27 outubro 2005

Sobre Michael Hardt


Em um post anterior, fez-se uma breve apresentação sobre o novo livro de Negri e Hardt sobre o Império, intitulado "Multidão". Como se pode ver, por exemplo, em "Pensar e viver de outro modo", Negri teve boas interlocuções com Guattari no período em que esteve preso. Mas e Hardt? Este, parece à primeira vista desconhecido. Entretanto, há trabalhos muito interessantes desse norte-americano, que dizem diretamente respeito aos "campos" da autonomia, e a reflexões importantíssimas sobre os modos de pensar que se articulam a esses campos.

Há um weblog chamado "devires" que cita uma frase muito interessante de Deleuze em sua apresentação: "Os modos de vida inspiram maneiras de pensar, os modos de pensar criam maneiras de viver". Ora, não se trata apenas de dizer que as práticas se traduzem em teorias, ou que sobre qualquer fato há uma aproximação possível do pensamento, mas sim que há certos planos em que pensamentos e ações são possíveis - não havendo, pois, tradução entre esses dois termos, mas essencialmente entrecruzamentos, engendramentos, "agenciamentos". É desse modo que textos ditos mais "teóricos" podem ajudar a compreender "práticas" de autonomia, mesmo sabendo, de antemão, que tais textos e tais práticas cindem - ao menos, esse é o projeto - a divisão entre teoria e prática.

É nesse sentido que gostaria de chamar a atenção a um texto de Hardt, chamado "Gilles Deleuze - um aprendizado em filosofia", publicado no Brasil pela editora 34. Se parece de início uma dissertação a respeito do "pensamento" deleuziano, há um profundo compromisso em mostrar como Deleuze, apoiando-se em filósofos como Bergson, Nietzsche e Espinosa, busca desviar-se dos postulados que reinavam no pensamento francês do pós-guerra. Como alvo longínquo, está não apenas o pensamento francês, mas Hegel e a dialética, e a pergunta: como construir um pensamento que não recaia nas categorias da consciência e do sujeito, e ao mesmo tempo fuja a uma apreensão dialética? Tarefa gigantesca e dura a ser considerada, já que qualquer tentativa de desvio da dialética pode ser tomada como tentativa de superação, categoria eminentemente dialética. Em outras palavras, um projeto não-dialético facilmente recai nas malhas da dialética, e desviar-se dela, sob muitas formas, implica realizá-la.

Daí a tarefa: como encontrar uma negação que não ofereça recursos, uma diferença que de modo algum possa ser sintetizada, aclarada sobre as categorias subjetivas? Para Deleuze - diz Hardt -, uma negação absoluta e não-dialética não é apenas uma possibilidade lógica, mas nada mais do que algo a ser constatado no próprio mundo, através de um "criticismo nuclear" (a "negação" oferecida por uma bomba nuclear não permite qualquer recurso, é a destruição total), e em pensamentos como o de Roger Bacon. Os momentos de uma negação absoluta, ao contrário de uma estrutura tripartite que constitui a dialética (tese, negação e síntese), constituem essencialmente um par que impede qualquer recurso sintético: Pars destruens, pars construens. Ao invés de síntese, a destruição abriria lugar à criação de algo essencialmente novo, livre dos movimentos anteriores, atitude que Hardt reporta a um verdadeiro pensamento crítico. Nos diferentes momentos dessas implicações, Deleuze lançará mão (segundo Hardt) de Bergson, Nietzsche e Espinosa, como recursos para construção de um pensamento livre da dialética e do hegelianismo. Nesse sentido, é que se pode abrir espaço a uma nova concepção de ação e de política que não meramente repita as práticas e conceitos hegemônicos até o pós-guerra.

No site de Hardt, há alguns textos bastante interessantes a respeito desses assuntos. Num texto muito semelhante à Introdução ao livro sobre Deleuze que comentamos acima, Hardt trabalha com a noção de negação analisando-a não apenas em Deleuze, mas também em Negri. Há também no site outros textos sobre Marx e sobre Deleuze e Guattari.

foto: Hardt com Toni Negri, capturada no site repubblica.it

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