23 Setembro 2005 - Hakim Bey: Sobre o nomadismo psíquico

link: zona autônoma provisória

De importância vital para a expressão da realidade ZAP é o conceito de nomadismo psíquico (ou como lhe chamamos por piada ? ?cosmopolitanismo sem raízes?). Aspectos deste fenómeno foram já discutidos por Deleuze e Guattari em Nomadology and the War Machine, por Lyotard em Driftworks e outros autores na edição sobre o tema do Oásis na publicação Semiotext(e). Usamos o termo ?nomadismo psíquico? em detrimento de ?nomadismo urbano?, ?nomadologia?, ?trabalho de dispersão (driftwork)?, etc., apenas para que possamos reunir todas estas ideais num complexo vagamente estruturado, para ser estudado à luz da aparição da ZAP.

?A Morte de Deus?, que de certo modo funcionou como uma descentralização do projecto civilizacional Europeu, gerou uma mundividência multi-perspectivada e pós-ideológica capaz de se movimentar sem estar presa às suas raízes entre filosofia e mito tribal, entre ciências da natureza e Taoísmo ? possibilitando a capacidade de ver pela primeira vez como se através dos olhos de algum insecto dourado, cada faceta mostrando um mundo inteiramente diferente.

Esta visão foi todavia conquistada por vivermos numa época em que a velocidade e o ?fetichismo do bem de consumo? criaram uma unidade falsa e tirânica que tende a diluir a diversidade cultural e individual, fazendo com que um lugar ?seja tão bom como outro qualquer.? Este paradoxo cria ?ciganos?, viajantes psíquicos impelidos pelo desejo ou pela curiosidade, vagabundos com lealdades pouco arreigadas (e verdadeiramente desleais ao ?projecto Europeu?, que perdeu já todo o charme e vitalidade), não acorrentados a nenhum tempo ou local particulares, procurando diversidade e aventura? esta descrição não cobre só a classe-X que são os artistas e intelectuais mas também os trabalhadores migrantes, os refugiados, os desalojados, os turistas, a cultura das roulottes ? e ainda as pessoas que ?viajam? pela Internet, que talvez nunca venham a sair dos seus quartos (ou aqueles que, como Thoreau, ?viajaram muito ? em Concord ?); e por fim ?toda a gente? está incluída, todos nós, que vivemos num percurso por automóveis, férias, televisões, livros, filmes, telefones, mudamos de emprego, de ?estilo de vida?, religiões, dietas, etc., etc.

O Nomadismo Psíquico como táctica, aquilo a que Deleuze e Guattari metaforicamente chamam ?a máquina de guerra?, transforma o paradoxo passivo num paradoxo activo e talvez até ?violento?. As últimas agonias e estertores de ?Deus? no seu leito de morte já se fazem ouvir há tanto tempo ? materializados no Capitalismo, no Fascismo e no Comunismo, por exemplo ? que ainda sobra muita ?destruição criativa? a empreender por parte de comandos pós-Bakuninistas e Pós-Nietzcheanos ou apaches (literalmente ?inimigos?) do velho consenso. Estes nómadas praticam a razzia, são corsários, são um vírus; desejam a ZAP e precisam dela, acampamentos de tendas negras debaixo das estrelas do deserto, interzonas, oásis secretos, fortificados, ligados por caravanas em rotas ocultas, pedacinhos de selva e terra-má ?libertados?, zonas de acesso não recomendado , mercados negros, bazares clandestinos.

Estes nómadas cartografam as suas rotas olhando para estrelas bizarras, que podem ser cachos luminos de informação no ciberespaço, ou alucinações, quem sabe. Abram sobre a mesa um mapa da terra; sobreponham um mapa das mudanças políticas; por cima desse, um mapa de Rede, especialmente da Contra-Rede com típico ênfase no tráfico de informação e logística clandestinas ? e finalmente, cobrindo tudo, o mapa 1:1 da imaginação criativa, a estética, os valores. A grelha resultante anima-se com explosões energéticas inesperadas, coágulos de luz, túneis secretos, surpresas.

Publicado por nomadez às 10:03 AM - 1 comentários



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Numa página chamada “marketing hacker“, um prodigioso paradoxo: “o nômade se move de maneira turbilhonar pelo espaço. E faz das suas roupas e pertences, o seu “território”. O nômade nunca muda, ele sempre está em casa.“




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