanismo de integración entre las dos superpotencias que ha sobrecodificado, desde los años 70 hasta hoy, todas las relaciones internacionales. La ruptura de la relación de dominio establecida fatigosamente entre el capitalismo y el socialismo y la inversión radical de las alian­zas - en particular europeas- en la dirección del eje Norte-Sur, contra el eje Este-Oeste, constituyen una base esencial de la recomposición del proletariado intelectual y obrero en los países capitalistas avanzados. Una base de producción social que conquistará su independencia contra la opresión de la jerar­quía y el mando de las grandes potencias; una base que sólo tiene sentido si se apoya en la voluntad colectiva de crear flu­jos y estructuras alternativas a las relaciones Este-Oeste.

No somos partidarios atrasados del «tercermundismo», no tenemos la pretensión de transformarlo por la vía del «insurrec­cionalismo» tradicional; en esa medida, no creemos apenas en su capacidad independiente de desarrollo y de «rescate», al menos en el contexto capitalista actual. Ninguna revolución triunfante en los países desarrollados logró transformar de modo duradero las estructuras del Estado. ¡Es poco probable que las del Tercer Mundo lo consigan! No, antes conviene ten­der hacia la cooperación revolucionaria y la agregación de las fuerzas del proletariado intelectual y obrero del Norte con la masa inmensa del proletariado del Sur para desplegar esta tarea histórica. Todo esto puede parecer utópico, extravagante incluso, porque hoy nosotros, los obreros y los intelectuales de los países del Norte, somos esclavos de la política corpora­tiva, de las divisiones segmentarias, de la lógica del beneficio, de las operaciones de subdivisión y de exterminio, de la obse­sión por la guerra nuclear, tal y como se nos imponen y de las que nos hacemos cómplices. Nuestra liberación pasa por el alumbramiento de un proyecto y de una práctica que unifi­quen, en una misma voluntad revolucionaria, a las fuerzas in­telectuales y al proletariado del Norte y del Sur

A medida que la conjunción de los procesos de singulari­dad avance en el proyecto de reinvención del comunismo, se planteará con mayor agudeza el problema del poder, que per­manece en el corazón del antagonismo entre las componentes proletarias y el Estado capitalista y/o socialista. El movimien­to obrero tradicional pensaba que podía responder a esta cues­tión de manera simple y radical con la conquista del poder estatal, y luego con la progresiva extinción de este último ¡Todo sería así de fácil! ¡Se opondría la destrucción a la des­trucción y el terror al terror! ¡Es inútil hacer comentarios hoy sobre el carácter ficticio y mistificador de esa dialéctica! ¡Es inútil subrayar lo escandaloso de la referencia de los partida­rios de semejante doctrina a la experiencia heroica de la «Co­muna de París»

La tercera tarea fundamental del movimiento comunista revolucionario consiste en acabar con ese género de mistifica­ciones y en afirmar la <">separación radical del movimiento no sólo del Estado con el que se enfrenta directamente, sino, más fundamentalmente, con el modelo mismo del Estado capita­lista y de todos sus sucedáneos, ersatz, formas derivadas y funciones ramificadas en todos los mecanismos del socius, a todos los niveles de la subjetividad. A las luchas sobre el Welfare, contra la organización del trabajo productivo y el tiempo de trabajo social, a las iniciativas comunitarias en este te­rreno se añade entonces el cuestionamiento radical del Esta­do, como clave modeladora de las diversas figuras de la opre­sión, como máquina de sobredeterminación de las relaciones sociales, para reducirlas, subdividirías, someterlas radicalmente bajo la amenaza de sus fuerzas de muerte y destrucción.

Este problema nos lleva a formular una segunda proposi­ción diagramática del comunismo y la liberación. Atañe a la urgencia de una reterritorialización de la praxis política. Enfrentarse al Estado, hoy, significa luchar contra esa figura par­ticular de Estado totalmente integrada en el CMI. A partir de Yalta, las relaciones políticas se han vaciado cada vez más de legitimidad territorial, han ido a la deriva hacia niveles imposibles de aferrar. El comunismo representa la destrucción tenden­cial de mecanismos que hacen del dinero y de los demás equi­valentes abstractos los únicos territorios del hombre. Esto no implica en absoluto una nostalgia de las «tierras natales», el sueño de un retorno a las civilizaciones primitivas o al su­puesto comunismo del «buen salvaje». ¡No se trata de volver a cuestionar los niveles de abstracción que los procesos desterritorializados de producción han hecho conquistar al hombre!

Lo que el comunismo contesta es el tipo de reterritorializa­ción conservadora, degradante, opresiva, impuesta por el Es­tado capitalista y/o socialista, con sus funciones administrati­vas, sus órganos institucionales, sus equipamientos colectivos de normalización y subdivisión, sus média, etc. La reterritoriali­zación operada por la praxis comunista es de naturaleza total­mente distinta; no pretende volver a un punto de partida natu­ral y universal; no es una revolución circular; permite «despe­gar» de las realidades y de los significados dominantes, crean­do condiciones que permitan a los hombres «construir su te­rritorio», conquistar su destino, individual y colectivo, dentro de los flujos más desterritorializados.

(Desde este punto de vista se distinguirán muy concreta­mente: los movimientos de reterritorialización nacional, Vas­cos, Palestinos, Kurdos..., que asumen, hasta cierto punto, los grandes flujos desterritorializados de las luchas del Tercer Mundo y de los proletariados inmigrantes, y los movimientos de reterritorialización nacionalista reaccionaria.)

Nuestro problema es reconquistar espacios comunitarios de libertad, de diálogo y de deseo. Muchos de ellos comienzan a proliferar por diversos países de Europa. Pero se trata de cons­truir, contra las pseudo reterritorializaciones del CMI (ej. : la «descentralización» en Francia, o la Europa de los Diez1) un formidable movimiento de reterritorialización de los cuerpos y los espíritus: Ea ropa debe reinventarse como reterritorializa­ción de la política y como base de la inversión de las alianzas sobre el eje Norte-Sur.

La tercera tarea del movimiento comunista revolucionario es también, por tanto, desarticular y desmantelar las funcio­nes represivas del Estado y de sus cuerpos especiales. Es el único terreno en el que los nuevos sujetos colectivos se cruzan con las iniciativas del Estado y únicamente en la medida en que este último envía a sus «caballeros teutones» a las tierras liberadas por los agenciamientos revolucionarios. ¡Cuánta fuer­za de amor y de humor habrá que poner aquí en acción para que estas no se abolan, como de costumbre, en la imagen lu­nar, mortalmente abstracta y simbólica, de su adversario capi­talista! La represión es antes que nada desarraigo y perversión de lo singular. Se trata de combatirla en el terreno de las rela­ciones de fuerza localizables en lo real; se trata además de deshacerse de ella en los registros de la inteligencia, la imagi­nación, la sensibilidad y la felicidad colectivas. Se trata de extraer de todas partes, incluso de sí mismos, las potencias de implosión y desesperación que vacían de su sustancia a lo real y a la historia.

¡Que el Estado, por su parte, viva el resto de su vida en el aislamiento y el cerco que le reserva una sociedad civil reconstruida! Pero, si da muestras de salir de su «reserva» y de reconquistar nuestros espacios de libertad, entonces respon­deremos sumergiéndolo con un nuevo género de movilización general, de alianzas subversivas multiformes Y esto hasta que reviente ahogado en su furor

La cuarta tarea Aquí volvemos, y era inevitable a la lucha antinuclear y a la lucha por la paz Solo ahora sobre un paradigma que pone de manifiesto las implicaciones catastróficas de la posición de la ciencia en relación al Estado posición que presupone una disociación entre la «legitimidad» del poder y la finalidad de la paz.

¡Qué siniestra burla, de verdad, la de los Estados que acu­mulan millares de cabezas nucleares en nombre de su respon­sabilidad de garantizar la paz y el orden internacional Cuan­do es evidente que esta acumulación no podría garantizar otra cosa que la destrucción y la muerte. Pero esta última legitima­ción «ética» del Estado, a la que la reacción se aferra como a un bastión, está, además, derrumbándose, y no sólo en el plano teórico, sino en la consciencia de los que saben o presien­ten que la producción colectiva, la libertad y la paz son, en su movimiento, esencialmente irreductibles al poder.

Impedir la catástrofe que el Estado trae consigo, dejando claro hasta qué punto le es esencial. Sigue siendo cierto que «el capitalismo trae la guerra como las nubes la tormenta». Pero, a diferencia con el pasado, con otros medios y en un horizonte de horror que escapa toda posible imaginación, la perspectiva del holocausto final se ha convertido, en efecto, en una base a partir de la cual se despliega la verdadera guerra civil mundial, conducida por el poder capitalista y constituida por mil guerras permanentes, purulentas, pulverizadas, contra las luchas de emancipación social y las revoluciones molecu­lares. Sin embargo, en este campo, como en ningún otro, nada es fatal. Las victorias y las derrotas de las nuevas líneas de alianza del movimiento no están inscritas en ningún caso en una causalidad mecanicista o una supuesta dialéctica históri­ca. Está todo por rehacer, hay que retomarlo todo constantemente. ¡Y está bien que así sea! El Estado no es más que un monstruo frío, un vampiro de agonía interminable que sólo saca su vitalidad de los que se abandonan a sus simulacros.

En el 68 nadie podía imaginar que la guerra se convertiría tan rápidamente en una horizonte tan cercano e invasor. Hoy, la guerra ya no es sólo una perspectiva: se ha convertido en el marco permanente de nuestra vida.

La tercera guerra mundial imperialista ya ha comenzado. Una guerra que dura sin duda treinta años, que, precisamente como la Dreissigjahre Krieg, ya nadie puede reconocer, aun­que se haya convertido en el pan cotidiano de las primeras páginas de la prensa. Este es el resultado de la reestructura­ción capitalista y de sus furiosos asaltos contra los proletaria­dos planetarios. La tercera proposición diagramática del co­munismo y la liberación consiste en la toma de consciencia de esta situación y en la asunción de la problemática de la paz como base fundamental de los procesos de inversión de las alianzas sobre el eje Norte-Sur. ¡Hoy menos que nunca la paz es una consigna vacía; una fórmula de «alma bella», una ins­piración vaga!

La paz es el alfa y omega del programa de la revolución. La angustia de la guerra se nos mete dentro, corrompe nues­tros días y nuestras noches.

¡Hay tanta gente que se refugia en la política del avestruz! Pero también esa inconsciencia genera angustia. El comunis­mo arrancará a los hombres y a las mujeres a la bestialidad programada del CMI y les pondrá frente a la realidad de esa violencia y esa muerte, que la especie humana puede vencer si logra conjugar sus potencialidades singulares de amor y ra­zón

Y, finalmente, a estas líneas de alianza de los agenciamien­tos productivos y de las subjetividades colectivas liberadas deberá añadirse una quinta dimensión de la que ya hemos hablado ampliamente -, la de la organización. Ya es hora de pasar de la resistencia dispersa a la constitución de frentes de lucha determinados y de máquinas de lucha que, para ser efi­caces, no perderán nada de su riqueza, de su complejidad, de la multivalencia de deseos que las guían. Nos toca a nosotros trabajar por esa transición.

Resumiendo: cinco tareas aguardan a los movimientos fu­turos: la redefinición concreta del régimen salarial; la asun­ción del control y la liberación del tiempo de la jornada de trabajo; una lucha permanente contra las funciones represivas del Estado; la construcción de la paz y la organización de má­quinas de lucha capaces de asumir estas tareas.

Estas tres tareas están «diagramatizadas» por tres propo­siciones: contribuir a la reorientación de las líneas de alianza del proletariado según el eje Norte-Sur; conquistar e inventar nuevos territorios de deseo y de acción política, radicalmente desmarcados del Estado y el CMI; luchar contra la guerra y trabajar por la construcción del movimiento revolucionario del proletariado por la paz.

Aún estamos lejos de haber salido de la tormenta, todo hace pensar que el final de los «años de plomo» estará jalonado aún por duras pruebas; pero con lucidez, sin ningún mesianis­mo, proyectamos la reconstrucción de un movimiento revolu­cionario y de liberación más eficaz, más inteligente, más hu­mano, más sonriente que nunca.

Roma, prisión de Rebibbia/París, 1983-84.

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21 Outubro 2005 - Eco, Joyce e o "Livro de Kells"

O weblog New York on Time publicou um texto bastante curioso de Umberto Eco, sobre as inspirações de Joyce a partir de um manuscrito do século IX. Destaque para as menções de Eco ao jogo de labirintos constituído pelo "Livro de Kells", em oposição ao saber enciclopédico que parece animar nossas ordens - subvertidas por Joyce. É como se - diz Eco - para além de nossas ordens constituídas, houvesse todo um labirinto da linguagem, no qual nossa pretensa lineariedade apenas pertenceria a esse jogo. Isso faz em muito lembrar outros posts e sites que aqui comentamos, por exemplo sobre o "jogo de espelhos" do Bibliodyssey (post que fala também sobre Flaubert), e as menções ao maravilhoso Giornale Nuovo.

Mas a verdadeira novidade não parece se resumir à da criação de operações semelhantes às já mencionadas sobre os literatos modernos. Flaubert elabora um livro sobre Santo Antão. Poderíamos citar vários outros exemplos, como o John Wilkins de Borges. Vários literatos contemporâneos evocam figuras do passado para "subverter" a própria linguagem presente. Porém, nisso tudo é muito curiosa a menção de Eco a um texto do século IX, bem mais recuado do que o clássico Wilkins ou as inspirações do Santo Antão renascentista.

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20 Outubro 2005 - Mais sobre a(s) tradução(ões) de Ítaca e Cavafy


O weblog português Absorto tem publicado uma série de poemas de Cavafy, como já comentamos em outro texto. Um de seus últimos posts é o próprio Ítaca, traduzido por Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis em uma edição chamada "Os Poemas", recém publicada pela Relógio D´Água. A tradução é feita diretamente dos originais em grego.

Acredito que, em português, tenha sido a melhor tradução que encontrei - partindo do princípio (duvidoso) que é a mais semelhante à tradução ao inglês, que serviu de base (junto à tradução ao castelhano) para a minha. Cabe ao leitor avaliá-la, enviando suas considerações sempre bem-vindas.

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- Campereando

CAMPEREANDO
Mauro Moraes

Na charla dos milongueiros, contraponteando o silêncio
Eu sempre digo o que penso, quando o violão me golpeia
E me garanto por terra, cantando coisas do campo
Sem molestar o quebranto, dum bordoncio queixoso
Aqueles do olhar lacrimoso, quando voltamos pra dentro

Campereando vou, campereando, vou
Vou eu, à cavalo, encurtando o pago, campeador

Guardo nas léguas dos olhos, remorsos nunca esquecidos
Um catre "bueno" e curtido, pros dias que não enfreno
Tropilhas do mesmo pelo, parceiros das invernadas
Quando amadrinho quarteadas, no pampa do meu estado
E um coração solidário, velando a luz do luzeiros

Sabe comadre milonga, fulana nem sei das quanta
Sempre que um sonho se planta tenho com quem conversa
Ando de lado atorado, marcado pelo meu jeito
Quando a dor abre o peito, e o vento nada responde
Talvez buscando horizontes, eu mude a cara do tempo
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19 Outubro 2005 - Maurice Blanchot sobre Sade

O site oestrangeiro.net acabou de publicar um longo texto, chamado "La Razón de Sade". Comecei a ler o texto. Interessantíssimo, e se formos levados pelas indicações da apresentação feita por aquele site, uma série de questões relativas a outros autores (não apenas Sade) podem ser elucidadas.

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- Arrumei o post sobre o "nomadismo psíquico"

Arrumei o post sobre o "nomadismo psíquico", by Hakim Bey. Continuo pensando sobre o que Bey havia dito: "para haver TAZ, é necessário um corpo". Pois nesse post sobre o nomadismo psíquico, Bey, um leitor de Lao Tsé, lembra sem mencionar o poema 49 do Tao Te Ching, associando-o aos internautas que "viajam sem sair de casa". Seriam esses "nômades psíquicos" (internautas que não saem de casa, que não movem seus corpos para além das mãos e dos olhos) como o são os cultivadores de TAZ, mencionados em sua entrevista à High Times Magazine? Talvez no momento em que transformam o "paradoxo passivo" em "ativo", talvez quando o internauta que viaja sem sair de casa transforma sua viagem não em válvula de escape a uma vida confinada, mas... (?)

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18 Outubro 2005 - Constantine Cavafy: Ítaca (1911)

Quando você começar sua viagem a Ítaca,
peça para que a estrada seja longa,
cheia de aventura, plena de conhecimento.
Os Lestrigonianos e os Ciclopes,
O odioso Poseidon - não os tema:
Você nunca os encontrará em seu caminho,
se seus pensamentos permanecerem elevados, se uma fina
emoção tocar seu espírito e seu corpo.
Os Lestrigonianos e os Ciclopes,
O feroz Poseidon você nunca irá encontrar,
se você não os carregar junto à tua alma,
se tua alma não os dispor acima de ti.

Peça para que a estrada seja longa.
Que as manhãs de verão sejam muitas, quando,
com cada prazer, com cada alegria,
você entrará em portos vistos pela primeira vez;
pare em mercados fenícios,
e adquira fina mercadoria,
âmbares e ébanos, pérolas e corais,
e perfumes voluptuosos de toda espécie
tão voluptuosos quanto você conseguir;
visite muitas cidades Egípcias,
para aprender e aprender com os sábios.

Sempre tenha Ítaca em sua mente.
Chegar lá é seu último destino.
Mas não aprece a viagem, contudo.
É melhor deixá-la perdurar por muitos anos;
e ancorar na ilha quando você estiver velho,
rico com tudo o que ganhou no caminho,
sem esperar que Ítaca lhe ofereça riquezas.

Ítaca deu a você uma linda viagem.
Sem ela você poderia ter nunca saído a caminho.
Nada mais ela tem a lhe dar.

E se você encontrá-la pobre, Ítaca não o decepcionou.
Sábio como há se tornado, com muita experiência,
você já terá compreendido o que Ítaca significa.

- Constantine Cavafy -

tradução/traição: nomade z

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17 Outubro 2005 - Traduzir Cavafy

Estive me aventurando em traduzir Cavafy. Às vezes a partir das versões em inglês, às vezes em espanhol, aqui ou ali outras versões, acolá uma ajuda de tradutores virtuais e dicionários. Encontrei Cavafy por acaso, em um de meus sites preferidos, e fiquei fascinado por seu "Ítaca". Estou tentando traduzi-la (principalmente uma traição da versão inglesa), já consultei várias outras traduções ao espanhol e ao português, mas sei que nada será parecido com a língua-mater. Espero, ao menos, estar fazendo boas traduções, que são elas mesmas, traições.

A respeito dessas tentativas, encontrei um texto curioso (a respeito das traduções ao inglês), do qual destaco uma passagem:

Rereading Cavafy got really interesting at the stage of comparing the different versions, when I decided that Cavafy is un translatable, that we still don't have a really fine English translation of Cavafy, and I wanted to read the original Greek. The efforts of Rae Dalven, John Mavrogordato, Edmund Keeley and Philip Sherrard all have their fine moments, but it's impossible to reproduce in English Cavafy's strict syllabics and rhyme schemes. What, then, do we have left of Cavafy in translation? We have his unique elegiac voice, his unmistakable tone of voice that feels like the voice of the past, like the voice of Alexandria personified.

Ou, em outras palavras, é difícil ler Cavafy se não for diretamente do grego...
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16 Outubro 2005 - Laurence Acland: "Bacchus"


Link: acland-photo.com

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14 Outubro 2005 - "Salvar as águas": quais águas?

Em um post anterior, busquei apresentar uma questão bastante curiosa, que, se hoje é apenas história elucubrativa, no futuro muito provavelmente irá adquir tom de seriedade. Trata-se da questão de uma próxima e muito provável escassez da água.

Conheço alguns "defensores" das águas. Dentre eles, chama-me a atenção uma senhora, residente numa pequena cidade interiorana, que dá entrevistas às mídias regionais para falar com boca cheia e ar de civismo o quanto as águas são importantes, o quanto deveríamos proteger as águas, como somos displicentes para com elas... Na mesma região onde ela reside, posso contar pelo menos dois rios que estão morrendo: um recebe a poluição da cidade, e outro, o resíduo quase integral de uma fábrica de papel pouco fiscalizada. Mas isso pouco importa, o que interessa são as "águas", e não essas águas, por debaixo de nossos assentos sanitários, e precisamente nesse ponto essa senhora tem sua consciência tranquila, sem precisar dizer nada em entrevistas sobre os rios que correm por debaixo de seu próprio nariz.

O artigo mencionado sobre a silenciosa guerra da água chama a atenção a outro fator: seu comércio e privatização. Há grandes empresas e países interessados nas reservas d´água restantes, como o aquífero guarani, que futuramente poderá ser fruto de muita discussão. Sobre a privatização da água, vê-se já faz um bom tempo como uma prática comum há 10 ou 15 anos foi abafada pela "compra" d´água: o hábito de beber água da torneira, vinda da rede pública, substituído pelo hábito de comprar água mineral.

Mas no fundo, falando sobre a privatização da água, e sobre rios sujos que correm por debaixo do nariz de seus defensores, gostaria de chamar a atenção a como a ação individual poderia "defender" as águas. Caso a mencionada senhora fosse realmente "defender" as águas, há uma série de práticas cotidianas que poderia ela mesma fazer, desde a questão de seu banho até mesmo às opções do quê comprar, do quê pagar, do quê utilizar, e sobre quais 'águas' efetivamente lutar.

Existe um dizer pouco digerível, mas muito enunciado nos media, nos meios sociais, empresariais, escolares, e afins: "agir localmente pensando globalmente". Esse dizer agrada muito as consciências, embora nada engendre de verdadeiramente efetivo. São dizeres como esse que nos fazem ver senhoras lutando por "as" águas, ou turmas de psicologia de faculdades ditas "renomadas" visitarem comunidades carentes levando um monte de sacos de comida e roupas, e retornando para casa com a consciência tranquila e a "bonita" história de terem melhorado o mundo.

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- Para haver TAZ "é necessário um corpo"


Em um post anterior, vinculei uma entrevista a Hakim Bey cujos resultados são bastante curiosos. Dentre eles, a questão do corpo numa TAZ. Hakim Bey afirma categoricamente: para haver TAZ, é necessária a presença de um corpo. A Rede, em si mesma, não agencia TAZ, mas pode ser um instrumento para criar zonas temporárias de autonomia. Isso torna a situação bastante curiosa. O que quer dizer Bey quando afirma que apenas a Rede não cria TAZ? Vejamos se, como em outro lugar, os espelhos funcionarão bem.

Em um belo texto chamado O mistério de Ariadne, segundo Nietzsche, Deleuze examina o mito do Labirinto. Ariadne, a Anima, aquela que, com o homem superior e herói Teseu, carrega o fio da moralidade para conduzir-se no labirinto dionisíaco, é a "combinação da vontade negativa com a força de reação". Isto é, Ariadne com Teseu é a alma tematizada pelo ressentimento, pela negação da vida, pelo "homem verídico" e superior, que carrega a vida com um peso deveras pesado, e apenas reage passivamente a ela. Já Dionísio é aquele que se libera dos fardos da vida, "é a afirmação pura e múltipla, a verdadeira afirmação, a vontade afirmativa; ele nada carrega, não se encarrega de nada, mas alivia tudo o que vive", verdadeira possibilidade do além do homem, do além do herói-Teseu. Mas, segundo Deleuze, Dionisio não é nada sem a Anima-Ariadne, pois, para haver afirmação, é preciso um sim a ela, é preciso de um "sim ao sim", uma afirmação das potências afirmativas. Caso contrário, ainda incorrem os riscos das forças reativas. Nesse sentido, para efetivamente haver o além do homem, é necessária a união de Dionísio e Ariadne, sendo o ubermensch seu produto.

Em outro texto intitulado Sobre a Morte do Homem e o Super-Homem, Deleuze lança uma fórmula semelhante à do texto sobre Ariadne, que pode aclará-lo, e à questão aqui enunciada. Já no início do texto sobre Ariadne, Deleuze diz que o que está em jogo são essencialmente forças. O mesmo Deleuze afirma nesse segundo texto: o que é uma forma? É um conjunto, um engendramento de forças. Assim, por exemplo, a forma-homem (esse 'homem' que Foucault descreve como uma formação curiosa irrompida a partir do século XIX, e que está em vias de "morrer") são forças do homem (de querer, imaginar, conhecer, representar...) engendradas com forças da finitude, da mesma forma que o classicismo (ou forma-Deus) caracterizava-se por forças no homem que se engendravam com as forças do infinito. Há um redobramento no 'homem', que não o faz ser o Homem (sujeito e objeto por excelência) como querem as ciências humanas e toda a reflexão dormente sobre a finitude. O Homem não existiu sempre, só foi possível no momento em que suas virtualidades se engendraram com "forças" da finitude. O "homem" engendrado com o infinito (a forma-Deus) em nada deve às forças no "homem" engendradas às forças da finitude (à forma-Homem).

Mas é precisamente no momento em que o homem deixa de agenciar-se com forças da finitude, que novas formas passam a ser anunciadas (pois o que está em jogo não é mais o homem, mas sua composição com outras formas). Há uma grande proximidade com o que Deleuze chama de "sociedades de controle" com o advento do que diz, no texto sobre o super-homem, a respeito do "homem de silício". O que isso quer dizer? Que o mesmo homem que, tornado sujeito e objeto (homem entrecruzado com as forças da finitude) torna-se Homem, ao mesmo tempo fundamento de todo conhecimento, e elemento inserido nas empiricidades, esse mesmo homem, quando conjugado com outras forças, terá por resultado outra forma, outro modo de viver e experimentar a vida, irredutível à forma-Homem. Essa, para Deleuze, é a colocação correta do problema do super-homem.

Nesse ponto pode-se ver que os dois textos se encontram: entre Ariadne e Dionísio, o além do homem; na superação da forma-homem (e no advento do 'homem de silício'), igualmente se coloca de modo apropriado a questão do ubermensch. Ora, uma forma nasce a partir de um engendramento, de um entrecruzamento, de um agenciamento de forças. Quando a anima se agencia com forças reativas, há ressentimento e recusa da vida; quando se agencia com forças afirmativas - quando afirma efetivamente a afirmação -, o resultado é o além do homem, e o verdadeiro "sim" à vida.

Em relação aos dizeres de Bey, essas considerações traçam resultados interessantes. Diz Bey: a Rede por si própria não engendra TAZ, para isso, é necessário haver um corpo. A Rede - como os livros e outras coisas mais - por si mesma não permite criar uma "zona temporária de autonomização", mesmo que, em si mesma, pode implicar a abertura de novos e inusitados caminhos. Obviamente, a Rede é um entrecruzamento de inúmeros vetores, como o é um corpo, e como - no limite - pode-se estender esse argumento indefinidamente. Entretanto, quando Bey chama a atenção à necessidade de um corpo, está lançando um juízo: mesmo que um corpo se conecte à Rede, mesmo que dessa conexão gerem afetos e possibilidades de TAZ, essa possibilidade apenas é efetiva quando permite uma mudança verdadeiramente efetiva. Um corpo pode conectar-se à rede; vários corpos podem se conectar no entusiasmo do surgimento de um Partido, ou de um coletivo, ou de um movimento social. Mas isso apenas importa quando ocorre uma verdadeira afirmação dessas potências positivas. Caso contrário, um partido e um movimento não passam de discussões sem efetividade, e uma conexão prazeirosa na Rede não passa de um momento prazeiroso. Nada aí de efetivo é engendrado, como faz Bey ao chamar a atenção aos grupos de teatro que "encenam" terrorismos poéticos, sem nada compreender o que eles significam. Um terrorismo poético - como uma TAZ - serve para arrancar um corpo de seu cotidiano e de seu estado "alienado", gerando novas potencializações, e não apenas encenações de gente descolada.

Maldito blogger, maldita conexão. Estava escrevendo um texto muito mais legal que o final acima, mas por duas vezes a maldita conexão caiu, e perdi o texto. Mas, de todo modo, um corpo que se agencia a qualquer elemento (uma Rede, um livro, outros corpos) para 'gerar' uma TAZ é como Ariadne-Anima entre Teseu e Dionísio: quando agenciada às potências reativas, o resultado é o ressentimento, o "pequeno homem" (no dizer de Deleuze), a "alienação" (no dizer de Bey). É por isso que um corpo apenas conectado à Rede nada mais traz se a relação se resume a isso. É como os movimentos sociais que se resumem às discussões (sem ações efetivas, cotidianas), ou o indivíduo que se deslumbra com a Rede, e resume esse precioso instrumento ao deslumbre. Daí o juízo de valor de Bey de que é necessário um corpo, que pode agenciar-se com potências reativas, ou efetivamente afirmar o afirmativo. Maldito blogger.

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12 Outubro 2005 - John Howe: Gandalf luta contra o Balrog (ilustrações de Tolkien)

Clique para ver a foto ampliada
Gandalf luta contra o Balrog
Link: valinor.com.br

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11 Outubro 2005 - Foucault e Georges de La Tour

Em História da Loucura, há uma passagem fundamental - porém pouco explorada - que permite elucidar melhor em que sentido Foucault argumenta sobre uma "experiência trágica" da loucura. Seria ela algo atemporal, condição da história que paira sobranceira sobre cada gesto doador de sentido? Seria um resíduo de ausência de sentido, jogado para fora de cada "decisão" histórica que limita e divide aquilo que nos será o familiar e o estranho?


Georges de La Tour (1593-1652), embora em passagem breve, pode auxiliar na compreensão do estatuto do trágico no classicismo:

A desrazão mantém a mesma relação com a razão que o ofuscamento com o brilho do dia. E isto não é uma metáfora. Estamos no centro da grande cosmologia que anima toda a cultura clássica. O "cosmos" da Renascença, tão rico em comunicações e simbolismos internos, dominado inteiramente pela presença cruzada dos astros, desapareceu, sem que a 'natureza' tenha encontrado sua condição de universalidade, sem que acolha o reconhecimento lírico do homem e o conduza no ritmo de suas estações. O que os clássicos retêm do 'mundo', o que já presentem da 'natureza', é uma lei extremamente abstrata, que no entanto constitui a oposição mais viva e mais concreta, a do dia e da noite. Não é ainda a época fatal dos planetas, não é ainda a época lírica das estações; é o tempo universal, mas absolutamente dividido, da claridade e das trevas. Forma que o pensamento domina inteiramente numa ciência matemática - a física cartesiana é como uma mathesis da luz - mas que ao mesmo tempo traça na existência humana a grande cesura trágica: a que domina do mesmo modo imperioso o tempo teatral de Racine e o espaço de Georges de la Tour. O círculo do dia e da noite é a lei do mundo clássico: a mais reduzida, proém a mais exigente das necessidades do mundo, a mais inevitável, porém a mais simples das legalidades da natureza. (História da Loucura. SP, Perspectiva, 1995, p. 244).

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10 Outubro 2005 - Frank Frazetta: Fantasy Art

Apparition Prints by Frank Frazetta Egyptian Queen Prints by Frank Frazetta The Berserker Poster by Frank Frazetta

Sorcerer Prints by Frank Frazetta Dinosaurs Posters by Frank Frazetta Sun Goddess Art by Frank Frazetta
Link: allposters.com

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09 Outubro 2005 - BibliOdyssey e os espelhos

"Caso pareça que sei tudo, então os espelhos estão funcionando".

Michel Foucault, ao escrever sobre Flaubert, em 1964 ("As Tentações de Santo Antão") chamava a atenção do livro de Flaubert sobre o anacoreta ser totalmente ancorado no saber bibliográfico. Tudo no livro está apoiado na mudez e na erudição da poeira das bibliotecas; mas isso não garante que o que Flaubert mostra - às vezes sob a forma do teatro, outras vezes por outros estilos - tenha alguma relação com algum fato efetivo. As Tentações seriam, assim, um livro totalmente feito a partir de outras obras, mas uma obra que nada deve às representações da realidade, à fidelidade aos outros livros, e assim por diante. Um livro que, colocando obras umas na frente das outras, gera um espaço de puro saber (a palavra é de Foucault), sem referências à realidade.

Curioso jogo de disposição de obras, umas na frente das outras, que Foucault enfoca por muitas vezes. É assim, para ele, em Sade, em Blanchot, em Borges, e em vários outros. Esse jogo, em que uma obra simplesmente não diz nada além do espaço que ela mesma abre, jogo essencialmente transgressivo, por não se direcionar à realidade, mas muito dizer por sobre ela, é um jogo de espelhos, em que o autor anula a si mesmo, ao mesmo tempo instrumento de soberania da linguagem, e nada.

Talvez seja nessa direção que o BibliOdyssey caminha, junto ao Giornale Nuovo. São blogs que mostram que há pensamento para além da pedagogia dos papers, há pensamento sem autoria, sem autoridade, e com implicações como a da apresentação da BibliOdyssey. Quando o autor cria um jogo de espelhos, é como se ele soubesse tudo. Mas isso pouco importa, pois efetivamente, esses espelhos tem algo a dizer.

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08 Outubro 2005 - Constantine Cavafy: Monotonia (1908)

Um dia monótono é seguido
por outro monótono e idêntico dia. As mesmas
coisas acontecerão, e tornarão a acontecer -
os mesmos momentos nos encontram e partem.

Um mês passa e traz outro mês.
Pode-se facilmente adivinhar o que vem;
são as mesmas coisas fastidiosas de ontem.
E a manhã se completa sem parecer mais manhã.

- Constantine P. Cavafy -
Tradução/traição: nomade z

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Publicado por nomadez às 1:24 PM - 0 comentários



- Foucault e as corriqueiras críticas monstruosas

Um artigo intitulado "In the Asylum", escrito por alguém chamado Theodore Dalrymple, comete uma série de barbaridades sobre as leituras de Foucault. O curioso é encontrar a céu aberto, em publicação, esse tipo de opinião:

In Foucault?s Nietzschean vision, all human institutions?even, or especially, those of avowedly beneficent intent?are expressions of the will to power, because such a will underlies all human activity. It is not really surprising, then, if asylums had turned into nothing but chambers of horrors: for psychiatry, and indeed the whole of medicine, to the rest of which Foucault soon turned his undermining attention, were not enterprises to liberate mankind from some of its travails?enterprises that inevitably committed errors en route to knowledge and enlightenment?but expressions of the will to power of the medical profession. The fact that this will was cloaked under an official ideology of benevolence made it only the more dangerous and sinister. This will needed to be unmasked, so that mankind could liberate itself and live in the anarchic Dionysian mode that Foucault favored. (A sadomasochistic homosexual, the French philosopher later lived out his fantasies in San Francisco, and died of AIDS as a result.)
Mas esse tipo de opinião - pasmem - é corriqueira. E não se resume aos meios acadêmicos norte-americanos, que, se por um lado possuem bons e tradicionais filósofos, por outro, às vezes criam enormes barbaridades 'civilizadas'. Não é difícil encontrar monstruosidades da crítica a Foucault nos textos de língua portuguesa... Para ver apenas um caso (em minha opinião, um dos mais grosseiros, já que Foucault é utilizado para legitimar práticas de management), basta clicar aqui.

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Publicado por nomadez às 10:22 AM - 0 comentários



07 Outubro 2005 - Jean Claude Claeys: ilustrações

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Publicado por nomadez às 8:31 PM - 1 comentários



- La silenciosa guerra por el agua se libra en todo el planeta

Por Marcel Claude

ro de octubre de 2005

(JPEG) Aunque ninguna de las justificadas y urgentes demandas sociales que se le hacen al modelo neoliberal, impuesto en Latinoamérica y gran parte del mundo, lograran hacer un cambio estructural al modelo de acumulación que conlleva el neoliberalismo y la globalización galopante que todos sufrimos, el orden neoliberal que ha sido creado tendría que enfrentarse a una transformación profunda, ya no urgido por los movimientos sociales, sino por una realidad mucho menos negociable ni susceptible de represión político-militar: la escasez de recursos naturales, especialmente del agua.

Esta realidad está a la vuelta de la esquina. Únicamente el 2,5% del agua del planeta es dulce, y menos de la mitad está disponible para ser utilizada. Actualmente más de 1.200 millones de personas, sobre todo en América Latina, África y Asia, sufren la escasez del vital elemento en algún grado. Según el Fondo de Población de Naciones Unidas, dentro de 25 años una de cada tres personas en la Tierra tendrá poca agua o nada.

Las obvias consecuencias de esta escasez (desertificación, menos producción de alimentos, aumento de enfermedades infecciosas y destrucción de ecosistemas), ya es motivo de tensiones políticas y sociales internas en Latinoamérica, tal como ocurrió hace pocos años en Bolivia, donde la privatización del agua potable de Cochabamba, alzó a su gente en una revuelta que acabó con varios muertos y con la ciudad en estado de sitio.

Estos mismos problemas internos, se transformarán pronto en conflictos internacionales, cuando se acentúe aún más la diferencia entre países ricos en agua y los que no cuentan con grandes reservas; todo esto enmarcado en un sistema económico que ha sido incapaz de asignar eficientemente este recurso.

Lo anterior es un reflejo de dos fenómenos crecientes en todo el planeta: la privatización del agua, donde las grandes transnacionales están haciendo sentir su poder económico en muchos pueblos del Tercer Mundo, en un negocio que se sabe es altamente lucrativo.

Coca Cola predice que su agua -en algunos países más cara que la gasolina- terminará dando mayores beneficios que sus bebidas gaseosas en muy pocos años. Para esto basta recordar la polémica suscitada en el Reino Unido hace exactamente un año, cuando esta transnacional reconoció estar envasando agua potable de Londres, para venderla como agua mineral a 3 euros el litro.

El segundo fenómeno es la cada vez más acelerada militarización de las grandes fuentes de agua, o como se presenta eufemísticamente bajo la "protección" de potencias extranjeras. Por ejemplo, diversos analistas concuerdan que uno de los objetivos estratégicos de la invasión a Irak fue el control de los dos ríos más importantes del Medio Oriente, territorio donde el agua es tan preciada como el petróleo.

Y existen ejemplos mucho más cercanos: en Argentina, una investigación del Centro de Militares para la Democracia, llegó a una preocupante conclusión: «La cíclica presencia del Comandante del Ejército Sur de EE.UU. en la Triple Frontera, las declaraciones del Departamento de Estado y los rumores de que allí habría terroristas tienen un objetivo: el control del Sistema Acuífero Guaraní (SAG), un verdadero océano de agua potable subterráneo que tiene allí su principal punto de recarga».

Ampliamente demostrada la inoperancia del mercado para administrar este recurso, sólo queda una cosa por hacer: convencer a los pueblos del mundo que el agua, más que un bien negociable, es un derecho básico, y que como tal requiere la protección estatal para ser garantizada a la ciudadanía.

Si cada Estado es incapaz de asegurar este derecho, tendremos entonces que seguir el valiente ejemplo cochabambino, que logró a fuerza de desobediencia civil, recuperar su derecho fundamental de contar con agua para seguir viviendo.

 Altercom
Marcel Claude
Marcel Claude es Director Ejecutivo de la ONG Oceana, Oficina para América Latina y Antártica.
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Publicado por nomadez às 1:38 PM - 0 comentários



- Veríssimo: Aprenda a chamar a polícia ... falando em desarmamento ...

Eu tenho o sono muito leve, e numa noite dessas notei que havia alguém andando sorrateiramente no quintal de casa.Levantei em silêncio e fiquei acompanhando os leves ruidos que vinham lá de fora, até ver uma silhueta passando pela janela do banheiro.

Como minha casa é muito segura, com grades nas janelas e trancas internas nas portas, não fiquei muito preocupado, mas era claro que eu não ia deixar um ladrão ali, espiando tranquilamente.

Liguei baixinho para a polícia, informei a situação e o meu endereço. Perguntaram-me se o ladrão estava armado ou se já estava no interior da casa. Esclareci que não, então disseram-me que não havia nenhuma viatura por perto para ajudar, mas que iriam mandar alguém assim que fosse possível. Um minuto depois liguei de novo e disse com a voz calma :

- Oi, eu liguei há pouco porque tinha alguém no meu quintal. Não precisa mais ter pressa. Eu já matei o ladrão com um tiro da escopeta calibre 12, que tenho guardada em casa para estas situações. O tiro fez um estrago danado no cara !

Passados menos de três minutos, estavam na minha rua cinco carros da polícia, um helicóptero, uma unidade do resgate , uma equipe de TV e a turma dos direitos humanos, que não perderiam isso por nada neste mundo. Eles prenderam o ladrão em flagrante, que ficava olhando tudo com cara de assombrado, talvez ele estivesse pensando que aquela era a casa do Comandante da Polícia.

No meio do tumulto, um tenente se aproximou de mim e disse :

- Pensei que tivesse dito que tinha matado o ladrão.

Eu respondi :
- Pensei que tivesse dito que não havia ninguém disponível.

Luís Fernando Veríssimo

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Publicado por nomadez às 12:26 AM - 1 comentários



06 Outubro 2005 - Dante: The Infinite Mirror


"The infinite mirror"
(Pirambu-Sergipe-Brasil)
Imagen/s por DANTE
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Publicado por nomadez às 10:50 PM - 0 comentários



- Abu Graib é "fichinha"


Soldados norte-americanos posando junto a corpo carbonizado

Já faz um bom tempo que vi, antes do escândalo de Abu Graib, uma série de fotos da guerra. Não tenho mais o link daquelas fotos. Nelas, podiam-se ver corpos carbonizados junto a veículos de guerra. Nada além de cenas de batalha, nada parecido com Abu Graib. Mas a partir de uma reportagem do Observatório da Imprensa, seguindo os links apresentados por Carlos Castilho, só fica a sensação de que os acontecimentos ocorridos em Abu Graib são simplesmente "fichinha".

Acompanhando os links do OI, chego aos comentários, aos títulos, e às fotos do nowthatsfuckedup.com.
O site é de pornografia, mas há vários tópicos dedicados à divulgação de fotos da guerra, com sugestivos títulos e comentários. Conforme Castilho, o site fornecia privilégios de assinatura a soldados que enviassem fotos comprovando a veracidade de estarem no front. O tom de crueldade e desprezo das fotos, dos comentários e dos títulos de cada tópico fazem o sadismo de Abu Graib ainda parecer pouco. Fiquei simplesmente sem reação ao ver e ler:

- Suicide bomber (this is one of the most gruesome pages on the entire site)
- Just got back from the sand box (this is also one of the worst pages)
- Warning this is some hard core shit (and it is)
- Die Haji Die
- Cooked Iraqi
- Name this body part
- Nice puss - bad foot
- Destruction of the Afghans
- Gotta respect the head shot
- Iraqi tried to run checkpoint
- This is disgusting

A foto acima, da série "cooked iraqi" (vinculada no americablog), mostra bem o tom da "brincadeira".

Mas o mal-estar não se resume à terrível sensação de ver as fotos e ainda ler os títulos (como o "nice puss, bad foot") e comentários. Em nossos tempos, as "boas consciências" que mostram que até mesmo fenômenos climáticos são intimamente relacionados aos níveis de consumo, essas boas consciências que vão a palestras e lêem livros de receitinhas de "gurus" como Fritjot Capra, pouco refletem sobre o quanto cada ação individual e cotidiana - alardeada por elas mesmas como 'libertadoras' - diz respeito à manutenção de mentiras e guerras.

Enquanto isso, deixemos na cabeça a assinatura do usuário "One leg at a time" ("uma perna por vez", nick de um provável soldado), do nowthatsfuckedup.com. Ao dizer, sobre o iraquiano carbonizado, que a paz no mundo não é conquistada em apenas uma noite, conclui:

We´re all animals here
Flesh and blood
Bone and dream
We´re just impulses here
Just another piece of shit

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Publicado por nomadez às 12:20 PM - 1 comentários



- Sobre o desarmamento

É muito curioso fazer votação para escolher se o dito "cidadão" pode escolher ou não!

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Publicado por nomadez às 12:06 PM - 0 comentários



04 Outubro 2005 - Olavo de Carvalho: "O Super-último-homem"

É quase regra que, ao deparar-me com o nome de Olavo de Carvalho, o que verei é uma tremenda balela. Atentados e planos para a destruição do mundo projetados por chineses e muçulmanos, invasões arquitetadas por Cuba, planos de golpe no Brasil pelo MST, injustiças cometidas pelos campesinos contra os grandes proprietários de terra... Olavo de Carvalho é quase um redator dos Protocolos dos Sábios de Sião - quase um caso a ser analisado pelo Analista de Bagé.

Entretanto, às vezes me impressiono com um ou outro texto. Por exemplo, "O Super-último-homem", publicado no Zero Hora de Porto Alegre, acerta no alvo o coração dos "descolês", "engagés", "transados", intelectuais de botique e afins.

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Publicado por nomadez às 11:31 PM - 0 comentários



- Constantine Cavafy: A cidade (1910)


Dizes: "Irei a outra cidade, irei a outro mar.
Outra cidade será encontrada, melhor que essa.
Todo esforço meu é condenado pelo destino;
e meu coração está - como um cadáver - sepultado.
Até quando nesse marasmo permanecerá meu espírito.
Para onde quer que volte meus olhos, para onde posso mirar
Vejo aqui as obscuras ruínas de minha vida,
Onde passei tantos anos, a arruinei e desperdicei"

Novas terras você não irá encontrar, você não encontrará outros mares.
A cidade irá seguir você. Vagarás pelas mesmas
ruas. E nos mesmos bairros te farás idoso,
nessas mesmas casas envelhecerá.
Sempre você chegará nessa cidade. Para outra cidade - não espere -
não há barco, não há caminho.
Assim como você arruinou sua vida aqui
nesse pequeno lugar, no mundo inteiro está destruída.

- Constantine Cavafy -
(tradução/traição: nomadez)

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Publicado por nomadez às 1:29 PM - 0 comentários



02 Outubro 2005 - Fritz Lederer - In the Eruv of Theresienstadt

Fritz Lederer foi um pintor judeu que assistiu às duas guerras. O título ("eruv") refere-se a um ritual judeu, misturado ao confinamento dos guetos.




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Publicado por nomadez às 11:21 AM - 0 comentários



01 Outubro 2005 - Foucault e a suspensão dos lugares

José Ternes inicia seu livro "Foucault e a idade do homem" com uma citação de Heidegger, que faz uma pergunta que percorre grande parte do pensamento Foucaultiano: "Será possível chamar de Irracionalismo o reconduzir o pensar ao seu elemento?"

Pois bem, reconduzir o pensar ao seu elemento, em Michel Foucault, implica diretamente numa pergunta sobre as próprias condições de possibilidade de nosso pensamento. Como poderíamos pensar as condições do próprio solo que permite nosso pensamento? A arqueologia parece, assim, sempre remetida a nós mesmos.

É nessa remissão a nós mesmos que parece estar a maior crítica de Foucault às ciências humanas. Pois é perguntando sobre o lugar mesmo do qual falamos que se situa a crítica - sem interrogar por práticas verdadeiras ou legítimas - em seu viés mais radical. Aqui está o primeiro - e fundamental - ponto em que Foucault pode dialogar com os 'cientistas humanos': o ponto onde o próprio lugar de 'cientista', e 'humano', é suspenso, ou mesmo, implodido (já que é de seu próprio "solo" que provém a crítica). O uso da argumentação foucaultiana para legitimar certas práticas inseridas na atuação cotidiana do cientista humano, quando este não critica radicalmente o próprio lugar de onde fala, muitas vezes pode ser reinserida na própria dinâmica desse lugar que não é posto em questão. E, no fim das contas, sem a crítica, o "cientista humano" não deixa de fazer nada mais do que a mesma ciência humana que critica.

Para tanto, surge aí uma questão, para aqueles que desejam aventurar-se no "lugar" perigoso e movediço da crítica de seu lugar: suspendendo o próprio lugar de onde fala, no que se torna um (psicólogo, sociólogo, literato, historiador, crítico...) 'cientista' 'humano'?
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Publicado por nomadez às 9:00 PM - 0 comentários



- O Lego de Michel Foucault

Como não há mais nada para inventar, andaram inventando os Legos de alguns dos teóricos mais importantes da contemporaneidade. O slogan: "Lego para fans da teoria social; Teoria social para fans de Lego".

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Publicado por nomadez às 11:08 AM - 2 comentários



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Numa página chamada “marketing hacker“, um prodigioso paradoxo: “o nômade se move de maneira turbilhonar pelo espaço. E faz das suas roupas e pertences, o seu “território”. O nômade nunca muda, ele sempre está em casa.“




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